Estudo mostra que Barra é o terceiro principal polo da Região Metropolitana Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/rio/bairros/estudo-mostra-que-barra-o-terceiro-principal-polo-da-regiao-metropolitana-19759818#ixzz4F9GU8s1v © 1996 – 2016. Todos direitos reservados a Infoglobo Comunicação e Participações S.A. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.

A intensa atividade econômica, com oferta diversificada de serviços, pode não ser novidade para moradores da Barra e dos bairros vizinhos. Entretanto, o resultado de uma inédita pesquisa sobre centralidades da Região Metropolitana do Rio, realizada pelo Sebrae e pelo Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets), pode surpreender muitos outros cidadãos fluminenses, ao atestar a relevância do bairro, terceiro centro mais importante da região em termos de oferta de empregos, mobilidade e escolaridade. A área está à frente de qualquer parte da Zona Sul e quase empatada com Campo Grande, o segundo colocado, com seu meio milhão de habitantes — quase o quádruplo da Barra. O primeiro lugar ficou com o Centro.

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O estudo, apresentado no último dia 30, foi encomendado pela Câmara Metropolitana do Rio, organismo criado pelo governo estadual para estabelecer diretrizes de governança e realizar um planejamento integrado para a Região Metropolitana, que inclui 20 municípios além da capital. A pesquisa será uma importante base para a elaboração do Plano Diretor da área, com financiamento do Banco Mundial, que deverá ser apresentado na Alerj no início do ano que vem. Compilando dados da Relação Anual de Informações Sociais, do Ministério do Trabalho, do Censo 2010 do IBGE, do Plano Diretor de Transporte Urbano de 2012, da Prova Brasil 2013 e do Data SUS, os pesquisadores analisaram 160 áreas e destacaram as 30 maiores centralidades.

A pesquisa analisou cinco aspectos: densidade de empresas, densidade de empregos formais, densidade de matrículas acima do nível médio, densidade de deslocamentos de destino e diversidade econômica. A região da Barra, que na pesquisa se estende até uma parte do Recreio e a área ao redor do Parque Olímpico, destacou-se, principalmente, na quantidade de empregos formais, o segundo maior desempenho do Rio, com quase 180 mil, atrás apenas do Centro da cidade.

Diretor do Iets, Manoel Thedim definiu o conceito de “centralidade econômica” como uma área com grande força, que atrai muita gente pela oferta de trabalho e de serviços.

— A relevância da centralidade faz com que as pessoas se dirijam para lá todo dia. Vimos que as 30 maiores centralidades da região concentram mais de 70% dos postos de trabalho — explica Thedim, que, apesar de não ter feito um levantamento histórico, já que o estudo é inédito, diz ser capaz de afirmar que a Barra foi o centro que mais cresceu em toda a região. — Foi um processo de muitos anos; uma opção de política pública em favor do bairro. Foram muitos investimentos, inclusive porque lá existem até hoje diversas áreas desocupadas, bem mais que na Zona Sul.

A Avenida Ayrton Senna é uma das mais movimentadas da Barra – Fabio Rossi / Agência O Globo
Responsável pela parte final da pesquisa, a de caracterizar as centralidades, a pesquisadora do Iets Maína Celidonio afirma que a Barra é a mais recente da Região Metropolitana:

— O que chama a atenção é a quantidade de serviços e comércios, o que tem muito a ver com a quantidade de shoppings. As obras recentes também impulsionaram os empregos na construção civil. É um bairro bem peculiar. A densidade populacional é baixa; a renda média e o salário médio são altos. Outro ponto que chama a atenção é a motorização: quase 90% da população anda de carro, o principal meio de transporte.

O diretor executivo da Câmara Metropolitana do Rio, Vicente Loureiro, salienta que a área ainda é muito elitizada em comparação ao restante da Região Metropolitana. E acredita que o amento populacional previsto por diferentes estudos, inclusive a pesquisa das centralidades, pode gerar mais diversidade e melhorias estruturais.

— O percentual de pobres é pequeno em comparação com o de outros bairros. Talvez a mistura de classes sociais no futuro seja mais harmônica e sustentável; pode ser algo positivo — defende. — Aumentando-se a densidade, acelera-se o processo de desenvolvimento. É utópico pensar que a infraestrutura vai chegar ao bairro antes dos moradores. E, mesmo com todas as deficiências, a Barra bombou.

DISTRIBUIR RECURSOS É NECESSIDADE

O objetivo do Plano Diretor da Região Metropolitana é direcionar políticas públicas e planejar a área sob a perspectiva de torná-la uma metrópole polinucleada, ou seja, com mais de um núcleo central, reduzindo assim a pressão sobre um único destino, como acontece hoje com o Centro do Rio. O diretor executivo da Câmara Metropolitana, Vicente Loureiro, explica a importância do estudo para a elaboração do plano:

— A pesquisa nos dá subsídio para orientar políticas de mobilidade, saneamento, habitação e interesse social, para fortalecer o que precisa ser fortalecido e estabelecer uma rede de centralidade na Região Metropolitana. Precisamos distribuir melhor a oferta de empregos e serviços. Em toda a metrópole, 30% das viagens diárias são com objetivo de educação, outro aspecto que pode ser descentralizado. Longas viagens por motivos de saúde também são frequentes. Essa rede pode e deve ser mais bem distribuída.

O próximo passo da Câmara Metropolitana é apresentar a fase chamada de “Visão de futuro”, em agosto, quando serão apontadas centralidades que precisam ser fortalecidas e estimuladas. Depois disso, serão elaboradas propostas, e até março o Plano Diretor deve chegar à Alerj. No caso da Barra, Loureiro destaca alguns desafios, lembrando que a tendência é que cresça ainda mais, com a inauguração de novos modais de transporte, como BRT e metrô:

— Deve haver aumento da densidade demográfica, num processo que precisa envolver moradores e prefeitura, para que o crescimento seja sustentável. Outro desafio é aumentar a porcentagem de moradores que trabalham na própria Barra, já que não são eles que ocupam a maioria dos empregos ali ofertados; isso poderia melhorar sua qualidade de vida. O aumento de leitos e postos de saúde também é um desafio, além da redução do tempo de viagem, que pode vir com os novos modais, mas também com propostas novas, como o transporte aquaviário.

Muitos moradores da região se queixam da infraestrutura precária, principalmente no que tange ao saneamento básico, em áreas menos urbanizadas, como o Recreio, mas também no coração da Barra. Manoel Thedim, diretor do Iets, observa que os contrastes sociais ficaram bem evidentes na pesquisa:

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— Os locais mais centrais tendem a ter desigualdade maior também. O que é inevitável, mas o maior desafio é fazer com que a classe mais pobre não seja tão pobre. A Barra hoje tem muitos problemas, mas ainda está crescendo bastante, principalmente na área perto do Parque Olímpico, num movimento que se assemelha ao que ocorreu no resto do bairro nas décadas de 1970 e 1980, com a iniciativa privada ocupando terrenos próximos a novas construções viárias.

Os Jogos do Rio contribuíram para o incremento dos investimentos. A fim de receber o público esperado para o evento, a rede hoteleira cresceu significativamente, tornando o bairro o segundo maior polo da área: pelo menos dez mil novos quartos surgiram. O saldo atual é de cerca de 70 empreendimentos e 12 mil quartos, o que gera ao menos 40 mil postos de trabalho, diretos e indiretos. Ademais, o investimento em centros de convenção nos hotéis busca consolidar a Barra como destino de negócios na cidade.

O mercado imobiliário também não arrefeceu: dados da Secretaria municpal de Urbanismo mostram que, mantendo a tendência de mais de uma década, ele segue firme no bairro. Das 5.734 unidades residenciais e comerciais que receberam habite-se no primeiro trimestre de 2016, quase metade, ou 2.814, estão no bairro.

EXPANSÃO DE REDES E NOVOS NEGÓCIOS

A região próxima ao Parque Olímpico mostra o quanto a região da Barra ainda cresce. Novos prédios, hotéis e ruas são realidade, e implicam na chegada de mais moradores e visitantes. A reboque, surgem também centros comerciais, como é o caso do popularmente chamado de Minha Praia, por se situar ao lado do condomínio de mesmo nome, na Avenida Salvador Allende.

Aberto há um mês e meio no centro comercial, o restaurante Empório 5 não teve um dia de casa vazia, afirma a gerente Vanessa Soledade:

— O público é mais de moradores da região, mas também temos muitos turistas atualmente. Lembro que aqui era só mato; hoje é um novo lugar. Achamos que o movimento só aumentará daqui para a frente.

O maior estabelecimento do centro é uma loja do Habib’s, que foi aberta em 2014 e sofreu no último ano com a interdição de um trecho da Salvador Allende.

Leonardo dos Santos, do Habbib’s da Salvador Allende: “Isso aqui era um pântano” – Fábio Rossi / Agência O Globo
— Com a obra, perdemos 70% do faturamento. Agora a expectativa melhorou muito. Este é um polo que vai se desenvolver rápido. Em termos de infraestrutura, a diferença já é gritante: antes isso era um pântano — conta o administrador, Leonardo dos Santos.

Enquanto novos centros comerciais se consolidam, os tradicionais continuam mostrando sua força. Depois de sete expansões — a última, em 2014 —, o BarraShopping se mantém como um dos principais da cidade. Tem cerca de 12 mil empregados, diretos e indiretos, e mais de 700 operações, incluindo lojas, restaurantes e estabelecimentos de lazer. Com tantas opções, mais de cem mil pessoas passam pelo shopping diariamente, movimentação maior que a de muitos pontos turísticos do Rio.

— O BarraShopping influenciou fortemente o desenvolvimento da Barra. Recebemos clientes de todos os lugares do Rio, e eles encontram um espaço onde é possível resolver a vida — afirma Jussara Nova Raris, superintendente do BarraShopping.

Uma das lojas mais tradicionais do shopping é a Chilli Beans, de óculos, que mantém uma loja e um quiosque no centro comercial.

— No mês passado já notamos influência da Olimpíada nas vendas, com altíssima procura por óculos esportivos — explica a supervisora Renata Urgal. — As lojas da região têm o maior ticket médio (valor de venda médio) mensal da cidade, ao lado do Leblon.

Simultaneamente, alguns gargalos da região começam a se resolver. Na área de saúde, um dos principais deles, segundo a pesquisa de centralidades, o setor privado vem investindo pesado. A inauguração do Américas Medical City, no fim de 2014, credenciado como referência médica da Rio 2016, significou a chegada de dois novos hospitais, o Samaritano e o Vitória, e mais 494 leitos (até o fim do ano) e 252 consultórios na região. No local, trabalham 2.060 pessoas.

Diretor executivo do complexo, Marcus Vinicius Santos explica que a chegada do Américas à Barra tem relação com a aposta da Amil, investidora do empreendimento, no crescimento do bairro.

— A empresa sempre foi entusiasta da Barra. O crescimento econômico e social do bairro impulsionou a chegada de diversas empresas — afirma Santos, morador do bairro desde 1997.

Os números do Américas comprovam a alta demanda na região. São 15 mil atendimentos na emergência, 1.100 internações e mais de sete mil atendimentos nos consultórios mensalmente. Atualmente, são três blocos, mas há outros dois em construção: um deve sediar um centro de pesquisas e capacitação e outro serviria de base para a Amil Resgate. A expansão não deve parar por aí.

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— A pediatria nos surpreendeu, atrai gente até da Zona Sul. Devemos ter um prédio novo só para isso — diz o diretor.

Fonte: O Globo
Foto: Fabio Rossi
Postado por: Raul Motta Junior