Networking cresce entre empresários que buscam soluções e parcerias

Afinal, existe uma estrutura melhor que outras para a reunião de empresários de diferentes ramos? Ir a eventos munido de cartões de visitas e com a língua afiada sobre as vantagens de seu trabalho em relação à concorrência é a melhor estratégia para alavancar seu empreendimento? Um dos modelos mais tradicionais de se fazer negócios pode se mostrar infrutífero, dependendo das circunstâncias. Reuniões das quais empresários participam meramente com a intenção de “conhecer pessoas”, em vez de buscar espaço para compartilhar experiências adquiridas ao longo de anos de trabalho, de erros e acertos, é a via contrária ao networking — termo que muito se ouve, mas cujo significado é pouco conhecido, segundo especialistas em negócios.

A expressão em inglês se refere a uma rede de contatos profissionais. Isso pode parecer simples e óbvio, mas, na prática, dizem os experts, seu alcance é muito mais amplo. E, em tempos de redução de consumo e investimentos, muita gente tem aprendido, por necessidade, o que isso quer dizer. Cada vez mais empreendedores se unem em grupos, pensando em somar forças e conhecimentos. E clubes de networking, tradicionais ou recém-formados, ganham importância e mais participantes.

Na Barra, a badalada Avenida Olegário Maciel se estabeleceu como uma das principais vias na rota cultural e econômica. Mas o público parece ainda não ter explorado tudo o que a área tem a oferecer, afirmam empresários com negócios ali. Tal percepção foi a tônica de um bate-papo descontraído entre três destes profissionais, que nele perceberam também que enfrentavam problemas semelhantes. As empresárias Adriana Ribeiro (do estúdio Blink by Torquatto e da Clínica Benesse) e Fabiane Mandarino (da Academia da Cor e Design e fundadora da Fab Creative) e a gerente de marketing Marcia Marina Caneschi (da Boulangerie Carioca) decidiram, então, unir forças e criaram o Café Networking, com reuniões mensais. A proposta atraiu 18 participantes no primeiro encontro, realizado em março. No mês seguinte, foram 40.

— Tudo nasceu da falta de comunicação que nós temos, tanto com o consumidor como entre nós, empresários. Devido ao cenário econômico, muitas pessoas estão reclamando. Mas o que podemos fazer para virar isso a nosso favor? A união faz a força. Pensamos de que forma nós podemos resolver necessidades em comum — explica Fabiane.

Pessoas que lhe mostram oportunidades. Que já chegaram lá, onde você ainda não chegou. Elas vão lhe mostrar os caminhos, abrir portas para oportunidades, corrigir a sua rota e talvez até lhe patrocinar.

Cada encontro tem uma pauta previamente definida, que pode contemplar desde aspectos como segurança até marketing e divulgação. O método é uma forma de ter uma diretriz e fazer com que os participantes possam se preparar, levantando pontos de discussão e sugerindo soluções, em vez de somente pontuar as dificuldades. Com apenas dois encontros, surgiu o embrião do Olegário de Portas Abertas, evento para divulgar a avenida e sua cultura, semelhante ao realizado em Santa Teresa.

‘A nossa ideia é fazer a Barra ser realmente vista como parte da cidade. O turista que fica nos hotéis não tem acesso ao que há no bairro’
– RAUL MELO
empresário
A proposta do evento surgiu da vontade de se criar um calendário unificado de iniciativas, maneira de motivar os estabelecimentos ao redor e de se reinventar. Os integrantes do Café Networking garantem que o grupo tem mostrado resultados, e um ponto fundamental foi o entendimento de que é preciso ver os demais estabelecimentos apenas como terceiros, e não como concorrentes. É aí que o networking funciona, quando um complementa o trabalho do outro, com seu próprio serviço ou com uma indicação, por exemplo. O grupo tem recebido propostas até de shoppings do bairro e da Associação Brasileira de Indústria de Hotéis (ABIH). Raul Melo, empresário da Rios de História Tour, vê no crescimento do movimento a oportunidade de divulgar a Barra como um todo:

— Tenho uma empresa de receptivo e uma agência. Vi a oportunidade de trabalhar numa região da cidade que obviamente vai estar em voga nos próximos meses. A nossa ideia é fazer a Barra ser realmente vista como parte da cidade. O turista que fica nos hotéis não tem acesso ao que há no bairro. A ideia é estimular os próprios funcionários dos hotéis a virem aqui, conhecer as lojas, e depois indicá-las aos seus hóspedes.

Tradicional empresa de netwoking, a americana Business Network International (BNI) aportou no Rio de Janeiro este ano com o objetivo de difundir sua filosofia: Givers Gain, traduzida como Ganhar Contribuindo. A organização, com mais de 30 anos de existência e presente em 64 países, tem aproximadamente 190 mil membros em todo o mundo e, desde março, vem realizando encontros na Barra, ministrados pelos diretores-consultores na região, Alex Assis e Rodolfo Santos. Durante as reuniões, são destacadas maneiras de identificar e explorar as oportunidades vindas da rede de contatos, que deve ser sólida e ter como base a confiança, elemento indispensável para formar parcerias, ensinam.

Os encontros têm início antes das 7h. Sem o incômodo de toques de celulares ou alertas de e-mail, os empresários se reúnem para repensar seu próprio negócio e conhecer os dos demais integrantes das reuniões. Faz parte da proposta que logo em seguida os participantes ponham em prática o que aprenderam. A equipe carioca de diretores, formada por Adriana Pina, João Cordeiro e Tiago Leitão, já tem opinião formada a respeito dos empreendedores brasileiros.

— Temos verificado que, também por questões culturais, as pessoas são muito positivas, dotadas de grande energia e de uma enorme facilidade de relacionamento, o que, no contexto de networking, ajuda bastante. Não temos notado falta de visão ou de estratégia por parte dos empresários brasileiros; pelo contrário — diz Adriana.

Há dois caminhos para participar de um clube de networking: criar seu próprio grupo, como fizeram os empresários que se reúnem na Boulangerie Carioca, ou ingressar num já estabelecido.

No caso dos grupos da BNI, há um processo que, gradativamente, procura mudar a maneira tradicional como muitos ainda fazem negócios. O discurso de venda é substituído pelo silêncio que permite ouvir o que outros empreendedores têm a dizer. Dessa interação, não é raro surgirem parcerias. No Rio, a organização promove eventos na Barra e em Copacabana. Semanalmente, há encontros abertos a empreendedores interessados. Existem ainda reuniões para grupos fechados, aos quais apenas convidados têm acesso. Neste caso, a sessão começa com todos os participantes falando de suas empresas e se apresentando. Na sequência, a partir do trabalho conjunto e da troca de experiências, eles percebem que vai sendo estabelecida uma relação de confiança mútua. As parcerias e os novos negócios são alavancados quando a rede de contatos começa a funcionar, por meio de indicações. A intenção é formar equipes de trabalho, e não juntar “pessoas numa sala todas as semanas”, salienta a diretora Adriana Pina.

— Na BNI, procuramos um perfil de agricultor e não de caçador. Um caçador só pensa nele próprio, tem como prioridade vender aos membros do seu grupo e não tenciona contribuir para com os restantes membros. O agricultor está disposto a trabalhar e a construir relações, apostando em resultados a médio e longo prazos, e investe tempo e esforço em prol do seu grupo e dos seus companheiros. Semeia para mais tarde colher. Esse é o perfil que procuramos — conta Adriana.

Não há fórmula mágica para atingir o sucesso. Mas um método, quase secreto, é usado pelo Clube do Networking, outra instituição do gênero, durante suas reuniões, realizadas em diferentes bairros, incluindo a Barra. Todos os grupos seguem um programa que é destrinchado ao longo de 12 encontros, nos quais são trabalhados os quatros pilares da filosofia do clube: desconstruir a imagem do networking, gerar conexões, gerar oportunidade de negócios e trocar dicas de gestão.

— Provavelmente, você tem uma rede de contatos que é interessante para mim. E tenho uma rede de contatos que pode ser interessante para você. Se convivemos, consigo lhe ajudar, ao abrir minha rede de relacionamentos. Mas, para isso acontecer, preciso confiar nas duas pontas: tanto em quem vou indicar como em quem vai receber a indicação — diz o sócio-fundador do Clube do Networking, Maurício Cardoso.

Os grupos são organizados sem que haja empresas concorrentes. De maneira gradual, os empresários são estimulados a apurar a percepção de que têm uma oportunidade à sua frente que pode ser transformada em negócio. Estar preparado pode gerar desde solução para um problema em comum até um novo contrato.

Na troca de experiências, o grupo se regula durante as discussões acerca das dificuldades mencionadas. A cada momento é abordada uma área da empresa, e o tema é transposto para a realidade dos participantes. O cuidado, explicam os administradores, é no sentido de evitar que os participantes se tornem meros palpiteiros, apenas opinando a respeito das situações expostas. As sugestões deram resultado para o morador do Recreio Anderson Costa, sócio-fundador da A2R Transparency, fundada em 2010 com a missão de reduzir gastos excessivos com vale-transporte. Foi no contato direto com outros empreendedores que Costa entendeu por que o serviço não deslanchava. O retorno — em forma de parcerias e negócios — veio logo na primeira participação no clube. Desde então, o empresário e sua sócia já participaram de cinco grupos do Clube do Networking, em esquema de revezamento.

— A cada participação, temos ganho profissional. No clube, tive contato com a assessoria jurídica que tenho hoje. Conhecemos muitos fornecedores e fizemos contatos ali, assim como nosso primeiro cliente. Percebemos que os outros também têm fragilidades e ganhamos confiança. O Maurício sempre fala de “sermos interessantes e não interesseiros”. Acho que é isso. Temos que apresentar resultados sem querer forçar a venda — conta Costa.

Para participar dos encontros abertos da BNI, é preciso acompanhar a programação semanal na página do Facebook da organização. Os empresários interessados no Café Networking, com reunião na Boulangerie Carioca, devem entrar em contato com Fabiane Mandarino pelo e-mail fab@fabcreativesolutions.com. As datas dos próximos grupos do Clube do Networking, inclusive na Barra, serão divulgadas no site do evento.

Fonte: O Globo
Foto: Guilherme Leporace / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior