‘A Tropa’ faz paralelo entre conflitos de uma família e 50 anos de história

Um clima de hostilidade marcou as eleições presidenciais de 2014. Discursos díspares nas redes sociais muitas vezes acabavam em conflitos e no provável fim da amizade virtual. Foi ao observar e ficar impressionado com atitudes deste tipo, que se perpetuaram com os escândalos posteriores, que o dramaturgo Gustavo Pinheiro teve a ideia de criar o texto de “A Tropa”. Na trama da peça, que chega ao Teatro Abel no próximo fim de semana, um pai, em um leito de hospital, e seus quatro filhos se encontram em um acerto de contas familiar, permeado por mais de 50 anos de história brasileira, desde a ditadura militar até a Operação Lava-Jato. As sessões acontecem na sexta, 27, às 21h, no sábado, 28, às 20h, e no domingo, 29, no mesmo horário. Os ingressos, já à venda, custam R$ 60.

— Por questões políticas, pessoas que se respeitavam se colocaram umas contra as outras. Pensei: “que lugar é esse em que vivemos onde se patrulha tudo?” Essa é uma postura fácil de se ter nas redes sociais. Então, levei isso para a vida real, para o núcleo familiar, que, na teoria, é regido pelo afeto — explica Pinheiro.

No centro do espetáculo, dirigido por Cesar Augusto, está o patriarca, um ex-militar vivido por Otávio Augusto.

— Ele é uma pessoa reacionária, contra a esquerda, preconceituoso com os homossexuais, e por aí vai — conta.

Assim como o personagem, o ator, que completa 50 anos de carreira, viveu todas as mudanças por que passou o país ao longo das últimas cinco décadas. Sua impressão é de que andamos em círculos:

— Vejo que o país não evoluiu. As lideranças políticas são vergonhosas e os governos cometem os mesmos erros — opina ele, que, na vida real, viveu a ditadura de uma forma bem diferente do personagem.

— Eu tenho a experiência da contracultura. Fazia parte do Teatro Oficina, que era um dos mais visados pela repressão. Nunca fui diretamente agredido, fisicamente, mas, o que ficou muito claro é que eles queriam acabar não só com a liberdade política, mas com a cultural também. Então, para o papel, eu me baseei em tudo o que via, na postura deles, nos relatos de tortura etc — explica o artista, que participou de montagens icônicas na dramaturgia brasileira, como “O rei da vela” e “Ópera do malandro”.

Na primeira montagem da peça, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, foram erguidas arquibancadas para o público nos dois lados do palco. No Abel, esse design não será possível. Mas, de acordo com Cesar Augusto, o palco está sendo montado o mais próximo possível da plateia.

— A ideia foi espelhar não só o público, mas também a família. As pessoas veem as reações umas das outras, assim como o elenco enxerga as diferentes reações daqueles que estão assistindo — explica ele. — Essa montagem gerou uma discussão muito interessante. Porque parte do público se manifestava a favor do discurso do pai, enquanto outra parte o repudiava totalmente — complementa o ator.

Ao misturar os conflitos familiares com as posições políticas, morais e sociais do pai e dos quatro filhos, autor e diretor fizeram, ao mesmo tempo, um diagnóstico do país e de milhares de famílias espalhadas pelo Brasil, que, imbuídas de amor e ódio, se repelem tanto quanto se atraem.

— Trabalho com a ideia da memória, como se estivesse fazendo um exame hospitalar. Entramos na memória e nos assuntos que ela traz. Ao mesmo tempo, o texto não põe a razão na boca de ninguém. Põe as questões e mostra os pontos de vista de cada personagem. Além disso, a história dessa família no hospital é uma ótima metáfora, porque o país está convalescendo com as mudanças que estão se atropelando — explica o diretor.

Fonte: O Globo
Foto: divulgação/Elisa Mendes
Postado por: Raul Motta Junior