No carinho dos fãs, Black Alien encontra o caminho do meio

Fazia mais de três anos que Black Alien não se apresentava no Rio de Janeiro quando subiu ao palco da Fundição Progresso no último sábado. Principal atração do festival Fundição Brasil Jamaica, ao lado dos The Wailers, lendária banda da ilha caribenha que acompanhou Bob Marley por anos, o Mister Niterói entrou em cena concentrado. Enquanto despejava suas rimas e conduzia com precisão uma horda de jovens que se amontoavam em frente ao palco, quase todos com uma das mãos para o alto, ele fitava o horizonte, sempre com o olhar atento por trás de seus característicos óculos de lentes para miopia e armação grossa. Tamanha disciplina surpreende quem conhece seu temperamento outrora anárquico e intempestivo, e mostra uma das características mais notáveis da nova fase do rapper.

— Tenho que manter esse equilíbrio entre o Gustavo que levantava o dedo do meio para quase tudo e o Gustavo que agora é ciente de suas responsabilidades — explicou ele, enquanto bebia um café no hall do hotel um dia antes do show.

Com 43 anos, mais de 20 de carreira, dois discos e diversas composições que aliam versos de fonéticas precisas a métricas desconcertantes, Gustavo Ribeiro se tornou idolatrado por uma legião de jovens apaixonados pelo rap que sonham viver das rimas. Para muitos deles, o Mister Niterói soa como uma espécie de messias. Sua “nova vida”, longe das drogas, provoca entusiasmo na molecada: “Caralho, mano, o poeta está vivo!”, disse um deles ao colega na terceira fileira do show da Fundição. O reconhecimento dos mais jovens foi determinante para a guinada.

— Eu não estava acreditando em nada, tudo era motivo para encher a cara e usar droga. Eu cheguei a pesar 56 quilos. Nesse período difícil, vieram alguns artistas que me apoiaram, como o grupo Forfun, que me convidou para gravar a música “Cosmic Jesus”. Gravei com o Shawlin a “Reza forte”, e outra, a “Orientar”, com o pessoal do Oriente. Eu chegava em casa e tinha imagem de santo, terço, tinha bilhetes para mim, flores. Aquilo começou a me emocionar muito, porque passei a ver a forma como eu tocava o coração das pessoas. Tive que aceitar a condição de que eu tenho uma doença mortal, progressiva e incurável. Então, eu tenho que me tratar disso para sempre — conta ele.

O músico lembra ainda que, depois das demonstrações de carinho do público, rumou para uma clínica de recuperação com o caderno de anotações debaixo do braço. Saiu seis meses depois, com um disco na cabeça e muitos quilos a mais.

— Hoje eu estou com 90 quilos. O que salvou a minha vida foi saber que as pessoas acreditavam em mim — diz.

O despertar inicial para a música aconteceu ainda nos anos 1980, depois de uma viagem à Europa na qual conheceu o som do grupo de rap americano Public Enemy. Foi a partir daí que Gustavo começou a criar rimas em inglês e gravá-las em produções artesanais feitas pelo amigo José Rodrigues, em Niterói. Sua ligação com a cidade sempre foi forte. Antes mesmo de integrar o grupo Planet Hemp, de 1996 a 2001, ao lado de Marcelo D2, Black Alien se tornou, em 1993, parceiro do niteroiense Speed, rapper morto em 2010 que é considerado um dos precursores do gênero no Rio.

— Eu estava andando de skate no Campo São Bento e o Speed apareceu lá. Eu o havia conhecido num show do Thaide e DJ Hum, em Copacabana. Ele falou: “Pô, fui lá na casa do Rodrigues e ouvi o negócio que você cantou lá em inglês, estilo Public Enemy. Você lembra de mim? Meu nome é Speed, toco baixo para caralho, sou foda, e quero que você entre na minha banda e cante na minha banda”. Ele marcou o show duas semanas depois, no dia 21 de outubro de 1993, no antigo Bedrock, em Charitas. Eu cantei para umas 30 pessoas. Foi uma coisa mágica — lembra.

No intervalo de dez anos entre um disco e outro, Black Alien compôs para o teatro, cinema e TV. Seu mais recente trabalho, “Babylon by Gus Vol. II — No princípio era o verbo”, vem recheado de versos que falam de superação, amizade, família e amor, refletindo sua atual fase solar, de quem acorda cedo, passeia com o cachorro e pratica muay thai. Mas a política e as questões sociais voltarão à pauta, ele garante.

— No próximo disco eu vou abordar muito isso aí. Não só o período que a gente está passando, como eu vou falar também do incêndio de Santa Maria e do rompimento da barragem em Mariana, que é um assunto que eu vou pegar para tratar com um carinho especial. Eu vou dichavar (sic) esse assunto, fora outros que eu vou tratar. Já estou juntando tudo e fazendo as minhas anotações — avisa.

Fonte: O GLobo
Foto: Fabio Rossi / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior