Brasil vive transição política sem novas lideranças, diz Carlos Melo

“RAUL BARROZO DA MOTTA JUNIOR”

O Brasil atravessa um período de transição política marcado pela ausência de novas lideranças capazes de substituir as forças que dominaram o cenário nacional nos últimos anos, segundo o cientista político e professor do Insper, Carlos Melo. Em participação no programa WW Especial, da CNN Brasil, ele afirmou que o momento atual deve ser analisado também a partir das transformações sociais em curso, antes mesmo da disputa política.

Ao comentar o conceito de “interregno”, associado ao pensamento do filósofo italiano Antonio Gramsci (1891-1937) e utilizado pelo cientista político Sérgio Abranches para interpretar mudanças sociais, Melo afirmou que o país vive uma fase em que antigas estruturas perdem força enquanto novas ainda não se consolidaram.

“Há alguns anos, Sérgio Abranches tomou emprestado um termo de Gramsci para definir esse momento: o de que estaríamos vivendo um interregno, uma sociedade em transformação, em que ‘a sociedade onde nós nascemos está se desmanchando e uma nova sociedade está se colocando’”, afirmou Melo.

Segundo Melo, esse processo não ocorre de maneira imediata. “O velho está agonizando, mas o novo ainda não nasceu ou não despertou toda a sua potencialidade”, disse, ao explicar que períodos de transição costumam ser acompanhados por incertezas e pela permanência temporária de lideranças e grupos ligados ao ciclo anterior.

“Setores sociais remanescentes do passado estão colocados e não conseguem ser substituídos imediatamente. Há um tempo, há um interregno, há um vazio. Lideranças novas não surgem”, acrescentou.

Para o cientista político, esse fenômeno não é exclusivo do Brasil e já ocorreu em diferentes momentos da história, com períodos de instabilidade até a formação de novas forças políticas.

Melo avaliou que a eleição de 2026 pode representar um marco para o encerramento desse ciclo, com a possibilidade de uma reorganização política a partir da próxima década.

“Talvez essa eleição de 2026 encerre esse processo em 2030. Nós viveremos provavelmente o pós-Lula, nós viveremos o pós-Jair Bolsonaro, e talvez outras figuras possam se colocar para a próxima eleição”, declarou.

Na avaliação do professor do Insper, o cenário atual ainda é dominado por duas forças de rejeição: o antipetismo e o antibolsonarismo. Para ele, esses movimentos representam as principais bases de disputa política no país neste momento.

“Um [a esquerda] faz uma crítica muito forte ao mundo, à realidade que nós vivemos pela direita, outro [a direita] faz uma crítica forte pela esquerda e despertam os seus contrários”, comentou.

Carlos Melo ressaltou que a força relativa de cada uma dessas correntes pode variar conforme a conjuntura política. “Qual é a mais forte entre elas vai depender muito do escândalo da semana, vai depender muito do momento, mas são essas duas forças”, destacou.

Para o cientista político, novas lideranças ainda não conseguiram ocupar esse espaço deixado pela transição. “Outras ainda não se colocaram, mas é uma questão de tempo, talvez muito tempo para que possam se colocar”, concluiu.

WW Especial

Apresentado por William Waack, o programa é exibido aos domingos, às 22h, em todas as plataformas da CNN Brasil.

Conheça o Clube de Membros da CNN Brasil no YouTube. Ao se cadastrar, você garante acesso antecipado à íntegra da edição já às sextas-feiras, além de cortes exclusivos e conteúdos de bastidores do programa.

 *Publicado por Jorge Fernando Rodrigues

Fonte CNN BRASIL