À primeira vista, era uma casa velha e empoeirada, dessas que, de tão antigas e inabitadas, beiravam o esquecimento. Nas paredes descascadas, as marcas do tempo traçavam um retrato perfeito de anos de descuido e abandono. Mas era uma casa, afinal, grande, iluminada e ladeada por uma viela tranquila — tudo que Renato Byington procurava para chamar de “segundo lar”, ou, mais apropriadamente, a sede da sua empresa, responsável por projetos como o Rider Weekends e Vivo Open Air. Byington se encantou, achou o preço justo e logo se apressou para assinar os papéis e fechar o negócio.
Histórias como a do empresário, que escolheu uma construção centenária no bairro de Botafogo para abrigar o seu escritório, são cada vez mais comuns. Só nesta reportagem de capa do GLOBO-Zona Sul há outros três casos semelhantes. Além da D+3 Produções, de Byington, Musickeria, Aventura Entretenimento e LC Barreto são exemplos de empresas que funcionam em antigos casarões da Zona Sul.
A arquitetura inspiradora e o charme retrô dos imóveis seduziram os proprietários, que tiveram que investir pesado em obras de reforma para adaptar os ambientes às novas funções.
A reforma da D+3, prevista para durar quatro meses, pulou para oito. Alguns “tesouros” iam sendo achados pelo caminho. A cada avanço da obra, uma surpresa. As portas de peroba, debaixo de muitas camadas de tinta, foram cuidadosamente restauradas. As janelas também, preservando os primeiros detalhes. No segundo andar, ao decidir tirar o forro do teto, foi descoberto outro espaço, onde mais uma sala do escritório viria a ser criada.
Musickeria. No casarão do Humaitá, uma das salas de reunião da empresa, que coleciona cases de sucesso – Agência O Globo / Bárbara Lopes
Noventa anos depois da primeira planta, projetada para um professor do século XX, a casa, de estilo eclético, é um exemplo de como se pode transformar prédios antigos em espaços modernos, incorporando novos ares, mas preservando as características originais. A pintura na entrada, por exemplo, assinada pelo artista Bruno Big, evidencia o contraste: fora, o novo; dentro, a história de uma época.
— Descobrimos que foi um projeto do escritório do Archimedes Memória. A casa era de uma família que não mora mais no Rio, o pai tinha morrido, não fazia mais sentido para os filhos. Chamamos o arquiteto Marcelo Lipiani e ele teve um olhar que contribuiu muito para a transformação das coisas. O trabalho é dobrado, não tem como negar, mas vale muito a pena. Estamos aqui, todos os dias, bebendo dessa energia boa para trabalhar. É como se fizéssemos a casa reviver seu tempo áureo, agora de uma outra forma — diz Byington.
A sensação de que o ambiente de trabalho acaba virando a extensão da própria casa é parecida entre aqueles que escolhem um casarão antigo como fonte de inspiração diária. No Humaitá, uma construção centenária foi a aposta do grupo de sócios da Musickeria, companhia de projetos musicais, para alinhar a rotina de trabalho criativo ao espírito do empreendimento.
A empresa começou em edifício comercial, no Centro, funcionando em um modelo de escritório padrão. Flávio Pinheiro, um dos sócios, conta que a equipe não estava satisfeita, e que procurava um espaço em que o contato com a natureza fosse possível, onde pudessem criar com mais liberdade. O desapego às formalidades era, portanto, a base da procura pelo que chamavam de “lugar ideal”. Até que foi encontrado, há quatro anos.
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— Era exatamente o que queríamos. A estrutura externa é tombada, não podemos mexer nas portas, nas janelas, nem no telhado. Mas isso não é problema. Na hora de decorar, a primeira coisa em que pensamos foi como preservar a construção original, porque isso fazia parte do que buscávamos. Até o piso, que é um pouco torto, está preservado. Investimos em pintura, instalação hidráulica e decoração moderna — conta Pinheiro.
Nas paredes da Musickeria, responsável por lançar sambabooks de artistas como Jorge Aragão, Zeca Pagodinho e Dona Ivone Lara, vivem personalidades como Luiz Gonzaga, Elis Regina e os Beatles, todos grafitados.
— O grafite é uma expressão desse ar informal. A atmosfera do lugar afeta muito o nosso trabalho — diz Pinheiro.
PRODUÇÃO EM CORES VIBRANTES
Na Aventura Entretenimento, produtora de musicais que funciona em outro casarão, em uma rua silenciosa de Botafogo, cerca de 30 funcionários se dividem entre os cômodos, que já foram modificados diversas vezes. Nas portas das salas, em amarelo e branco, trechos dos textos de musicais feitos pela Aventura personalizam o ambiente. A estrutura original das portas, da escada e da fachada, no entanto, foram mantidas, mas muita coisa foi criada para transformar as salas onde as pessoas trabalham.
D+3 Produções. Imóvel do início do século XX em Botafogo: painel moderno de Bruno Big na fachada – Agência O Globo / Bárbara Lopes
— Fomos crescendo e nos espalhando. Para uma empresa de entretenimento cujo foco é a produção de musicais, um espaço muito careta seria um entrave à criatividade. Gostamos muito de trabalhar aqui — diz Aniela Jordan, uma das sócias da Aventura, responsável por espetáculos nacionais como “A noviça rebelde”, “O mágico de Oz”, “Elis — A musical” e “Chacrinha — O musical”.
Um tom de amarelo vivo é a cor que predomina nos interiores, carregados de alegria. Em algumas paredes, quadros dos musicais já produzidos também fazem parte da decoração da casa.
— Nós também fazemos confraternizações aqui, o que é uma delícia justamente por termos a estrutura de uma casa. Tem a sala de reunião, como todo escritório, mas tem também o hall, a cozinha. As pessoas não precisam sair para comer, o que acaba fazendo com que fiquemos mais próximos — comenta Aniela.
Em uma rua próxima à casa da Aventura, outra construção histórica da Zona Sul abriga a LC Barreto. A produtora de cinema tem construído uma trajetória que se mistura com a história do cinema no Brasil. Lucy Barreto, a anfitriã, conta que a casa foi descoberta por sua mãe, e comprada em 1978. A fachada fúcsia, tombada, não pode sofrer intervenções, mas as estruturas internas foram todas reformadas para as necessidades da empresa.
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— Dentro mudou tudo, mas fora continua igual. Para o futuro, estamos planejando construir aqui o Centro Cultural LC Barreto, com salas de projeção e acesso à cultura. Botafogo é um bairro bom para isso porque tem muitos colégios — diz Lucy, em sua sala decorada com quadros e reportagens sobre os filmes que já produziu.
A produtora, fundada em 1963, criou filmes como “Vidas secas” e “Memórias do cárcere”, de Nelson Pereira dos Santos; “Dona Flor e seus dois maridos” e “O que é isso companheiro?” de Bruno Barreto; e “Bye bye, Brasil”, de Cacá Diegues.
Fonte: O GLobo
Foto: Barbara Lopes / Barbara Lopes / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior