Análise: Pressão geopolítica dos EUA é maior que Lula e Flávio Bolsonaro

“RAUL BARROZO DA MOTTA JUNIOR”

O senador Flávio Bolsonaro (PL) participou, na terça-feira (7), da audiência pública promovida em Washington sobre o possível tarifaço dos Estados Unidos ao Brasil.

A presença do pré-candidato à Presidência gerou repercussão negativa entre representantes do setor produtivo brasileiro presentes no evento, e acendeu um novo capítulo no embate político com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A participação de Flávio na audiência durou menos de 10 minutos. Acompanhado do irmão Eduardo Bolsonaro (PL), ele afirmou que as possíveis tarifas americanas têm fortalecido o governo Lula ao invés de pressioná-lo, e relacionou o governo petista à corrupção, citando inclusive o caso Master.

Falando diretamente sobre as eleições, Flávio declarou que o cenário político “pode ser completamente diferente em até três meses, com novos negociadores do lado brasileiro”.

Flávio sugere suspensão das tarifas até as eleições

Questionado por representantes do governo americano sobre como o Brasil poderia atender as demandas comerciais de Washington sem o uso de tarifas, Flávio sugeriu que os americanos suspendam qualquer aplicação de tarifas até a definição de quem estará ocupando o Palácio do Planalto em janeiro de 2027.

Após o encerramento da audiência, ao ser questionado pela imprensa se pedia adiamento ou cancelamento das tarifas, Flávio foi categórico: “Não, cancelamento. Não quero tarifas brasileiras. Só quem quer tarifas é o Lula“.

Reação do setor produtivo e críticas à postura de Flávio

De acordo com o diretor de Jornalismo da CNN em Brasília, Daniel Rittner, que conversou ao longo do dia com pessoas presentes na audiência, a recepção à fala de Flávio foi amplamente negativa entre representantes do setor produtivo.

“O que elas se queixaram muito é que tudo ali estava numa linha de argumentar em prol de exclusões de setores, que parece um caminho muito mais viável do que acabar minando a tese do tarifaço”, explicou Rittner.

Segundo ele, o discurso de Flávio “distoou completamente de toda a linha argumentativa que estava sendo colocada”, ao focar em corrupção, processo eleitoral e política interna brasileira. “O setor produtivo, que tem mil queixas com o governo Lula, esperava uma postura diferente de um candidato em que pudessem embarcar”, acrescentou.

Geopolítica entra no balaio eleitoral

Murillo de Aragão, cientista político e CEO da Arko Advice, destacou que, pela primeira vez em eleições recentes, a questão internacional passa a integrar de forma relevante o debate eleitoral brasileiro.

“Nenhuma outra eleição recente, especialmente na redemocratização, teve uma influência tão grande da geopolítica”, afirmou. Para o cientista político, a questão tarifária pode não ter muito peso direto para o eleitor comum, mas “desarruma a narrativa dos candidatos”.

O CEO da Arko Advice ponderou que tanto Lula quanto Flávio podem ser prejudicados pela questão: enquanto Lula pode embarcar na teoria da soberania, adversários podem argumentar que essa postura prejudica a economia por ausência de negociação.

A âncora da CNN Thais Herédia chamou atenção para a questão da legitimidade das lideranças políticas diante do cenário. Ela questionou qual seria a legitimidade de um Itamaraty que, segundo ela, vem adotando um vocabulário político incomum — como o uso do termo “traidores da pátria” — e de declarações sobre risco de intervenção militar americana no Brasil, posteriormente negadas por Marco Rubio, secretário de Estado americano. Os militares brasileiros, segundo Herédia, também reagiram, afirmando não enxergar tal risco.

Incertezas sobre política externa da oposição

Daniel Rittner apontou outra fonte de incerteza: na audiência, Flávio estava sentado entre Eduardo Bolsonaro (PL) — que já teria sido indicado por ele como possível chanceler — e o ex-diretor-geral da OMC (Organização Mundial do Comércio) e ex-embaixador Roberto Azevêdo, figura apontada como um dos nomes mais qualificados para a pasta de relações exteriores.

“Quem vai mandar na política externa? Isso também é uma dúvida muito legítima e me parece que é nociva para um investidor estrangeiro”, afirmou. Thais Herédia acrescentou que a campanha de Flávio chegou a apagar a figura de Eduardo em fotos publicadas, “porque sabem que ela é tóxica”, dado que Eduardo apoiou o tarifaço no ano anterior.

Eleições se aproximam em meio a polarização e escândalos

Com o primeiro turno das eleições marcado para 4 de outubro, Aragão traçou um cenário preocupante para o processo eleitoral. Além da polarização contínua e da alta rejeição de ambos os candidatos, ele destacou que escândalos como o caso Master e o do INSS seguirão gerando especulações e vazamentos ao longo da campanha.

“Nós estamos vivendo uma eleição que repete um pouco o quadro da eleição passada, de ambos os candidatos com uma rejeição muito alta”, avaliou. Para Aragão, o país vive o que ele chamou de “República da Atenção”, em que “todo mundo disputa a atenção e para ter atenção, cada um grita mais alto que o outro”, resultando em uma eleição “muito superficial” e pouco propositiva.

Fonte CNN BRASIL