“RAUL BARROZO DA MOTTA JUNIOR”
Familiares buscam desesperadamente por respostas após um hotel que abrigava mais de 100 venezuelanos deportados pelos Estados Unidos desabar durante os terremotos mortais que atingiram o país na noite de quarta-feira (24).
Um voo de deportação partiu de Miami para o Aeroporto Internacional Simón Bolívar, na Venezuela, transportando 146 pessoas — entre elas 19 mulheres e sete crianças — e pousou às 10h22 (horário local) de quarta-feira, segundo autoridades venezuelanas e o ICE Flight Monitor, iniciativa da organização Human Rights First que monitora voos de deportação.
Os deportados foram levados para o Hotel Santuario, em La Guaira, cidade costeira ao norte da capital, Caracas. Horas depois, dois terremotos sem precedentes em mais de um século atingiram a Venezuela em um intervalo de poucos segundos, provocando destruição generalizada em La Guaira, deixando ao menos 1.700 mortos e muitos desaparecidos.
Alguns dos deportados sobreviveram ao desabamento do hotel, mas muitos continuam presos sob os escombros.
Luis Armando Dasilva afirmou que ele e sua família aguardam há cinco dias por notícias de sua irmã, Amanda Donizete, deportada na quarta-feira e desaparecida desde então.
“Eles não nos dão respostas sobre onde ela está. Se está em um hospital ou no necrotério. Já verificamos todos esses lugares e não a encontramos”, disse à CNN.
Segundo Dasilva, Donizete trabalhava no estado da Geórgia, nos Estados Unidos, depois de fugir da crise humanitária na Venezuela. Mas, ao descobrir que seria enviada de volta ao país, “ficou muito feliz porque queria rever a família”.
Equipes de resgate seguem vasculhando os escombros do hotel na tentativa desesperada de encontrar sobreviventes. No entanto, dias após a tragédia, as esperanças diminuem.
Alguns parentes dos desaparecidos disseram à CNN que desejam apenas poder enterrar seus familiares.
“Por favor, vocês que estão aqui, nos ajudem, nos ajudem”, implorou José Gregorio Rincón Ávila, avô de um dos deportados.
“Estamos esperando há muitos dias. Já sabemos que esses corpos estão lá desde quarta-feira, mas ao menos deixem que levemos nossos entes queridos para casa”, afirmou à CNN.
“Queremos nossos familiares, não importa em que condição estejam, só queremos poder enterrá-los”, pediu Dasilva.
A CNN entrou em contato com o Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos EUA (ICE), o Departamento de Segurança Interna e o Departamento de Estado para comentar o destino dos deportados da quarta-feira.
Os Estados Unidos enviaram equipes de busca e resgate para a Venezuela e já destinaram mais de US$ 300 milhões aos esforços de assistência.
EUA deportaram mais de 1.700 venezuelanos em maio
Em outubro, a Suprema Corte dos Estados Unidos autorizou o governo do presidente Donald Trump a encerrar o Status de Proteção Temporária (TPS) de cerca de 300 mil migrantes venezuelanos, que haviam recebido autorização para permanecer no país por meio de um programa humanitário.
Desde então, os EUA passaram a deportar centenas de venezuelanos por semana. Somente em maio, 1.746 venezuelanos foram deportados, segundo o ICE Flight Monitor.
Um vídeo divulgado por uma autoridade do governo venezuelano mostrou os deportados chegando ao Aeroporto Simón Bolívar na quarta-feira.
A esposa de um dos deportados contou à CNN que o marido vivia nos Estados Unidos havia três anos, tentando construir uma vida melhor para a família.
Ela disse que ele ficou detido pelo ICE durante 15 dias antes de ser enviado de volta à Venezuela.
“Foi então que a tragédia aconteceu”, afirmou a mulher, que preferiu não se identificar. Segundo ela, já perdeu a esperança de reencontrar o marido com vida.
“Desde sexta-feira esperamos uma resposta para saber se as autoridades vão entregar os corpos. Porque dizem que não há sobreviventes”, disse à CNN.
Yulis Salcedo contou que havia decorado sua casa com balões azuis, amarelos e vermelhos, nas cores da bandeira venezuelana, para receber o filho Anderson, de 21 anos, que estava no voo vindo de Miami na quarta-feira pela manhã.
Segundo Salcedo, Anderson chegou em segurança e passaria a noite no hotel em La Guaira antes de seguir para casa.
“Ele me ligou às cinco da tarde e disse: ‘Eu te amo muito, mãe. Amanhã nos vemos em casa’”, relatou à agência Reuters.
Agora, Anderson luta pela vida em um hospital.
“Quero justiça, porque não é justo que meu filho esteja naquela cama, respirando com ajuda de aparelhos e com as pernas amputadas aos 21 anos”, afirmou Salcedo.