Difícil imaginar um ambiente mais propício para o surgimento de movimentos artísticos e culturais do que um grupo de jovens ávidos por fazer música e arte reunido. Se vontade não falta, uma barreira, muitas vezes, é a falta de espaço para a apresentação de novos grupos. Com o objetivo de suprir esta lacuna, seis moradores da Freguesia, que têm entre 15 e 20 anos, criaram o Festival Movimente-se. Amanhã e sábado, a Lona Cultural Jacob do Bandolim dará voz aos novos talentos de Jacarepaguá arregimentados pelo grupo.
A ideia está sendo maturada há dois anos. Sua concretização foi retardada, segundo João Magalhães, devido à falta de entendimento com a antiga direção da lona. Com a chegada dos novos administradores, no fim do ano passado, o projeto finalmente vingou. O festival, inclusive, faz parte da programação oficial de 451 anos da cidade.
— Tínhamos dificuldade de inserir bandas novas nos palcos da região. É a primeira vez que nossa cultura será acolhida. Vamos dar voz à cena da Zona Oeste. E, por meio da música, engajar a sociedade — entusiasma-se Magalhães, de 18 anos, cabeça dos organizadores.
Serão seis bandas se apresentando: Crispy Brass Band, 404 e Incoloráz, na sexta; e Verana, República Suburbana e Jane Lane, no sábado. O evento também terá debates com membros da Associação de Moradores da Freguesia, além de palestras sobre necessidades do bairro e da cidade, entre os shows. Na parte externa, serão realizadas atividades paralelas com coletivos e movimentos sociais.
— Vamos falar sobre meio ambiente, mobilidade, segurança e intervenções urbanas. É a politização em meio ao rock — diz Magalhães.
Na programação musical, apesar da predominância do pop e do rock, é possível apontar variedade de estilos. A Crispy Brass Band, por exemplo, é uma das poucas de fanfarra da Zona Oeste. Os dez membros, moradores de Jacarepaguá e Campo Grande, misturam hip hop, jazz e blues.
— Só temos sopros e percussão. Somos muito influenciados pela música de Nova Orleans — afirma o saxofonista Alex Sá.
A Jane Lane chama a atenção por ter apenas mulheres. As seis musicistas formam a banda mais experiente do festival, e já tocaram, inclusive, na própria Lona Jacob do Bandolim. Mesmo assim, a vocalista Ailyn Pantaleão salienta as dificuldades enfrentadas pelos novos grupos:
— Não tem muito evento aqui porque há o pensamento de que essa é uma região de difícil acesso.
Com repertório autoral, a Jane Lane abusa da polivalência.
— Nossa pianista tem formação clássica. Já a baixista é do hard rock — diz a guitarrista Luiza Souza.
Dentre os grupos que vão se apresentar, muitos são amigos e deram os primeiros passos na música juntos. Magalhães faz um paralelo da cena de Jacarepaguá com um dos movimentos mais famosos do rock brasileiro.
PUBLICIDADE
— Lembra o rock de Brasília, em que todos eram amigos e tocavam juntos. Outra semelhança é que refletimos muito a urbanização e os problemas sociais da Freguesia. Aqui é como uma roça; todos se conhecem e se mobilizam em torno dos problemas.
Felipe Amorim, um dos organizadores e integrante do República Suburbana, arremata:
— Somos caipiras underground.
Fonte: O Globo
Foto: Lucas Altino
Postado por: Raul Motta junior