“Olha a cobra! É mentira!”. O ecoar dessa frase remete a um evento conhecido por ter casamento na roça, bandeirinhas, pescaria, barraca do beijo, comidas típicas, fogueira e forró até o sol raiar. Aquele figurino bem particular, com direito a vestido de chita, camisa xadrez e chapéu de palha, também não pode ficar de fora. Lamentavelmente, festa junina desse jeito não vai acontecer este ano e, consequentemente, nem o retorno da Quadrilha do Sampaio, que ficou sem dar o ar da graça em 2018 e 2019.
A pandemia da Covid-19 adiou os planos de Marcio Perrotta, filho de Carmem, criadora do tradicional grupo folclórico da Zona Norte que homenageia com sua dança, há décadas, Santo Antônio, São João e São Pedro. Mas enquanto o arrasta-pé não vem, o jornalista se dedica a finalizar o livro que contará a história da sua saudosa mãe tendo como pano de fundo uma de suas maiores paixões.
— Dona Carmem fundou a Quadrilha do Sampaio em 1956, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Engenho Novo, a pedido do padre — conta Perrotta.
Quando o padre da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, no Engenho Novo, pediu, em 1956, a Carmem, uma jovem de 18 anos, para criar uma ação que ajudasse a movimentar a quermesse nem poderia imaginar o que viria pela frente. Nasceu não só um grupo folclórico que ficou famoso, mas uma união no melhor estilo “até que a morte os separe”.
Carmem e um outro jovem, Ivan, foram os primeiros noivos da Quadrilha do Sampaio e, por cinco anos, dançaram e se desentenderam durante os festejos juninos, até que o amor falou mais alto. Os dois se casaram onde tudo começou e passaram a tradição da dança que os uniu para os filhos, o jornalista Marcio Perrotta — que está escrevendo o livro para contar a trajetória da mãe e da quadrilha que ela fundou — e a psicóloga Ana Paula Perrotta.
— Eu e minha irmã participamos da quadrilha por 35 anos. A história dos meus pais é curiosa porque a primeira noiva da quadrilha seria a minha tia, mas ela não aguentou o Seu Ivan, porque ele brincava e implicava com todo mundo o tempo todo. Minha mãe, então, ficou no lugar dela. O engraçado é que eles se casaram várias vezes na quadrilha para só depois começarem a namorar — recorda o jornalista, que perdeu a mãe em 2011, e o pai em maio deste ano, vítima da Covid-19.
Eternizar numa obra literária a história de vida de Dona Carmem, tendo como pano de fundo a Quadrilha do Sampaio, é o objetivo do escritor, que ainda não tem título definitivo para o livro nem previsão de lançamento.
— Vou fazer essa viagem no tempo através de contos. Os detalhes da fundação da Quadrilha do Sampaio estarão no livro, assim como a paixão da minha mãe, uma mulher que estudou apenas até a 4ª série do antigo primário, pelo folclore popular. Sob o comando da minha rainha, a quadrilha, de 1970 a 2006, ganhou todos os concursos oficiais que disputou. Depois que deixou de ser a noiva, ela passou a ser a marcadora, que é quem anima, puxa a quadrilha — explica Perrotta.
Manter a Quadrilha do Sampaio viva, após as apresentações terem sido interrompidas em 2018 e 2019, é outra missão que o jornalista quer colocar em prática:
— O legado da minha mãe não pode se perder. Ficamos dois anos afastados das festas juninas por dificuldades financeiras, já que os cachês que recebíamos não eram suficientes para arcar com os custos de deslocamento da quadrilha, que tinha de 20 a 24 casais, nem com o lanche do pessoal. Lucro nunca foi um objetivo, mas ficou inviável bancar as idas para as apresentações. Vamos voltar em 2021 com, no máximo, 12 casais. A intenção era retomar este ano, mas, infelizmente, veio esta pandemia que mexeu com a vida de todo mundo.
Na retomada, a Quadrilha do Sampaio estará mais enxuta, mas as mudanças param por aí. É o que garante Perrotta:
— Vamos manter a tradição, que é ser uma quadrilha de dança folclórica, de cultura popular. Não fazemos um espetáculo como no Nordeste, com cenógrafos e figurinistas renomados. Respeito o que é feito lá, mas a Quadrilha do Sampaio é caipira desde a sua fundação e continuará sendo.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior