Conheça a maratona dos carnavalescos que se dividiram entre duas escolas no carnaval 2020

Mais difícil do que pôr uma escola de samba na Sapucaí, tarefa para os fortes, é pôr dois carnavais na Avenida. Este ano, seis grandes nomes do Grupo Especial encararam o desafio da dupla jornada, entre eles, o carnavalesco Leandro Vieira, que deu expediente na Mangueira e na Imperatriz, campeã da Série A. Outro que se aventurou na dobradinha foi o diretor de carnaval Laíla, que experimentou as dores e as delícias do feito: em São Paulo, ele foi campeão pela Águia de Ouro, e, no Rio, amargou a “lanterninha’ com a União da Ilha, que acabou rebaixada para Série A.
A ponte aérea Rio-São Paulo foi o caminho de alguns nomes mais conhecidos da festa carioca. Além de Laíla, Paulo Barros, da Unidos da Tijuca, e Edson Pereira, da Vila Isabel, estiveram, respectivamente, à frente da Gaviões da Fiel e da Mocidade Alegre. No passado, Alexandre Louzada foi um precursor e assinou desfiles na Sapucaí e no Anhembi por nove carnavais consecutivos. Em 2011, inclusive, foi campeão lá e cá, pela Vai-Vai e pela Beija-Flor, respectivamente.

Experiência aprovada
Oitavo colocado no Rio com a Vila Isabel, Edson estreou no último sábado na Mocidade Alegre. Saiu da passarela paulista como favorito, mas acabou em terceiro lugar. Apesar de não ter conquistado o esperado campeonato, ele aprovou a experiência e já se prepara para um repeteco em 2021: nesta quinta-feira mesmo, Edson viajou para São Paulo para discutir o enredo do ano que vem da tricolor do bairro do Limão.

— Este ano foi espetacular. Eram cerca de 600 pessoas trabalhando nos dois barracões, um pouquinho mais na Mocidade do que na Vila. Lá, eu precisei entender como funcionava a escola e comecei o desenvolvimento do desfile em março de 2019 — conta Edson.

Nos momentos mais intensos de produção, como na reta final para a folia, Edson viajava para a capital vizinha de três a quatro vezes por mês, onde passava pelo menos três dias. Foram dois carnavais grandiosos. O abre-alas da Vila, considerado um dos mais belos da Sapucaí, alcançava 20 metros de altura, enquanto uma das alegorias da Mocidade Alegre tinha 19 metros. Quando o assunto é financeiro, no entanto, Edson diz que não houve tanta fartura quanto se imagina:

— Sendo bem sincero, fui pelo desafio, porque me senti pronto e sempre me identifiquei com a Mocidade Alegre.

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Dividir o tempo entre duas escolas pode tirar o sono. Que o diga Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira. Ele acumulou os trabalhos da verde e rosa com o desfile da Imperatriz, na Série A. Nesta quinta, Leandro brincou dizendo que não dormia há um tempo. Com a responsabilidade de liderar escola de Ramos, que conseguiu vencer e voltará para a elite do carnaval, ele contou que deixou a criatividade fluir para dar conta de dois enredos em tons diferentes. O fato de a Imperatriz ter barracão na Cidade do Samba, ao lado do da Estação Primeira, aliviou a carga de trabalho, ao menos, em termos de deslocamento. Toda a logística e o acompanhamento diário foram facilitados. Mas, com a volta da verde e branco para o Grupo Especial, Leandro não poderá repetir a dobradinha porque o regulamento não permite. Ele ainda não decidiu se ficará em uma ou outra. Nesta quionta-feira apenas disse que não quer ficar com a marca da sátira política, que marcou os seus dois últimos enredos na Mangueira. Em 2019, a escola levou para o Sambódromo “História pra ninar gente grande” — que fez um tributo à vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018 — e este ano provocou polêmica com “A Verdade vos Fará Livre”, com um jovem crucificado e crivado de balas no desfile.

— Só vou pensar depois no que vou fazer para o ano seguinte. Estou satisfeito, mas percebo a necessidade de todos em colocar rótulos. Sou contra isso. Não aceito qualquer rótulo. Quero sair da prateleira que me colocaram como um carnavalesco político.

Sem repeteco
Quem já decidiu que não trabalhará em duas escolas é Marcus Paulo, um dos carnavalescos da Unidos da Tijuca. Este ano, além de produzir o carnaval da azul e amarelo junto com Paulo Barros e Helcio Paim, Paulo assinou pela primeira vez um enredo sozinho na Acadêmicos da Rocinha. Responsável pelo visual da escola da Tijuca, ele comandava 300 funcionários. Mas, na agremiação da Zona Sul, que passa por uma crise financeira, Marcus só podia contar com 15 ajudantes. Para conseguir entregar os dois carnavais, Marcus dividiu suas semanas para desenhar cada escola, sem misturar os enredos. O acúmulo de trabalho, entretanto, não o estimula a repetir a experiência.

— Perdi quatro anos em um. E ainda estou fazendo mestrado na Escola de Belas Artes — contou Marcus, acrescentando que, apesar do rebaixamento da Rocinha, recebeu críticas positivas sobre o seu trabalho.

Ao decidir fazer o carnaval de uma escola de São Paulo, Paulo Barros acabou deixando a Viradouro no ano passado, que não concordou com a ideia porque queria exclusividade. Ele pulou para a Unidos da Tijuca, acumulando com a Gaviões da Fiel. No desfile no Anhembi, ele chegou a dizer que o Sambódromo paulistano estava “quilômetros à frente do carioca”. Acabou na 11ª posição, em São Paulo, e na 9ª, no Rio.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior