A perereca deu trabalho. Com dois centímetros de comprimento, ameaçada de extinção, ela ficou conhecida por provocar um atraso nas obras do Arco Metropolitano do Rio, obrigando o governo do estado a gastar R$ 18 milhões na construção de um viaduto para evitar — por exigência de órgãos ambientais — a destruição de seu habitat natural. Pouco mais de um ano depois da inauguração da rodovia, um levantamento detectou que a Physalaemus soaresi está procriando como nunca na área protegida. A vocalização (cantoria) dos machos para atrair a fêmea ecoa por toda a área.
Já se especula até a hipótese de ocorrer uma superpopulação da espécie, o que causaria um desequilíbrio ambiental. Mas o diretor-executivo da Câmara Metropolitana de Integração Governamental, Vicente Loureiro, garantiu não estar preocupado.
— Se isso virar um problema, será possível a gente resolver com medidas pequenas — disse Loureiro, levantando a possibilidade de controlar a população de anfíbios com o uso de drenagem dos banhados que servem como locais de reprodução.
A espécie vive na área da Floresta Nacional Mário Xavier, de responsabilidade do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em Seropédica. O chamado Viaduto das Pererecas fica no Km 98 do Arco, próximo à alça de acesso à Rodovia 465 (antiga Rio-São Paulo).
A Physalaemus soaresi se reproduz na estação chuvosa, entre outubro e fevereiro. Machos vocalizam em áreas alagadas, onde constroem ninhos de espuma flutuante.
BIÓLOGOS ACHAM NINHOS EMBAIXO DE VIADUTO DA RODOVIA
No projeto original do Arco Metropolitano, estava previsto o aterro da área dos banhados da Physalaemus soaresi para a abertura de duas pistas. Além disso, a construção das alças de acesso à antiga Rio-São Paulo representava riscos para espécies, como o peixe-das-nuvens (Notholebias minimus), também na Lista das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção. O Arco — cujas obras começaram em 2008 — deveria ter ficado pronto em 2010, mas a descoberta da perereca e de cerca de 60 sítios arqueológicos, além de processos de desapropriação, atrasaram a obra. O primeiro trecho foi entregue em julho de 2014.
Um estudo realizado por biólogos mostrou que a espécie aproveitou a “oportunidade”. “Pela primeira vez após a finalização das obras do Arco Metropolitano na Flona (Floresta Nacional) Mário Xavier, nos dias 13 e 14 de janeiro de 2016, durante o monitoramento mensal da Physalaemus soaresi, constatou-se a presença de indivíduos da espécie através de visualizações e vocalizações, bem como de seus ninhos, embaixo do viaduto do banhado”, diz um trecho do relatório. O monitoramento deverá prosseguir até 2019.
Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior