Uma turma cada vez maior de cariocas tem conseguido, no mar e nas lagoas do Rio, unir o útil ao agradável. São os pescadores amadores, que, munidos de varas e anzóis, passam horas se divertindo e, de quebra, levam para casa alimento fresquinho. O pedreiro Silas Barros Machado gosta tanto da atividade que pelo menos duas vezes por mês sai de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, onde mora, para bater ponto na Mureta da Urca. Sempre acompanhado pela mulher, Marlene.
—Pescamos para nos distrair — diz o pedreiro, que, antes do réveillon, tentava fisgar um baiacu para a ceia da virada, depois de não conseguir nada para o almoço de Natal.
A diarista Vera Lucia de Lima, de 50 anos, consegue reunir o marido e os quatro filhos em torno do programa, que pode acontecer na Urca, no Aterro ou no Leblon.
— Quando vamos, é para passar o dia todo — conta Vera Lucia.
Outro pescador nos momentos de folga, o porteiro Roberto Felipe da Silva, um paraibano de 60 anos, quase diariamente dá uma passadinha na beira do Canal no Jardim de Alah para praticar sua atividade preferida antes de pegar no batente. Ele conta que já fisgou tainha, carapicu, faqueco e robalo. E garante que já chegou a levar 30 quilos de peixe para casa:
— Sei que pescador tem fama de mentiroso: pega dois quilos e diz que pegou 30. Mas não é o meu caso — jura Roberto.
Assíduo na Praia Vermelha, o gerente de posto de gasolina Patrick de Oliveira, de 24 anos, diz que conseguiu pegar até um peixe voador, um dia desses:
— Nunca tinha visto um — lembra Patrick.
Já Elirio Januario da Silva, de 62 anos, já viu muitos espécimes. Ele foi pescador profissional — como as 12 mil pessoas que vivem da atividade no estado — e criou os quatro filhos com o trabalho nas lagoas da Barra. Mas um assalto quando estava na Lagoa de Marapendi provocou uma guinada: Elirio levou um tiro e mudou de profissão. Virou armador na construção civil. À espera da aposentadoria e com tempo ocioso, voltou ao passado. Ele costuma pescar na Barra e na Lagoa Rodrigo de Freitas.
— A minha melhor pescaria foi de notas de R$ 100 que aparecerem na Urca em 2016. Pesquei um maço delas — orgulha-se ele, lembrando da misteriosa maré de dinheiro.
Embora não falte pescado no freezer, Pedro Guilherme da Silva, de 70 anos, diz que o Rio já não tem tanto peixe quanto no passado. E fala por experiência própria. Desde que se aposentou, o ex-funcionário de cartório pega seu barquinho, que fica atracado nas imediações do Aeroporto Santos Dumont, e sai pela Baía de Guanabara atrás de corvina, papa-terra, carapeba, corvina e bagre. Às vezes, volta de mãos vazias:
— Infelizmente, a poluição e a sujeira têm acabado com os peixes.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior