Entenda como a crise no Rio se espalha e já atropela obras na Niemeyer e do Transbrasil

O caos financeiro que atingiu em cheio o setor de Saúde já reflete nas principais obras em andamento na cidade. Diante do apagão no caixa da prefeitura, o consórcio responsável pelo BRT Transbrasil decidiu dar férias coletivas, a partir desta sexta-feira, aos 1.300 operários que trabalham na implantação do corredor exclusivo que ligará o Centro a Deodoro. E a volta do canteiro de obras daqui a 30 dias é incerto já que as empresas Odebrecht, Queiroz Galvão e OAS, que tocam o projeto, não sabem quando o débito de R$ 138 milhões será quitado. Na Avenida Niemeyer, que vai continuar fechada por decisão da Justiça, tratores e retroescavadeiras também começam a desacelerar. A dívida com as empreiteiras que fazem as ações de contenção de encostas estaria em R$ 34 milhões.

A promessa da prefeitura era concluir o corredor Transbrasil este ano. O consórcio previa dar, inicialmente, 15 dias de férias coletivas, mas a crise o levou a estender o período. Apesar da dívida, os salários dos operários estão em dia. Procuradas, as empreiteiras que fazem a obra não quiseram se pronunciar. A Secretaria municipal de Infraestrutura, Habitação e Conservação informou, no entanto, que não há qualquer problema em relação ao repasse de verbas. Segundo a pasta, as férias coletivas são comuns em grandes empresas.

— Esse tempo da paralisação é para a prefeitura decidir o futuro da obra, se ela vai continuar ou não. A direção do consórcio vai discutir com a prefeitura essa situação — disse o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Construção Pesada do Rio, Nilson Duarte.

Transtornos no caminho
A interrupção das obras do Transbrasil, que se arrastam há quase cinco anos, só vai prolongar os transtornos enfrentados pelos cariocas. A Avenida Brasil se tornou um calvário para motoristas e passageiros. Até mesmo quem usa a Ponte Rio-Niterói enfrenta todos os dias congestionamento na descida para o Caju, onde as obras ocupam parte das pistas. Por duas vezes, em fevereiro e abril do ano passado, o projeto foi paralisado por atraso nos repasses ao consórcio. No mês passado, a Secretaria municipal de Infraestrutura, Habitação e Conservação informou que 90% das intervenções já estavam prontas. Estão sendo construídas 18 estações, duas pontes e quatro viadutos. A obra foi licitada por R$ 1,42 bilhão, sendo R$ 1,3 bilhão do Ministério das Cidades e o restante da prefeitura.

“Esse tempo da paralisação (do BRT Transbrasil) é para a prefeitura decidir o futuro da obra, se ela vai continuar ou não”

NILSON DUARTE
presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Construção Pesada do Rio

O fechamento da Niemeyer, onde duas pessoas morreram este ano devido a um deslizamento de terra provocado pelas chuvas, tem sido um transtorno para quem faz o trajeto entre a Barra e a Zona Sul. A via está interditada por ordem da Justiça desde maio, e nesta quarta-feira desembargadores da 13ª Câmara Cível decidiram manter o bloqueio porque a prefeitura não terminou as obras.

Operários trabalham em muro para proteger motoristas de deslizamentos Foto: Pablo Jacob / 3-12-2019 / Agência O Globo
Segundo Luiz Fernando dos Santos, presidente da Associação das Empresas de Engenharia do Rio, as obras na Niemeyer deveriam ter sido concluídas em até seis meses porque são emergenciais, feitas sem licitação. Ele disse que, até agora, a prefeitura só pagou R$ 6 milhões às empreiteiras, 15% do total previsto.

— Hoje, todos vivem uma interrogação. Só sabemos que é preciso esperar, o que gera uma insegurança muito grande. Eu já disse para as empresas que é preciso parar as obras enquanto não tiver fluxo de caixa seguro. No mínimo, as empresas estão em marcha lenta para reduzir seus riscos — afirmou.

O desembargador Agostinho Teixeira, relator do processo que analisa as obras da Niemeyer, criticou a tentativa da prefeitura de reabrir a via antes do fim das obras:

— O problema da Niemeyer é só uma face do contexto do abandono de equipamentos públicos. Há no local um imenso canteiro de obras. O poder público, mesmo assim, possui uma verdade própria, dissociada dos fatos quando insiste em negar os perigos existentes, sabendo que implementou somente metade das obras necessárias — disse, observando que a liberação da via atrasaria ainda mais as obras. — Mesmo com a avenida fechada há quase sete meses, as obras não foram totalmente realizadas.

Prefeitura analisa decisão
Procurada, a prefeitura afirmou que analisa a decisão da Justiça para definir os próximos passos. Sobre a atual fase das obras, a Secretaria municipal de Infraestrutura, Habitação e Conservação informou que elas estão em “fase de desmobilização”. Acrescentou que a cortina de concreto que seria construída no alto da encosta não será mais feita, pois “o projeto foi revisto e essa intervenção, suprimida, já que não há necessidade por conta de todas as outras obras de contenção”.

“No mínimo, as empresas estão em marcha lenta para reduzir seus riscos”

LUIZ FERNANDO DOS SANTOS
presidente da Associação das Empresas de Engenharia do Rio

Em vistoria no último dia 28 de novembro, os peritos nomeados pela Justiça tinham destacado no laudo que a construção dessa cortina representava a metade das intervenções daquele ponto. No mesmo mês, a Secretaria municipal de Infraestrutura havia informado que essa obra era considerada de “grande importância” pela GEO-Rio.

Os problemas no caixa da prefeitura também podem deixar a cidade um lixo. Sem o pagamento da segunda parcela do 13º, garis estão pressionado o sindicato da categoria a convocar uma assembleia, como Ancelmo Gois antecipou em sua coluna no GLOBO desta quarta-feira. Uma das propostas é suspender o serviço no réveillon. Mas, a partir de sábado, a concessionária que opera o aterro sanitário da cidade, a Ciclus Ambiental, já vai reduzir a frota que faz o transporte de lixo para a Central de Tratamento de Resíduos, em Seropédica. Segundo a empresa, a medida será adotada por “incapacidade financeira”. Os reflexos poderão ser sentidos pela população a partir de segunda-feira quando os depósitos devem começar a não ter mais espaço para receber os detritos coletados.

A dívida do município com a Ciclus chegará a R$ 62 milhões no próximo dia 21. A empresa diz que o 13º e o salário de dezembro de seus 950 funcionários estão em risco. Em nota, a Comlurb informou que os serviços de outubro foram pagos “de forma substancial” e “o remanescente está sendo objeto de regularização”.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior