Um acervo com mais de 1,3 milhão peças raras, que contam a história de milhares de africanos escravizados que vieram para o Brasil, pode estar sendo perdido por descaso das autoridades.
Uma denúncia feita por arqueólogos apontou que o Laboratório Aberto de Arqueologia Urbana (LAAU), na Gamboa, Região Central do Rio, guarda peças com mais um século em caixas cheias de água, com sinais de mofo e ferrugem.
Procuradores do Ministério Público Federal (MPF) e representantes do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) foram até o galpão, nesta quarta-feira (29), para fiscalizar a situação.
Diante das constatações, a Polícia Federal abriu um inquérito para apurar possíveis crimes de deterioração de raras peças arqueológicas encontradas na Zona Portuária do Rio.
A empresa contratada pelo poder público municipal para fazer a manutenção do acervo diz que não está recebendo repasses da Prefeitura.
“Eu entrei em estado de choque. Eu nunca vi uma coisa dessas acontecer. Um material ficar todo molhado. Não parecia uma coisa que aconteceu ontem, por causa de um incidente”, disse a arqueóloga Gláucia Sene.
Entre as peças mais danificadas, estão cachimbos que contam parte marcante da história do país.
“Os cachimbos têm uma importância enorme. São cachimbos que vão contar a história desses africanos no Brasil, dessas diferentes etnias, das relações de resistência deles aqui no Brasil”, comentou a arqueóloga Gláucia Sene.
Entre as peças mais danificadas, estão cachimbos que contam parte marcante da história do país. — Foto: Reprodução TV Globo Entre as peças mais danificadas, estão cachimbos que contam parte marcante da história do país. — Foto: Reprodução TV Globo
Entre as peças mais danificadas, estão cachimbos que contam parte marcante da história do país. — Foto: Reprodução TV Globo
No total, foram encontradas 700 caixas que guardam parte da história brasileira e muitas irregularidades.
Os arqueólogos identificaram peças guardadas fora dos padrões adequados e correndo riscos de sumirem.
Além disso, segundo a denúncia, não existe sequer um inventário atualizado com a relação dos achados arqueológicos que estão no LAAU.
Laboratório fechado
Em 2014, a Prefeitura anunciou a criação do laboratório de arqueologia como um espaço para o público conhecer o passado da cidade. Contudo, o galpão continua fechado e não há exposição das peças para o público.
De acordo com um documento da Secretaria Municipal de Urbanismo, as obras necessárias para fazer o laboratório funcionar custariam R$ 4 milhões. Contudo, segundo o mesmo documento, a Prefeitura disponibilizou o total de R$ 200.
Documento da Secretaria Municipal de Urbanismo diz que as obras necessárias para fazer o laboratório funcionar custariam R$ 4 milhões — Foto: Reprodução TV Globo Documento da Secretaria Municipal de Urbanismo diz que as obras necessárias para fazer o laboratório funcionar custariam R$ 4 milhões — Foto: Reprodução TV Globo
Documento da Secretaria Municipal de Urbanismo diz que as obras necessárias para fazer o laboratório funcionar custariam R$ 4 milhões — Foto: Reprodução TV Globo
A empresa contratada para cuidar desse material afirmou que não recebe os pagamentos da Prefeitura há cinco meses. Segundo eles, o contrato teria vencido em abril e não foi renovado.
“Nós vamos notificar a prefeitura para dar esclarecimentos sobre a conservação desse material, que está sob guarda aqui no galpão”, comentou a astróloga do Iphan, Cristina Leal.
Para o procurador do Ministério Público Sérgio Suiama, o contrato precisa ser renovado.
“Como que você tem um contrato de conservação de um acervo arqueológico e você não renova esse contrato? Como você deixa um patrimônio que pertence à União e ao povo brasileiro correndo esse risco de assalto, de inundação, enfim, de serem furtados, subtraídos, esses bens todos?”, questionou o procurador.
O que diz a prefeitura
Apesar dos relatos de arqueólogos, a Prefeitura do Rio nega que haja risco iminente de destruição do acervo e diz que não foi constatado dano a nenhuma peça.
Em nota, o município afirmou que o contrato com a empresa responsável pela manutenção do espaço foi renovado no mês passado e que a primeira parcela foi paga em maio.
A prefeitura diz também que ainda vai publicar o edital de licitação para as obras necessárias.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior