Há 44 anos, os moradores de Botafogo aguardam a devolução de uma rua do bairro, fechada em 1975 em função das obras da estação do metrô. A espera deve chegar ao fim em breve, pois na semana passada a prefeitura escolheu a empresa vencedora da licitação do projeto de reabertura do trecho de 105 metros da Rua Nelson Mandela, entre as ruas Professor Álvaro Rodrigues e General Polidoro. Com isso, o trânsito terá mais uma via de desafogo e os pedestres terão acesso facilitado ao metrô. Além disso, há negociação em curso para que o 2º BPM, hoje na Rua Álvaro Ramos, seja transferido para os novos lotes quando reabertos.
A NOVA RUA
O trecho, que está fechado desde 1975, terá 105 metros de extensão, 19 metros de largura, duas faixas de rolamento e contará com 12 vagas de estacionamento e uma ciclovia.
O valor inclui ainda:
Drenagem, pavimentação, calçamento e instalação de postes de iluminação pública.
O custo previsto é de
R$888 mil
Nova rua
Ciclovia
Botafogo
Fundação
Logosófica
Fundação
Logosófica
19m
50m
N
A prefeitura definiu a empresa Gravisa Engenharia e Empreendimentos, que entregou proposta de orçamento de R$888 mil para o projeto, como a vencedora da licitação. No ano passado, a prefeitura já prometera realizar a licitação, com prazo de março de 2018, o que não se concretizou. Procurada, a Secretaria municipal de Infraestrutura e Habitação afirmou que a demora ocorreu em razão da espera por recursos e disse que o prazo de conclusão da reabertura é de cinco meses após o início da obra. Isso deve acontecer em breve, após a assinatura do contrato e a autorização da Riotrilhos, atual proprietária do terreno, que precisa fazer a “doação da faixa de recuo”, processo que já está em andamento.
Essa história, porém, se arrasta há longas décadas. Em 1975, a rua foi fechada, e imóveis ali existentes desapropriados para que as obras da então futura estação do metrô de Botafogo fossem tocadas. Durante o período, a Riotrilhos, que se tornou proprietária dos terrenos, cedeu os lotes (são dois, o 103 e o 104, um para cada lado da via) à Odebrecht, responsável pela construção. A empreiteira utilizou o espaço como canteiro de obras, inclusive para a Linha 4 mais recentemente, até dois anos atrás, quando a área retornou à Riotrilhos.
Passados muitos anos da inauguração do metrô do bairro — em 1981—, moradores de Botafogo encampavam a luta pela reabertura da via. Uma das maiores reclamações era a necessidade de os pedestres darem uma longa volta entre a Rua Professor Álvaro Rodrigues e a própria estação, o que agora será facilitado pela “nova-antiga” via. As opções atuais são andar até a Rua da Passagem ou acessar a passagem pelo Hortifruti e o Shopping dos Sabores, comércio que fecha às 20h.
A presidente da Associação de Moradores de Botafogo (Amab), Regina Chiaradia, explica que essa luta já dura cerca de 30 anos e celebra a perspectiva de conquista do objetivo.
— Abrir a rua será altamente positivo. Vai melhorar para os pedestres e ajudar desafogar o trânsito — afirma ela, que perdeu as contas da quantidade de reuniões que participou sobre o assunto. — Há dois anos, quando a Odebrecht saiu, tivemos uma reunião com a Riotrilhos e eles nos disseram que queriam vender o terreno, em vez de devolverem a rua. Realizamos, então, a manifestação “Tire o seu Pezão da minha rua”.
Trecho terá duas faixas de rolamento
Pelo projeto desenhado, o trecho de 105 metros de extensão e 19 de largura, terá duas faixas de rolamento, ciclovia, um espaço para estacionamento de 12 veículos e vai postes de iluminação pública. A arquiteta responsável pelo projeto foi Claudia Grangeiro, da Secretaria municipal de Urbanismo.
— Já existia um Plano de Alinhamento (traçado que determina a existência de logradouros públicos na cidade) para aquele terreno. Vai ser uma ligação muito importante na cidade. Mais do que os carros, os pedestres e ciclistas serão os maiores beneficiados. Agora as duas ciclovias (na Álvaro Rodrigues e General Polidoro) poderão ser interligadas. É um pequeno passo para a melhoria da mobilidade do bairro e da cidade — explica a arquiteta.
Nos arredores da via, moradores e comerciantes demonstram otimismo com a reabertura. Rafael Perdigão, que trabalha num quiosque em frente ao trecho fechado disse que o projeto vai ajudar bastante aos pedestres.
— Até umas 20h, dá para usar a passagem do Hortifruti, mas é muito ruim ter que dar essa volta grande. E o trânsito aqui é horrível, fica parado o dia todo — afirmou ele, que diz ter visto a presença de funcionários da prefeitura no local algumas vezes este ano.
Outra vantagem do projeto é o fato de evitar possíveis invasões. O porteiro Antônio Berto, que trabalha em um prédio na Rua Geneal Polidoro, em frente ao terreno, diz que a área está abandonada desde que a Odebrecht deixou o local.
— Nesses dois anos dá até para ver o quanto o mato cresceu. Vai ser muito bom principalmente para acessar o metrô. E na hora de saída da escola que existe aqui do lado, fica tudo parado — observa ele, que comemora a reabertura.
Transferência da sede do 2º BPM
A reabertura do trecho não é a única demanda da Amab. Junto com esse projeto, há a tentativa de transferir a sede do 2º Batalhão da Polícia Militar (2º BPM), hoje na Rua Álvaro Ramos, para a nova via.
Em 2013, o governo anunciou a venda do batalhão, que ficava na Rua Real Grandeza, por R$ 38,7 milhões para a construtora João Fortes, que construiu um condomínio no local. Desde então, a sede fica na Rua Álvaro Ramos. Segundo Regina Chiaradia, em reuniões da associação com a presença da PM, ficou acertado que as partes tentariam a transferência para a via a ser reaberta, que conta com melhor localização geográfica.
— Em uma das reuniões, o antigo comandante do 2º BPM me disse que seria ótimo para eles a transferência, pois teria espaço para melhor circulação das viaturas. Fora que aquela sede da Álvaro Ramos sempre foi provisória, e os policiais ficam em contêiners. Já fui ao governo estadual e ao Comando Geral da PM. Nosso desejo é que a rua seja reaberta junto com a autorização da transferência do batalhão, antes que o comércio informal não ocupe a rua. O prédio ficaria numa calçada e as viaturas estacionadas do outro lado. O problema é que a burocracia é grande — explica Regina.
Outro entrave para o projeto seria a verba. Numa das reuniões da Amab, Regina pediu o auxílio de Rogerio Chor, dono da construtora TGB, que possui um projeto aprovado para fazer, junto com a Cyrella, um condomínio de dois blocos no trecho da Rua Nelson Mandela entre a Voluntários da Pátria e a Professor Álvaro Rodrigues. O empreendimento seria semelhante ao que existe no outro quarteirão, também da sua construtora, que revitalizou a rua e criou a praça Nelson Mandela. O empresário disse que se dispôs a pagar R$1.151 milhão para o projeto, mas que ainda não houve evolução da ideia para uma formulação legal.
— É verdade que eu falei para Regina que aceitava doar uma verba para o projeto de reabertura da rua, mas isso independente da questão do batalhão. Eu não sei como usariam de fato o dinheiro. Para mim, só importa a definição de um valor. Esse foi o combinado, mas se vou pagar à prefeitura, à PM, à empresa que venceu a licitação, isso não sei. Aí ainda falta sentar todo mundo e equacionar isso – explicou Chor.
Recentemente, alguns moradores passaram a demanda ao vereador Carlo Caiado (DEM), que levou a pauta ao secretário estadual de Transportes, já que o terreno teria que ser transferido da Riotrilhos para a PM, na tentativa de viabilizar o projeto de transferência do batalhão. Procurada, a Polícia Militar informou que o atual comandante do 2ºBPM, tenente-coronel Augusto Eduardo Moreira Valentim, comprometeu-se a dar encaminhamento à reivindicação de transferência da sede.
A PM diz que a nova via tem melhor localização geográfica, mas o comandante ponderou aos líderes comunitários que é preciso ainda analisar questões técnicas para a obra. A polícia ainda diz que um abaixo-assinado será encaminhado por Valentim ao secretário da PM Rogério Figueredo. A Amab, porém, diz que nenhum abaixo-assinado foi feito, mas que a reivindicação foi tratada apenas nas reuniões.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Lucas Altino / Agência O Globo