Arthur Oliveira tem 8 anos, vai começar a cursar o 3º ano do ensino fundamental na escola municipal Roma, em Copacabana, no próximo dia 11 e está triste. É que, durante o recesso escolar, o menino, morador da Rocinha, em São Conrado, se muda para a casa de um tio no morro da Babilônia/Chapéu Mangueira para participar da colônia de férias das comunidades do Leme, que acaba nesta sexta-feira. Durante o mês de janeiro, ele e outras 300 crianças passaram os dias indo para a praia, para o cinema, para clubes. E, em casa, ele tem que brincar sozinho mesmo.
– Ouço muito tiro na Rocinha, fico com medo. Lá, não consigo brincar na rua, porque é perigoso. Prefiro estar aqui. Vou sentir muita saudade dos meus amigos – disse Arthur nesta quinta, enquanto almoçava com outras crianças da colônia na quadra do Chapéu Mangueira.
A Colônia de Férias Comunitária foi criada há 20 anos pelo jornalista Ivan de Jesus Costa, morador da comunidade. Ele consegue levar adiante o trabalho com a ajuda voluntária de moradores locais, que doam alimentos e atuam como monitores e professores das crianças. O projeto, que custa o valor simbólico de R$ 30 por aluno, é voltado para meninos e meninas de 4 a 14 anos, de diversas comunidades do Rio, que fazem atividades de lazer de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h.
– A ideia é ocupá-las ao máximo, para que não fiquem soltas nas ruas. É muito importante não deixar essas crianças ociosas, expostas à violência. Elas ficam muito vulneráveis durante trocas de tiros. E também precisamos oferecer possibilidades, para que elas não se envolvam com o crime – observou Ivan.
Uma das atividades oferecidas é uma visita aos quartéis da Marinha, na Zona Portuária. Ivan contou com orgulho que 20 ex-alunos da colônia ingressaram nas Forças Armadas. A estudante do 9º ano Maria Eduarda Souza, de 14 anos, é uma das que decidiram seguir a carreira militar após visitar as instalações da Marinha este mês.
– Você vê aquelas mulheres com uniforme, bem arrumadas e se inspira. É uma perspectiva de melhorar de vida – afirmou Maria Eduarda.
Crianças são organizadas por faixa etária: idade varia entre 4 e 14 anos Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Crianças são organizadas por faixa etária: idade varia entre 4 e 14 anos Foto: Gabriel de Paiva / Agência O Globo
Ivan agora se prepara para organizar a colônia do ano que vem e espera poder contar com doações de empresas privadas. Este ano, ele teve que cancelar alguns passeios externos por falta de verba para alugar ônibus para transportar as crianças:
– Fazemos tudo na raça e na resistência mesmo. As crianças sonham com isso o ano inteiro. A colônia não pode parar.
Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Mota Junior