Em meio ao verde preservado, nada do som de trânsito ou da correria da cidade. Caminha-se a passos lentos, em terrenos com características variadas, sobre rochas, à margem de rios, em terra batida, entre folhagem densa. Quem percorre trilhas em meio à natureza tem a chance de ver o Rio de Janeiro por outros ângulos. Na região, a atividade tem novidades, como um trecho aberto recentemente e um passeio guiado por áreas que se destacam pela diversidade biológica e a importância histórica.
No canto direito da Praia de Grumari, uma escada de pedra é o ponto de partida para uma trilha por dentro do Parque Estadual da Pedra Branca. O início da subida já era conhecido dos adeptos do parapente. A partir do ponto usado como pista, foi aberto um caminho alternativo há cerca de cinco meses, levando a um novo trecho da Trilha Transcarioca, de onde se pode contemplar Barra de Guaratiba e Grumari. Os trilheiros têm agora a possibilidade de finalizar o percurso na areia da praia, em vez de na Estrada do Grumari.
A guia de turismo Alessandra Ali, especializada em atrações naturais, organiza passeios por meio de sua empresa, a Hike in Rio. Guia grupos de até oito participantes no trecho, de dificuldade leve a moderada. O ponto alto é a vista da região, que permite ver a praia e parte do Parque da Pedra Branca.
— Esse pedaço está praticamente virgem. O caminho é incrível, um bromeliário ao ar livre. Há também muitas epífitas, plantas típicas da restinga — conta Alessandra. — O novo trecho dá ainda na Pedra do Telégrafo, de onde se tem uma vista linda. Às vezes, fazemos passeios com a presença de um biólogo para explicar o que se vê.
Este trecho é feito durante a travessia das Praias Secretas, oferecida pela empresa. O trajeto de sete quilômetros é em terrenos variados, com direito a mergulho em todas as praias e descanso em suas areias brancas. A trilha começa em Guaratiba e finaliza na Praia de Grumari, passando pelas praias do Perigoso, do Meio, Funda e do Inferno.
—Vemos paisagens lindíssimas no Rio. Esse roteiro é um dos mais procurados, e as pessoas ficam maravilhadas. Como moro aqui, exploro mais a Zona Oeste — diz Alessandra.
A guia conta que busca oferecer a cariocas e turistas passeios fora dos tradicionais cartões-postais da cidade. Seu público costuma ter de 20 a 65 anos, entre trilheiros experientes e iniciantes, e a maioria se concentra na faixa dos 30 a 45 anos. O contato pode ser feito por Instagram (@hikeinrio), e-mail (hello@hikeinrio.com.br) e site (hikeinrio.com.br).
Opção Interpretativa, na Juliano Moreira, é aberta ao público
Na Taquara, é possível conhecer parte da história da Colônia Juliano Moreira em meio ao verde. Um passeio pela trilha do campus Mata Atlânticaa da Fiocruz permite saber, por exemplo, como se deu o desenvolvimento da região. Os participantes também recebem informações sobre o trajeto e os cuidados que devem ter durante a caminhada.
O destino final é o reservatório que até hoje abastece comunidades próximas. A Trilha Interpretativa foi assim batizada porque os participantes são estimulados a perceberem o ambiente ao redor à medida que caminham. Mudanças de temperatura, sons, sombras, tons e tipos de folhagem e aromas são algumas das características apontadas pelas mediadoras durante o caminho de 1,5 quilômetro e dificuldade leve.
No início do percurso é feita uma explicação sobre o projeto de reflorestamento realizado pelo campus para compensar as modificações ocorridas ao longo dos séculos. O local sofreu alterações para dar lugar à plantação de cana-de-açúcar e à extração de madeira para fazer carvão. O trabalho de substituição de espécies trazidas de outros países por exemplares do bioma brasileiro que vem sendo feito também é detalhado durante o passeio.
— Tentamos enaltecer o nosso bioma. A mangueira, por exemplo, não é daqui, foi trazida da Ásia. Vamos plantando árvores frutíferas nativas para substituí-las — conta Mylena Borges, uma das mediadoras da trilha.
Ao longo da Trilha Interpretativa, que pode durar cerca de duas horas, as guias contam curiosidades e chamam a atenção para diferentes elementos da natureza. As embaúbas são um dos destaques. Elas têm importância no primeiro estágio da formação de uma floresta, pois preparam o solo para as demais espécies e servem de alimento para os bichos-preguiça. Já as figueiras resistiram ao tempo e ao desmatamento devido ao cunho religioso. Por aparecerem na Bíblia, temia-se derrubá-las. A mediadora Ana Paula Paiva vê nesses detalhes uma chance de ensinar fora da sala de aula.
— Temos um projeto em que estamos olhando para o conteúdo programático dos ensinos fundamental e médio e vamos correlacioná-lo com os conhecimentos que abordamos na trilha e com outras atividades do campus. A ideia é tentar fazer com o que o conteúdo seja mais interessante e próximo da escola — conta.
A trilha, anteriormente oferecida a grupos ligados à Fiocruz, foi aberta ao público há um ano. Como o projeto tem cunho educacional, a equipe vem direcionando suas ações no sentido de atrair escolas públicas e particulares, em especial as da região, além de amantes da natureza interessados em conhecer mais da história do lugar.
Entre as orientações está caminhar com calma, especialmente por trechos escorregadios e ao atravessar pontos do rio, e seguir em fila indiana, respeitando os limites da trilha. Canaletas construídas durante a Colônia para abastecer um aqueduto e movimentar um moinho de cana-de-açúcar continuam expostas, apesar de não serem mais utilizadas. Embora a ideia de mergulhar pareça tentadora, a água do reservatório não pode ser usada para banho, pois continua a abastecer, por meio de canos aparentes ao longo do trajeto, comunidades residentes nos arredores há décadas e formadas por famílias de antigos funcionários da Colônia Juliano Moreira. Informações e inscrições para a Trilha Interpretativa podem ser feitas pelos telefones 2448-9027 e 2448-9057 e pelo e-mail educa.cfma@fiocruz.br.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo