Do Leme ao Pontal, não há nada igual. Tudo bem, mas, se tivesse ido ao menos uma vez às praias selvagens do Rio – cinco do total de 71 -, talvez Tim Maia dedicasse uma canção exclusivamente a elas. Muitos cariocas já se aventuraram nas praias do Perigoso, dos Búzios, do Meio, Funda e do Inferno. Mas, para a maioria, elas ainda são um grande mistério. Quem o desvenda encontra cenários de rara beleza, águas límpidas, bromélias gigantes e, dependendo do dia da semana, areias desertas.
É preciso ter disposição para chegar a esses pedaços do paraíso. A trilha que dá acesso a todas fica em Barra de Guaratiba, perto da Praia do Canto (onde é possível contratar um barco para fazer o passeio por R$ 30, cada pessoa). A ladeira íngreme da Rua Parlon Siqueira leva ao ponto inicial da caminhada. Até as duas primeiras praias, do Perigoso e dos Búzios, são cerca de 40 minutos. É o trecho mais fácil do percurso, que tem aproximadamente três quilômetros – duas horas são suficientes para chegar ao fim da trilha.
Cada praia tem uma identidade e um público diferente. A do Perigoso é a mais frequentada – mas nunca fica igual ao Posto 9 de Ipanema. Logo ao lado, a dos Búzios tem pedras no lugar da areia, o que não a torna muito convidativa aos banhistas. Surfistas frequentam a do Meio, única das cinco onde há ondas. Na Funda, os visitantes podem até se lembrar da Baía do Sancho, em Fernando de Noronha, também rodeada por rochas e com uma trilha que desce a montanha. Pescadores costumam ir diretamente ao fim da trilha, na estreita Praia do Inferno, onde só há sombra sob os galhos de duas amendoeiras.
O guia turístico Pedro Felipe Carvalho, de 25 anos, mora em Guaratiba há 15 e é apaixonado pelo recanto. Tanto que fundou, em 2012, a ONG Amigos do Perigoso, que vai ao local uma vez por mês e retira de barco todo o lixo, entregue à Comlurb em Barra de Guaratiba. Cinquenta voluntários participam dos mutirões. A partir de 2015, eles querem levar a iniciativa para as outras quatro praias. Eles acabam de instalar na trilha novas placas informativas, que indicam o caminho certo.
– A trilha é incrível, há dias em que o mar parece caribenho. Já vi tartaruga, baleia, leão-marinho e até pinguim. Arraias enormes vêm aqui no verão. Amo esse lugar. Eu e minha esposa nos conhecemos na areia do Perigoso, em novembro do ano passado. Nossa filha, Júlia, vai nascer agora, dia 25 de dezembro – conta Pedro.
Por estar dentro do Parque Natural Municipal de Grumari, uma área de conservação de 966 hectares, é proibido acampar na orla selvagem do Rio. Mas, como não há fiscalização – as praias não têm qualquer estrutura, nem mesmo lixeiras, tampouco guarda-vidas ou ambulantes -, ninguém impede a prática. Os aventureiros costumam se “hospedar” em toda a orla. Muitos deixam seus vestígios, como garrafas de vidro e um rastro de sujeira.
Um grupo de amigos de infância, todos moradores da Abolição, estava acampado na Praia do Meio quando a equipe de reportagem esteve lá. Era uma terça-feira, eles tinham chegado no sábado anterior e planejavam ficar enquanto houvesse mantimentos. Ao ouvir a pergunta “que dia da semana é hoje?”, os quatro se olharam e começaram a rir. Não sabiam a resposta.
– Aqui é um outro mundo. É um sonho passar uma semana sem celular, não ter qualquer acesso à tecnologia. Isso nos leva a pensar de uma maneira diferente. Existe muito mais irmandade aqui do que lá fora – afirmou o malabarista Yuri Sier, de 24 anos, que já foi escoteiro e nem lembra mais quantas vezes acampou ali.
Ao seu lado, o tatuador Victor Hugo, marinheiro de primeira viagem, complementa:
– Só é ruim quando acaba o cigarro.
Como todo lugar inóspito que se preze, a orla selvagem do Rio é cheia de boas histórias. Uma delas é contada pelo pescador Vanderlei Pires, de 60 anos, morador de Guaratiba. Seu pai foi o primeiro a levá-lo lá, ele tinha apenas 15 anos. Quando se sentia triste por qualquer motivo, Vanderlei se refugiava nas pedras do Inferno.
– Na época em que era governador, Leonel Brizola vinha aqui de vez em quando, de helicóptero. Pousava bem ali, perto daquele poço, que até hoje é chamado de Poço do Brizola. Eu mesmo vi. Ele entrou no mar, ficou meia hora e depois se mandou – narra o pescador, que, quando vai ao mar, só se alimenta com as frutas da região. Ao se despedir, de longe, joga um presente: um cacho de bananas que acabara de colher no mato.
Os amantes da região estão preocupados. Não com o aumento de visitantes, algo normal em todo verão. Mas com o sumiço de Silêncio, como é chamado o único habitante da Praia do Perigoso, conhecido há décadas. Ninguém tem notícias dele desde setembro. Seus pertences continuam na praia. As amendoeiras que plantou, também. Seus amigos rezam para que Silêncio esteja vivo – e volte assim que puder.
Fonte: O Globo
Foto: Felipe Hanower / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Júnior