Jardim Gramacho, na Baixada, vai ganhar biblioteca comunitária com 1.200 livros

Onde havia o lixo, hoje chega o livro. A mudança é vista no Jardim Gramacho, bairro periférico do município de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, que por 34 anos abrigou o maior aterro sanitário da América Latina, fechado em 2012. Lá, enquanto cerca de 300 catadores trabalham em 18 cooperativas de reciclagem de lixo, outros 4 mil estão desocupados, sem perspectivas de trabalho e vivendo na pobreza extrema. Bem no meio desse cenário, numa casa de 41 metros quadrados onde já funciona um projeto voltado para orientar jovens grávidas, mães precoces e meninas com vida sexual ativa, será aberto nesta quarta-feira um Canto de Leitura.

A biblioteca pública começará reunindo 1.200 livros — e um mundo de possibilidades.

— Tenho 42 anos, estudei até a 4ª série, gostaria de ter tido a oportunidade de ter lido mais na infância para ter mais chances. Vou trazer meus filhos para a biblioteca; não quero que eles sejam catadores — afirma Silvana da Silva, catadora desde os 14 anos e mãe de seis, com idades entre 10 e 25 anos.

Presidente da associação de catadores do Jardim Gramacho e do Instituto Brasileiro de Inovação e Saúde Social (Ibiss), Tião Santos ficará à frente do Canto de Leitura de Gramacho. O ex-catador de 39 anos chama atenção para a necessidade de se interromper um ciclo vicioso na região:

— Eu sou a segunda geração de catadores da minha família, aqui tem até a terceira. Não terei vergonha se minha filha quiser ser catadora, é uma profissão importante, se dadas as condições dignas. Mas as pessoas têm que ter direito à escolha, ter alternativas. Nada muda sem educação. Dar acesso à educação é também dar acesso a sonhos.

Melhora na escola
Tião, que ficou conhecido nacionalmente ao participar do documentário “Lixo extraordinário”, sobre o trabalho do artista plástico Vik Muniz com catadores de Gramacho, conta que, aos 22 anos, teve a vida transformada por um projeto social do Ibiss. E pelo livro “O Príncipe”, de Maquiavel, que conheceu ali.

— Maquiavel me fez enxergar os meus direitos enquanto cidadão e aprender a usar de estratégias para ultrapassar certas barreiras, além de ter despertado minha curiosidade. Perdi as contas de quantos livros já li depois de “O Príncipe” — conta Tião, que planeja fazer faculdade de Sociologia no ano que vem.

O Canto de Leitura é um projeto realizado pela Rede Educare, financiado por empresas privadas através da Lei Rouanet. A fabricante de latas de alumínio Ball investiu R$ 400 mil no patrocínio de quatro unidades no Rio: em Gramacho; em Três Rios, no Sul Fluminense; em Itaguaí e em Nova Iguaçu, na Baixada.

A de Nova Iguaçu, aberta no último dia 13, é a única que não está instalada próxima a cooperativas de reciclagem, mas em uma comunidade, Campo Belo. O acervo ali, também de 1.200 livros (da coleção de “Harry Potter” à de “Percy Jackson”, passando por clássicos de Jorge Amado e Clarice Lispector), é voltado majoritariamente para o público infantojuvenil.

— A maioria das famílias não teve oportunidade da leitura, e pais que não tiveram essa prática não a passam para os filhos. Queremos conquistar os adultos através das crianças e adolescentes. A ideia das bibliotecas dentro de lugares de vulnerabilidade social é mostrar que leitura é direito humano — diz Mônica Zerdam, articuladora da Rede Baixada Literária, que gere o Canto de Leitura e outras 15 bibliotecas comunitárias em Nova Iguaçu.

Ela conta que, em pesquisas da Rede, identificou jovens que melhoraram o comportamento e o desempenho escolar após começarem a ler. Foi o que ocorreu com Rebeca Vieira, de 18 anos, moradora de Campo Belo que está no terceiro ano do ensino médio e planeja cursar Jornalismo. Mas só passou a se interessar pelos estudos ao descobrir a literatura, há dois anos.

— Aqui, a maioria das pessoas abandona a escola aos 13, 14 anos. As escolas não oferecem muitas possibilidades, não têm biblioteca. O Canto de Leitura vai fazer jovens terem mais interesse pelo estudo. O livro ajuda a abrir a mente — destaca Rebeca.

Professora da comunidade, Jeniffer de Paula, mãe de Mel, de 6 anos, acredita que a função social da iniciativa vai além:

— Campo Belo é uma comunidade muito difícil, que precisa de atenção. Tirar as crianças do tráfico é uma missão árdua, que vai ter que se conquistada de grão em grão. E eles têm grandes chances de conseguir.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior