As ilustrações ganham contornos múltiplos nos muros e paredes da cidade. No dia a dia, ela pode até passar despercebida, mas basta que o olhar repouse sobre a arte estampada nas ruas para despertar sentimentos e percepções, refletindo uma cultura. Isso acontece logo na entrada da Galeria Homegrown, há pouco mais de três meses funcionando em nova filial, no número 514 da Rua General Roca, na Tijuca. Do lado de fora do casarão de três andares, o grafite compõe o cenário urbano e convida a visitar o que há no interior: uma mistura de loja comercial com barbearia e galeria cujos focos são a arte de rua e a cultura underground.
Casarão. Com três andares, a Galeria Homegrown se divide em loja, barbearia, salas com exposições e workshops – Barbara Lopes / Agência O Globo
No primeiro andar, enquanto se toma uma bebida no bar, é possível comprar artigos que pertencem ao universo do grafite e de esportes como skate. São camisas, bermudas, calças, sneakers, chinelos, acessórios e bonés. E se o corte de cabelo ou a barba estiverem precisando de reparos, no fim do corredor há uma barbearia. Subindo as escadas de madeira, ao som de black music, há duas salas no segundo andar: uma com um acervo de obras de artistas como João Lelo, Bruno Big, Marcelo Macedo, Marcelo Ment, Marcio SWK, Ronaldo Land e Mottilaa (os trabalhos ficam expostos durante todo o ano); e outra que recebe trabalhos de artistas de arte urbana.
Do alto do Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, o artista Márcio SWK se inspirou nas cores que via da janela da sua casa para idealizar a exposição “Imaginação”, que está em cartaz, com oito obras exibidas até o fim do ano na Galeria Homegrown. A mostra nasce da busca por fazer letras abstratas e mexer com a imaginação do público, estimulando diversas interpretações. Ele harmoniza fontes e brinca com a composição de cores.
— Usei tinta acrílica, spray, giz pastel oleoso e lápis grafite 6B. Cada tela que pinto representa uma letra. Mas cada um pode enxergar uma coisa diferente, por isso o nome “Imaginação”. Eu sei que pintei a letra “A”, por exemplo, mas é gostoso ouvir a pessoa falando que está vendo um trem, prédios, ou um horizonte ensolarado — explica Márcio SWK.
No terceiro andar há um espaço para reuniões, cursos e workshops. No mês passado, o retratista Ronaldo Land montou uma turma de fotografia. As aulas custam em torno de R$ 400.
A Galeria Homegrown foi fundada há dez anos em Ipanema por Marco André Tosatth, Pedro Henrique Rodrigues e Paulo Tassinari, o Bill. Pioneira em street art no Rio e uma das principais do segmento no Brasil, a galeria já abrigou centenas de eventos. Seus sócios são os principais idealizadores do Arte Core — Festival de Arte Urbana, que acontece anualmente no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM). Em outubro foi realizada a terceira edição.
— O pensamento da maioria das marcas é apenas sugar dinheiro do consumidor. Não queríamos ficar somente no comercial e fomos além, criamos um espaço de cultura. Reunimos nossa paixão remota pela arte urbana em um ambiente onde podemos dar voz a artistas até então desconhecidos, bandas independentes e marcas que estão começando — explica Marco André, que trabalhava como garçom em eventos.
Acessórios, sneakers e bonés, entre outros produtos, estão à venda no primeiro andar da Homegrown – Barbara Lopes / Aência O Globo
O público da Homegrown presente na Zona Norte, segundo Marco André, fez com que o trio de sócios voltasse o seu olhar para a Tijuca.
— Nós tivemos um grande retorno no próprio Arte Core. Devíamos isso à região. A cultura urbana nasceu na Zona Norte do Rio e nada mais justo que retribuirmos dessa forma. Não seguimos moda, seguimos nossos gostos pessoais, que são representados pela arte que emana das ruas — defende.
Fonte: O GLobo
Foto: Barbara Lopes / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior