Moradora do Dendê, na Ilha, é bicampeã brasileira de jiu-jítsu

Daniela Soares era uma pessoa da farra. Bebia e fumava demais, não se importava muito com compromissos. Exercícios físicos? Nem pensar. Há cerca de cinco anos, porém, sua vida mudou radicalmente.

Incentivada por seus dois irmãos, que já lutavam jiu-jítsu e insistiam para que ela começasse a treinar, Danny, como é conhecida a moradora do Morro do Dendê, resolveu sair do sedentarismo e seguir os passos da família. Apesar do preconceito — achava que era “coisa de homem fedido” — entrou para a equipe Nova União, orientada pelo mestre Ricardo Gavião, que dá aulas no Esporte Club Cocotá.

O começo foi difícil, recorda a atleta. Sentiu os limites da idade — ela já tinha 28 anos — e o sobrepeso. Mas não desistiu.

— Eu comecei além do tempo. Costumo dizer às pessoas que nunca é tarde para começar, mas quanto mais nova, melhor. Pensei em desistir várias vezes. A ajuda de toda a equipe, porém, sempre me motivou, e continuei. Não é fácil ser mulher, dona de casa, trabalhar. Nada fácil. Mas ao longo do tempo descobri que era isso que eu queria, o jiu-jítsu para o resto da vida — conta Dany, que trabalhou como manicure e operadora de telemarketing.

Seu primeiro campeonato foi no Jequiá Iate Clube, em 2015, quando era faixa branca. Ali, alcançou o pódio e foi picada pelo bichinho do jiu-jítsu. Hoje, tem incontáveis títulos, superou os próprios irmãos, inclusive o que também luta profissionalmente.

O principal torneio de que participou foi o Campeonato Brasileiro de Jiu-Jítsu, o maior do país, no qual foi campeã em 2017 e este ano. Desempregada, Danny aposta todas as suas fichas no esporte, mas lamenta a falta de incentivo e patrocínio para lutar. Apesar de todas as vitórias, nunca teve retorno financeiro, apenas reconhecimento. Seu objetivo é competir o Mundial, que será realizado na Califórnia no ano que vem, pela faixa roxa, Master 1.

— Danny tinha muito receio de lutar. Antes de um ano, eu insisti e ela se inscreveu numa competição. Foi, competiu e ganhou. Vale a pena investir nela. Sempre que tem campeonato, fazemos uma rifa para custear os gastos. Várias vezes eu mesmo paguei as taxas de inscrição e passagens, mas não digo a ela. Acredito muito nela, sei que o resultado vai ser positivo, mas, infelizmente, o esporte no geral é deixado de lado no nosso país — lamenta Gavião, que também trabalha como segurança.

Ainda que se veja cercada por dificuldades, Danny afirma que se sente realizada, e que vai seguir na luta, em todos os sentidos.

— Se hoje eu tivesse que parar por algum motivo maior, eu estaria realizada, muito feliz. Mas não quero para não, vou seguir em frente — avisa a campeã, sempre com o seu quimono cheirosinho, que ela mesmo lava e tem orgulho de contar para todo mundo.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior