No muro da esquina, uma pombagira chama a atenção ao lado de uma ilustração que decreta que “as meninas merecem toda liberdade”. Mais à frente, uma foto mostra duas mulheres se beijando na boca e o lema “censura nunca +”. Os olhos logo procuram o próximo cartaz, afinal, tem sido impossível ficar indiferente aos lambe-lambes espalhados pelas ruas da cidade desde que eles deixaram de servir apenas para divulgar eventos.
Hoje, eles cresceram — alguns chegam a ter três metros de comprimento — e apareceram repaginados. Viraram plataformas artísticas e meio de divulgação de diversas bandeiras. Por trás das imagens, está uma turma que deseja provocar reações.
A recepção nem sempre é das mais favoráveis. Alguns dos 40 lambe-lambes espalhados pelos integrantes do festival fotográfico FotoRio, no Centro, foram vandalizados. Os alvos não foram os cartazes com críticas a injustiças sociais, mas os com figuras femininas. A imagem, feita pela fotógrafa Tânia Bonin, de duas mulheres se beijando na boca durante uma manifestação na Praça Mauá, no ano passado, foi arrancada em menos de 24 horas. Na última quarta-feira, organizadores do evento voltaram a exibi-la.
— O que mais me chocou foi que vandalizaram a imagem do beijo, mas as outras, que mostram cenas de violência, ficaram intactas. Quando um gesto de amor choca, é porque a sociedade está totalmente doente — diz Tânia.
O coletivo Tupinambá Lambido tem tido mais sorte. Com forte pegada feminina e presença marcante de Botafogo até a Abolição, o grupo, nascido em 2016, teve poucos lambe-lambes vandalizados até agora. E olha que o que não falta é imagem dos artistas do grupo nos muros da cidade — eles calculam que, somente no ano passado, tenham colado 300 cartazes sobre a crise política. Este ano, a campanha é mais heterogênea: vai da pombagira a imagens de crianças, passando por frases de efeito e críticas a bancos.
Difícil é saber quem são os rostos por trás dos lambe-lambes do coletivo. No melhor estilo Banksy — o grafiteiro/artista/ativista britânico que espalha arte por cidades como Londres, Bristol e Paris sem que ninguém saiba sua identidade —, o grupo prefere não revelar a identidade de seus componentes.
— Preservar os nomes dos envolvidos nos garante certa liberdade. Nosso sonho é colar em todos os bairros — informou o coletivo, por e-mail.
O sonho, no entanto, pode durar pouco. O decreto municipal 14.481 permite lambe-lambes apenas em tapumes de obras. Os colados em muros, postes e viadutos são considerados ilegais, e fiscais podem retirá-los.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior