Casa com ar de antigamente ajudará a preservar o jongo da Serrinha

Numa vizinhança repleta de casas desbotadas e construções sem emboço, típicas de favela, o prédio branco de linhas retas da Rua Silas de Oliveira se destaca. Naquele endereço na subida do Morro da Serrinha, em Madureira, a partir do dia 29, abrirá as portas a Casa do Jongo, uma construção ampla e arejada que tem até telhado verde (uma horta de 150 metros quadrados). Após dois anos de obras, o espaço surge para sediar um centro cultural da tradicional ONG Jongo da Serrinha. Mas os responsáveis pelo local não queriam que ele abrigasse apenas cursos, oficinas, festas, exposições e reuniões. Decidiram que ele deveria oferecer também boas lembranças. Para isso, resolveram que os visitantes deveriam, ao passar pela porta, sentir o clima das antigas casas de subúrbio e ter contato com objetos, fotos e até cheiros que reavivassem a memória das gerações passadas da comunidade da Zona Norte.

Seguindo este conceito, a decoração da Casa do Jongo ganhou móveis e utensílios que eram comuns na vida doméstica dos moradores de subúrbio, principalmente entre as décadas de 1940 e 1960: foram garimpados em brechós e antiquários guarda-roupas, penteadeiras, cristaleiras, mesas de jantar, cadeiras de balanço, porta-retratos e bibelôs.

— Garimpamos um acervo típico das casas de subúrbio, principalmente as da década de 40. Queremos que a pessoa entre aqui e já tenha aquela sensação de lembrar do quarto dos avós. Vai ser um espaço de convivência e empreendedorismo, mas vai ser um lugar para todos se sentirem em casa. — conta Dione Boy, coordenadora da ONG Jongo da Serrinha.

VIZINHOS JÁ SE SENTEM À VONTADE

E, a julgar pela reação dos vizinhos, está todo mundo se sentindo à vontade. Uma moradora da casa em frente fez questão de doar uma janela de madeira do início do século 20, que vai ser restaurada e ganhar nova função: virar luminária. Outro morador levou molduras e porta-retratos. Fotos com cenas de integrantes dos grupos de jongo também já foram anexadas ao acervo. A maior parte da mobília e dos materiais, no entanto, foi comprada com verba doada pela Petrobras.

— A gente nem abriu ainda, mas a comunidade já está vindo visitar, até porque tem um impacto muito grande uma arquitetura dessa dentro de uma favela. As pessoas reconhecem os móveis e objetos rapidamente. Alguns estão trazendo quadros de madeira, cristaleira, cadeira de balanço, planta, espada de São Jorge, além de muitas fotografias — diz Dione.

As toalhas de plástico com flores e os tecidos de chita estampados, usados para forrar paredes e cadeiras, o diretor de arte Rui Cortez encontrou em lojas no próprio bairro de Madureira.

Logo na entrada, o visitante será recebido por uma mostra de fotografias antigas, com imagens dos primeiros habitantes da Serrinha. Num outro cantinho, móveis e objetos vão homenagear Mestre Darcy do Jongo, morto nos anos 2000 e um dos fundadores do grupo de jongo da Serrinha.

Segundo os responsáveis, a Casa do Jongo vai oferecer atividades complementares para as duas escolas e duas creches públicas que existem na Serrinha. Haverá 12 oficinas culturais gratuitas, como canto, jongo, cavaquinho, teoria musical, percussão, cinema, cultivo de horta e contação de histórias.

Para transformar-se na nova residência dos jongueiros, o prédio, que foi construído originalmente para ser uma gráfica, passou por um retrofit, projeto assinado pelo RUA Arquitetos. Com cerca de 2 mil metros quadrados, o novo espaço terá salão para danças, auditório para 30 pessoas com projetor, estúdios, salas para cursos profissionalizantes, espaço para exposições permanentes, lojas, refeitório e salas administrativas. A casa terá também um ambiente para rezas e terreiro para jongo e capoeira. No térreo do imóvel, foi feito um projeto paisagístico com pedras portuguesas, num mosaico com referência a desenhos africanos.

Segundo a Secretaria municipal de Cultura, o imóvel foi desapropriado pela prefeitura e totalmente reformado. As obras, licitadas pela RioUrbe ao custo de R$ 1.733.017, serão finalizadas até o fim deste mês.

Para Lazir Sinval, cantora e bailarina de jongo, a casa vai facilitar a tarefa de manter a tradição viva:

— Fui uma das primeiras crianças a aprender a dançar jongo, quando, na década de 1960, Mestre Darcy e vovó Maria Joana resolveram fundar um grupo na Serrinha. Eles perceberam que os jongueiros iam morrendo e o jogo ia sumir. Decidiram ensinar para as crianças. Somos da quinta geração. E, se Deus quiser, vamos preparar as próximas.

Fonte: O Globo
Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo
Postado por: Raul Motta Junior