Quando o engenheiro José Carlos começou a juntar as conchas que encontrava pelas areias da Praia do Lázaro, em 1966, ele não imaginava que, um dia, viraria uma coleção útil a ponto de colaborar com um museu, tampouco que o filho, à época com três anos, Nando, o Reis, se tornaria um Titã. O que começou como um hobby, no Litoral Norte de São Paulo, com o tempo, ganhou uma base sistemática, e agora o Setor de Malacologia do Museu Nacional irá usufruir do acervo como um meio de auxílio na reconstituição do material perdido no incêndio de 2018, como adiantou a coluna do jornalista Ancelmo Gois.
— Quando comecei nos Titãs, viajava e comprava conchas com mergulhadores e outros colecionadores. Meu pai, hoje com quase 90 anos, era responsável por catalogar. A gente tinha uma bibliografia respeitável. Ela virou uma coleção muito bonita — conta ele.
Foi o próprio músico que teve o intuito de realizar a doação; por muito tempo, dividiu com o pai o prazer de adquirir e catalogar para o acervo pessoal deles. A Coleção Mollusca do Museu Nacional, administrado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi gravemente atingida pelo trágico incêndio do dia 2 de setembro de 2018. Apesar de 95% dos lotes terem sido salvos, boa parte do material, composto por mais de 40 mil lotes, foi perdido.
“Vendo a tragédia do Museu Nacional, juntei as pontas. Soube da coleção que eles tinham perdido, e achei que tinha todo o sentido doar para pessoas que vão fazer um uso muito melhor do que manter em casa”
NANDO REIS
Músico
Nando, que, inclusive, já foi parte da Sociedade Brasileira de Malacologia, mantinha todo o acervo coletado na casa da família no interior de São Paulo, e, quando ocorreu o incêndio, rapidamente cogitou o destino dos caramujos. Ele entrou em contato com amigos biólogos da Universidade Federal do Ceará, que conheceu por causa da atividade, para tomar as providências.
— Vendo a tragédia do Museu Nacional, juntei as pontas. Soube da coleção que eles tinham perdido, e achei que tinha todo o sentido doar para pessoas que vão fazer um uso muito melhor do que manter em casa. Dessa forma, a coleção ganha outro tipo de relevância. Eles vão saber separar o que vai para estudo, acervo, o que vira material didático. Ela é muito bem organizada. Meu pai é um homem muito meticuloso e metódico, então tem registros em cada concha. Remexer nisso foi muito emocionante, de fato, ela tem um valor bastante afetivo. Mas isso não diminui a minha certeza de encaminhá-la a esse destino — explica o músico.
Curador da Mollusca, o professor e pesquisador da UFRJ Alexandre Dias foi pessoalmente até São Paulo receber a doação das mãos de Nando Reis. A partir de agora, todo esse material será catalogado para, depois, ser incorporado ao acervo do Museu. Ainda é cedo para quantificar a extensão, mas Dias classificou como “boa em relação à quantidade de material” e disse que são, com certeza, algumas centenas de conchas.
— Esse material todo vai ser catalogado para ser incorporado no acervo do Museu, vamos começar o levantamento. Quando recebemos uma doação já montada, ela ajuda a recuperar o que perdemos, principalmente como essas, que tem material de outros países. Ela terá a função de coleção científica, atividades de exposições, didáticas — conta o curador.
Parte do acervo das conchas do Museu foi destruída
Um balanço sobre o tamanho do prejuízo gerado pelo incêndio à Mollusca ainda está sendo feito, mas poucas conchas serão resgatadas.
— A gente recuperou uma parte do material incendiado, e estamos fazendo um levantamento do que pode ser recuperado mesmo, porque o material está muito heterogêneo e destruído. Até o meio do ano, devemos ter um número exato. Mas muito pouco será salvo em relação ao que existia. A destruição não foi total, porém, foi muito grande. Era um acervo muito bom e antigo, com representatividade do mundo inteiro. Mas o Museu tem o propósito de continuar sendo um local de coleções importantes. Então, vamos reconstituí-las, seja por coletas no Brasil ou doações — diz o professor.
Alguns itens perdidos eram datados do século XIX, outros integravam momentos importantes da história do País, como a Expedição Científica Rondon e as primeiras incursões à Ilha da Trindade, no Espírito Santo. A par da atual situação política e dos problemas que instituições ligadas às universidades públicas têm enfrentado, Nando parabenizou a postura dos profissionais do Museu.
— As coisas ali se dão assim: na raça. E vamos combinar que não é um privilégio desse governo atual. A dedicação desses profissionais é tocante. Eles foram lá, com o carro deles, pegaram as conchas e levaram. É uma coisa admirável. Não existe balbúrdia, existe muita seriedade.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior