Crise da água: moradores de 32 bairros ainda reclamam de água com gosto e cheiro alterados

Setenta e dois dias após o surgimento de relatos sobre gosto e cheiro de terra na água distribuída pela Cedae, moradores do município do Rio e da Baixada Fluminense continuam reclamando da qualidade do sistema de tratamento da companhia. Somente nesta quarta-feira, O GLOBO registrou queixas em 32 bairros. A empresa informa que mantém a aplicação de carvão ativado e argila na lagoa de captação da estação do Rio Guandu e garante que a situação está normalizada. No entanto, especialistas levantam a hipótese de a água contaminada por geosmina, substância produzida por algas que se proliferam no esgoto, permanece nas tubulações, já que o consumo foi reduzido nos últimos dois meses.

Em seu site, a Cedae vem publicando análises independentes, feitas pelo Laboratório Oceanus Hidroquímica, que apontam resultados dentro dos padrões estabelecidos pelo Ministério da Saúde. Nos primeiros testes, que tiveram início no fim de janeiro, era possível encontrar até o nível 67 no quesito sabor, quando o máximo permitido é 6. Os índices permaneceram altos até o começo de fevereiro, e, atualmente, oscilam entre 2 e 3 nos boletins diários.

De 1º de janeiro — quando a Cedae admitiu haver a contaminação por geosmina— a 3 de fevereiro (34 dias no total), os 9 milhões de habitantes da Região Metropolitana atendidos pelo sistema Guandu receberam 132 bilhões de litros de água, considerando a vazão de 45 metros cúbicos por segundo da estação de tratamento. Segundo o Diagnóstico dos Serviços de Água e Esgoto 2018 (o mais recente disponível) do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, o consumo médio per capita de água no estado é de 254 litros por dia. Assim, a população atendida levaria 57 dias para utilizar o volume produzido. Considerando que muitas pessoas passaram a comprar água mineral, existe a possibilidade, segundo especialistas, de a gesomina continuar presente em canos e cisternas.

‘Volume gigantesco’
Funcionário da Cedae e presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Saneamento de Niterói, Ary Girota acredita que a água não está mais saindo com gosto e odor da estação de tratamento do Guandu. Mas, segundo ele, as reclamações de consumidores fazem sentido porque ainda não foi possível escoar todo o volume contaminado:

— O problema no Guandu foi resolvido, a água voltou a ter qualidade, mas, se as cisternas não forem esvaziadas, continuará havendo a presença de geosmina. É natural que, em determinadas localidades, a água continue com cheiro e gosto de terra. O volume jogado no sistema foi gigantesco.

Para a gestora ambiental Cynthia Souza, a hipótese levantada por Girota é possível:

— Acredito que a geosmina ainda possa estar entrando em alguns troncos de distribuição, até porque existem muitos “gatos” e fissuras na rede. Não há como afirmar sem uma inspeção, e é complicado monitorar uma malha tão grande.

Na casa de Edmea Albuquerque, em Realengo, a água continua com cheiro e sabor de terra. Até Jack, seu poodle, só consome água mineral.

— A água melhorou de umas semanas para cá, mas continua forte o gosto de barro. Dá vontade de cuspir se a gente tentar beber — reclama Edmea.

Edmea também considera que o desconto na conta de água de 25% — na terça-feira, o Ministério Público e a Defensoria Pública conseguiram uma liminar judicial que estabelece uma redução no valor cobrado dos consumidores — não é suficiente. O estado recorreu da decisão.

— Não adianta ter desconto, e a água continuar ruim — afirmou.

Moradores de Santa Teresa também vêm reclamando. O universitário Leonardo Martins diz que a água melhorou, mas não o suficiente:

— O gosto de terra diminuiu, mas ainda está lá. E onde estudo, no campus da UFRJ na Praia Vermelha (Urca), a qualidade continua péssima.

‘Paranoia generalizada’
O engenheiro sanitarista da Uerj Adacto Ottoni acha improvável que a geosmina continue nos troncos de distribuição da Cedae. Para ele, o problema pode estar em cisternas que não foram lavadas depois da contaminação:

— A água não fica parada na rede e a produção diária é muito grande. É mais provável que esse problema esteja na água antiga dos reservatórios das casas.

O professor de recursos hídricos da Coppe/UFRJ Paulo Canedo considera que “até faz sentido” a hipótese de haver geosmina nas tubulações da Cedae, mas ele acredita que muitos consumidores foram tomados por uma “paranoia generalizada”:

— Os laudos mostram que não há mais geosmina na água. Não acho que as pessoas estejam mentindo, é um efeito psicológico — afirma o professor, que, apesar disso, destaca a necessidade de investimentos em saneamento para a solução definitiva do problema.

Em nota, a Cedae informa que sua água está “própria para consumo e atende aos padrões de potabilidade estabelecidos pelo Ministério da Saúde”. Além disso, frisou que análises não mostram mais problemas referentes a gosto e odor. A empresa lembra que consumidores podem fazer reclamações e pedir coleta para análise pelo telefone 0800-282-1195.

Liminar garante desconto na conta da Cedae
A briga pelo ressarcimento dos consumidores que se sentiram prejudicados pela crise da água continua. Na terça-feira, uma liminar judicial determinou que a Cedae reduza em 25% o valor das próximas contas. O governador Wilson Witzel já disse que vai recorrer. A medida foi celebrada pela defensora Patrícia Cardoso, do Núcleo de Defesa do Consumidor da Defensoria Pública, que, ao lado do Ministério Público, moveu a ação.

— Havíamos pedido um desconto de 70%, mas a juíza deu 50%. Como o abastecimento de água é referente à metade da conta (a outra corresponde à coleta de esgoto), a redução, no final, fica em 25% —, explicou.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior