Pedro Leôncio, avô paterno de Robson de Melo, tem uma casa cheia de livros , mesmo sendo analfabeto . Marceneiro, um dia foi ajudar a colocar uma estante para uma cliente e amiga antiga, “dona Raquel”, e descobriu que ela havia falecido naquele dia. Era 4 de novembro de 2003. Sem saber, o avô de Melo era muito querido pela escritora Rachel de Queiroz , a primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras .
— Tempos depois meu avô me deu um livro que tinha recebido dela, e havia uma dedicatória para ele, da quel ele não fazia ideia. Foi a primeira vez que vi meu avô chorar. Desde então, decidi que iria me dedicar a evitar que uma pessoa não possa ler algo escrito para ela. Por isso me emociono tanto em ver as crianças assinando seus livros — conta Melo, um dos idealizadores do projeto Estante Mágica, citando as noites de autógrafos dos autores mirins.
Criado em 2009, o projeto permite que crianças entre 6 e 7 anos, ainda em processo de alfabetização, tenham a chance de escrever suas próprias histórias.
Os colégios associados recebem páginas com as indicações para as crianças desenharem e escreverem uma história autoral, que é feita em sala de aula, sob orientação do professor. A narrativa é escaneada e transformada gratuitamente em um e-book pelo projeto.
Os pais interessados podem encomendar versões físicas do livro. Após a impressão, a escola organiza as tais noites de autógrafos, nas quais os pequenos podem dedicar suas histórias para seus familiares.
O Centro Educacional da Lagoa é adepto do projeto desde 2011. A professora Carla Gonçalves, mãe do aluno Erick, conheceu o projeto este ano e se apaixonou pela proposta.
— Eles conseguem organizar melhor a noção temporal a partir da construção de uma história própria. É um estímulo para a criatividade e a autonomia das crianças — opina Carla.
Em seu livro, Erick narra a vida de Jesus, do nascimento à crucifixação. A avó de Erick costuma ler a Bíblia para ele, o que o motivou a escolher o tema.
— Minha mãe lê uma historinha todo dia para mim. Fiquei nervoso quando comecei, não queria errar nenhum desenho. Mas depois vi que minha família gostou muito e fiquei emocionado — revela Erick, de 7 anos.
A coordenadora pedagógica Vitoria Padilla considera que o projeto é importante para a autoestima dos alunos , que se se sentem capazes ao construir suas próprias histórias.
Lúdico para promover a leitura
As escolas têm investido em atividades fora da sala de aula para engajar seus alunos no universo das letras. No Centro Educacional da Lagoa, os alunos da educação infantil escolhem livros para seus pais lerem em casa e desenham o que mais gostaram da historinha para mostrar em sala de aula. O interesse pela leitura já é despertado antes do processo de alfabetização. Para os mais velhos, há premiações para os que alugam mais livros.
Já na unidade Botafogo do Colégio pH, as professoras do 1º ano do ensino fundamental contam histórias no parquinho, em roda. Os alunos apreciam a saída da sala de aula e acabam prestando mais atenção na narrativa.
No 2º ano, a professora Rafaella Elias busca estimular a leitura de forma lúdiga. Os estudantes receberam um baú dourado cheio de livros, enviado supostamente por uma fada. Cada livro faz parte da pista de um grande tesouro que receberão no fim do ano: o universo se abrindo para eles através da leitura.
Depois de cada livro lido do “baú mágico”, diferentes atividades são propostas, como confecção de fantoches com materiais recicláveis ou sacolinhas com desenhos personalizados dos principais personagens.
Para consolidar o processo de escrita, os estudantes do mesmo ano escreveram uma versão moderna de Chapeuzinho Vermelha, baseada nos “Sete hábitos das pessoas altamente eficazes”, que fazem parte da pedagogia do pH. Entre eles estão foco, proatividade e ter objetivos claros. O conto foi então encenado pelos alunos para os pais, e cada um ganhou um boneco de biscuit do seu próprio personagem.
As crianças do 4º ano participam de ciclos de leitura, nos quais são estudados os diversos gêneros literários. São propostas atividades que fazem parte da metodologia de avaliação diversificado do colégio. Ao trabalharem com gibis e HQs, por exemplo, os alunos se dirigem à biblioteca e escolhem gibis para trabalhar conceitos aprendidos em sala, como tipos de balão e expressão de emoções.
Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Divulgação Centro Educacional Lagoa