Pescador vive há mais de 15 anos isolado na Ilha Mãe, em Itaipu

Visualizada de toda a orla da Região Oceânica, a Ilha Mãe conserva uma natureza selvagem, pouco conhecida pela maioria dos moradores da cidade. É neste paraíso intocado, a pouco mais de dois quilômetros da Praia de Itaipu, entre as ilhas Menina — a menor e mais próxima do continente — e Pai, que vive há mais de 15 anos o pescador Jonas Soares, o Seu Jonas, de 69 anos. Não fosse por alguns apetrechos, como seu barco a remo e o telefone celular — carregado quando vai à praia vender o que pesca para sobreviver —, poderia-se dizer que ele vive quase como um náufrago.

No acampamento improvisado, sem conforto, o pescador encontrou a tranquilidade que sempre buscou ao longo da vida. A Ilha Mãe não é sua primeira “casa” cercada de água por todos os lados. Ele viveu por cinco anos na Ilha Pai, mas o acesso difícil e uma forte tempestade que destruiu sua embarcação quase interromperam seus sonho de viver no mar. Por pouco tempo.

— Pesco nessa área de Itaipu e Itacoatiara há mais de 50 anos. Sempre gostei de pescar perto das pedras e isolado. Eu me casei e tive dois filhos. Aí, quando me separei, há uns 20 anos, resolvi seguir essa vontade que sempre tive de viver no mar, em paz. A família já estava bem, filhos crescidos, tinha feito a minha parte. Primeiro fui para a Ilha Pai porque achei que lá tinha mais peixes, eram muitas garoupas. Mas veio uma tempestade muito forte e destruiu meu barco. Voltei para a casa da minha família, em São Gonçalo, arrumei um trabalho por quatro meses, tempo suficiente para juntar dinheiro e comprar outro barquinho. Só que dessa vez preferi vir para a Ilha Mãe, pois aqui o mar é mais tranquilo — conta Seu Jonas, que visita a família umas cinco vezes por ano.

Conhecido por pescadores e moradores de Itaipu, ele tem uma paixão pelo mar e pela natureza:

— Minha febre sempre foi o mar. Tive uma infância muito difícil, e meu pai me batia quando eu saía para pescar. Ele só passou a me respeitar no dia em que voltei com uma anchova grande. Antes de eu vir para as ilhas, minha mãe pediu para eu largar a vida de mar, mas disse a ela que só o Pai lá de cima vai me tirar daqui. Quanto mais eu entro, mas tenho vontade de ficar.

Sobre a solidão, Seu Jonas dá aula:

— Não me sinto sozinho. A pessoa tem que se adaptar, sozinha ou não, àquilo de que gosta.

Integrante do Parque Estadual da Serra da Tiririca, a Ilha Mãe está aberta à visitação, mas há um grau de dificuldade, tanto no acesso, que só é possível em dia de mar calmo, quanto na trilha, que oferece um visual deslumbrante da costa e do oceano, mas não é bem demarcada. O ideal é ir com condutores e em barcos autorizados para a prática de turismo.

— Dentro do Arquipélago da Família, a ilha mais propícia à visitação é a Mãe, que tem uma trilha aberta, mas precisa de manejo, que estamos tentando providenciar junto ao parque para programar visitações. É um turismo contemplativo, de trilha. É o reconhecimento do ambiente e do mergulho — afirma Lívia Fernandes, condutora ambiental do Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e sócia da Sahaja Terapias, empresa que promove passeios ecológicos e turismo terapêutico, unindo sensibilização ambiental e terapias integradas.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior