Maitê Proença não tem mais tempo a perder com aquilo que não lhe cala fundo. Ao se deparar com a franqueza de Alice, a protagonista do conto “A mulher de Bath”, do britânico Geoffrey Chaucer, traduzido para o português por José Francisco Botelho, viu no texto de mais de 630 anos (ele data de 1380) a chance de dialogar consigo e com o público sobre questões pertinentes até hoje ao universo feminino através do humor.
A releitura da peça medieval sobre uma “viúva em série” — já enterrou cinco maridos —, em peregrinação no meio de homens, conta com a direção de Amir Haddad e estreia em terras cariocas amanhã (no Teatro XP Investimentos, no Jockey Club, no Leblon). Traz uma Maitê que propõe diálogo aberto com o espectador, numa dinâmica horizontal entre o palco e a plateia, tal qual Alice, adepta do “sincerídio”, como ela própria.
— Nós duas somos meio kamikazes por falarmos coisas que deveriam ser caladas. Ainda mais nos tempos em que vivemos, onde tudo vira uma frase solta, descontextualizada e com manchete em cima. Ela também está numa situação muito temerária, de falar com homens, que não são a ala dela, coisas que os surpreendem e os assustam. Ela está numa peregrinação, numa jornada de dias com eles. e podia ser expelida. Mas ela se expõe e pela verdade os conquista — diz.
A interpretação de que a verdade tem o poder de unir pessoas também serve para os aplausos que a atriz recebeu nas apresentações em São Paulo, Goiânia, Brasília, Belém e Belo Horizonte, por onde a peça, um “quase monólogo”, já passou.
Por escolha de Haddad, Maitê está sozinha no palco, interagindo somente com o público e com o ator e músico Alessandro Persan, com quem ela interage em diversas passagens. Antes de dar início à história, conversa com a plateia e contextualiza o conto, que é iniciado na sequência, sem necessidade de cortinas ou recursos cênicos. Assim, estabelece uma relação de confiança que conquista quem vai ao teatro.
— É muito texto e é muito solitário. Ainda bem que tenho o Alessandro, que faz a contrarregragem, põe música… tem muitas funções. Eu já falei: “Alessandro, eu não sei o que eu tenho para dizer agora”. E as pessoas não sabiam se aquilo fazia parte da peça ou não. Então ele me deu as falas. Quando a plateia entendeu o que estava acontecendo, aplaudiu, porque eu me saí pela verdade. Já aconteceu de pedir o texto para ele, e ele não ter. Esse foi um dos aplausos em cena aberta — lembra a atriz.
Católica, a “velha” Alice afirma ainda ter seus truques para conseguir um novo marido e se utiliza de argumentos bíblicos no pleito por não ter apenas um homem em vida.
— Ela é muito oportuna. Nada como um argumento bíblico para fazer a defesa da liberdade sexual. Alice questiona: “Por que Abrãao, uma figura exponencial no islã, no judaísmo e no cristianismo, assim como Jacó, teve muitas esposas e eu não posso ter muitos homens?”. “E o que dizer do Rei Salomão, que tinha milhares de mulheres, dezenas por dia? Por que eu não posso?”, ela fala — conta Maitê, que acredita, no entanto, que a viúva não traía os cônjugues. — Parece que ela é fiel aos maridos, é muito católica. Ela teve cinco e está em busca de um sexto. Mas reza fervorosamente para que eles morram e ela possa diversificar o plantel. Alice tem força, eles morrem.
SEM LAMENTO
Conhecida pelas opiniões contundentes, Maitê Proença entende que não deve haver espaço para o lamento mesmo diante das críticas. Por isso, busca fazer as novas escolhas amparada no que acredita.
— Compreender as críticas não ajuda porque dói do mesmo jeito. Mas se você tem uma compreensão dói por muito menos tempo. Quando somos muito mais jovens fazemos uma série de sanções com maior facilidade. Agora, tudo vai se filtrando. O mundo está muito confuso e eu acho que tenho instrumentos hoje para fazer boas escolhas. Não dá para fazer de outro modo que não seja deste — argumenta.
O potencial impacto do espetáculo junto ao público também foi de fundamental importância na decisão de dar vida ao texto de Geoffrey Chaucer.
— Não tenho autoestima suficiente para fazer algo só para três pessoas na plateia. Preciso escolher textos e trabalhos para que eu possa falar com muitos, pois acredito verdadeiramente que é possível fazer textos de qualidade, oferecer algo que seja de alto entretenimento e fazendo todos compreenderem — diz a atriz.
Nesta missão, ela se vale da experiência dos seus 60 anos de vida e 40 de carreira para eleger as causas para as quais se entregar, entre elas o feminismo. Entender que o cenário atual era propício para a discussão sobre o papel feminino nos relacionamentos fez com que o fascínio com as tiradas de Chaucer fosse imediato.
— Quando eu encontrei esse texto, falei: “Meu Deus do céu, isso aqui está pronto para ser dito. Mas como?”. Eu mandei para o Amir, ele ficou encantado, e nós começamos a estudar. É um clássico, tem 600 anos e não é à toa que faz sucesso há tanto tempo. Não é à toa que isso é oportuno agora, num momento de ressurgimento do movimento feminista. A Alice está falando o que nós estamos falando agora, só que há 600 anos. As circunstâncias mudaram, mas o conteúdo do que ela diz, o pleito dela, é igual ao de agora — conta.
Maitê confessa ter sido surpreendida pelo humor com que o tema é tratado e avalia que a mesma leveza por vezes falta ao movimento feminista.
— Todo movimento tem seus críticos e seus excessos. No caso do discurso feminista, qualquer exagero se justifica pela longevidade do problema, desde que determinaram que Eva é a maldição da humanidade. Se você tenta dissuadir as pessoas da opinião delas à força, dificilmente elas mudam. Então, você continua falando com as que já concordam consigo. Pode parecer muito agradável, mas não tem utilidade alguma. É uma coisa meio infantil até. Mas se você realmente quer mudar as coisas, o humor corta, atravessa, ele tem esse poder de fazer despencar as paredes — avalia Maitê.
Com a força que o humor lhe concede, Maitê avalia que o texto permite que as mulheres se sintam representadas, enquanto que os homens são apresentados a uma realidade para a qual não são costumeiramente transportados.
— Uma mulher tem uma pluralidade de formas e aspectos interessantes. E, às vezes, a falta de conhecimento do que é ser mulher faz com que eles só se relacionem com o corpo físico dela — analisa.
Mas engana-se quem considera que Alice, a viúva fogosa, gasta suas horas a contar apenas suas vitórias.
— O mais legal dela é a verdade, o fato de ela não estar só se enaltecendo. Alice apresenta todos os lados da história e, ao contrário do que se pensa hoje, os lados não são apenas dois.
E arrebata sobre a boa resposta do público.
— O tempo mostra que nós nada entendemos do outro. Quando queremos seduzir alguém, no sentido de trazer para perto, fazemos uma série de contorcionismos psíquicos. Provavelmente estamos só afastando porque estamos colocando uma barreira. Eu entendi que o público gosta de nós do jeito que somos. Quando erramos, eles gostam de ver nossa vulnerabilidade, algo típico do teatro do Amir — acredita Maitê Proença.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior