Moradores de favelas e do subúrbio vencem dificuldades com talento e viram personagens em clipe do Emicida

Gravado no Complexo do Alemão e lançado na semana retrasada, com mais de dois milhões de visualizações no YouTube até a última sexta-feira, o clipe de “AmarElo”, sucesso de Emicida com participação de Pabllo Vittar e Majur, amplificou as vozes de artistas e atletas de favelas e subúrbios do Rio. O GLOBO foi atrás de sete personagens que participaram da filmagem e que, em sintonia com a letra, sonham alto e carregam o lema de que “perder não é opção”. Em suas histórias, contadas a seguir, eles revelam como deixaram para trás algozes como a depressão, o racismo e uma coleção de outros preconceitos.

Aos “nãos” que podiam paralisá-los, alguns respondem com dança, como fazem Tuany Nascimento, Ronald Sheick e os irmãos gêmeos Jeferson e Wellington Alves, os quatro oriundos de comunidades em que a violência dá pouca trégua. Já a estilista e costureira Lu Costa revida com cores para traçar suas próprias vitórias e dar asas a jovens do curso de figurino da Central Única das Favelas (CUFA), em Madureira.

VEJA O CLIPE

Também na Zona Norte, Jalmyr Vieira, de Ricardo de Albuquerque, enfrenta os obstáculos que costumam atravessar a trajetória de jovens pobres, negros e da periferia. Mas, ao ser formar em Direito, alimenta o sonho de ser Defensor Público. Rap e esporte guiam hoje Luiz Cláudio Ribeiro da Silva, o Sativa’Mente, paraplégico desde os 15 anos, após se envolver com o tráfico e ser atingido por um tiro. O objetivo dele é chegar a uma Paralimpíada, feito alcançado por Vanderson Alves da Silva, atleta do arremesso de peso, nascido em Barra Mansa, no interior do estado .

Além da letra de Emicida, “AmarElo” traz um sample de “Sujeito de Sorte”, de Belchior, que também diz muito sobre a vida de cada um deles: “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, afirma a canção.

PUBLICIDADE

Costurando um roteiro com muitas reviravoltas
Lu Costa: oito meses sem luz para pagar faculdade e virar estilista e professora Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Lu Costa: oito meses sem luz para pagar faculdade e virar estilista e professora Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Parece história de cinema, com drama, tensão e prenúncio de final feliz. Mas apenas a estilista e costureira Lu Costa, de 51 anos, sabe as dores e as delícias de viver esse roteiro de tantas reviravoltas. Sua faculdade de moda, por exemplo, foi cursada às custas de oito meses sem energia elétrica em casa, porque ela tinha que escolher entre comer e pagar a luz. A recompensa foi ter seu trabalho reconhecido. Montou seu próprio ateliê, em São Gonçalo, e conquistou muitos clientes. Mas, em 20 minutos, um incêndio quase pôs tudo a perder . Junto com as chamas, veio a depressão:

— Foi há três anos, e eu já dava aulas na Central Única de Favelas. A cada dia aparecia com um cabelo novo. Mas estava morrendo por dentro.

Nas noites que passou acordada, os rumos mudaram. Pela internet, conheceu o angolano Policarpo Nkenge. Virou admiração mútua, e ele apostou no talento de Lu, investindo na marca da estilista, a Nkenge. Com um detalhe:

— Nunca nos vimos pessoalmente. Nem sei quando esse encontro vai acontecer.

Mente ativa de um atleta sobre rodas
Luiz Cláudio Silva: depois de tiro no tórax, reinvenção através do esporte Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
Luiz Cláudio Silva: depois de tiro no tórax, reinvenção através do esporte Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo
A cadeira de rodas não desmotivou Luiz Cláudio Ribeiro Silva, o Sativa’Mente, de 25 anos. Pelo contrário. Ele acabou paraplégico aos 15 anos, em Campos dos Goytacazes, onde morava, ao se envolver com o tráfico e ser atingido por um tiro que atravessou seu tórax e deixou cicatrizes. A partir dali, encontrou no rap e na poesia novos sentidos. E, decidido a cuidar da saúde, acabou no esporte paralímpico, mais precisamente no ciclismo de velocidade.

PUBLICIDADE

Foi o que o trouxe para o Rio, para treinar, há seis meses, num centro de educação física da Marinha, com planos de chegar ao pódio.

— Quero me dedicar totalmente ao esporte e, no futuro, conquistar as medalhas paralímpicas — afirma ele.

Mas a carreira de atleta não significa que ele abandonará o caderno e a caneta, inseparáveis, para escrever suas rimas.

— Escrevo do buraco que me atrapalha na rua à dor do coração. Sou meio apaixonadinho — diz ele, que tatuou num dos braços um anjo armado, atirando uma flor de baobá.

Sorrisos que dão um baile no racismo
83525460_RI EXCLUSIVO Rio de Janeiro RJ 04-07-2019 Historias reais de superacao do clipe do Emicida.jpg
Fossem outros, os gêmeos Jeferson e Wellington Alves, o Faiska e o Fumaça, de 18 anos, teriam saído do ritmo. Moradores do Complexo da Alma — lugar de nome bonito, mas com cotidiano de violência em São Gonçalo —, os garotos descobriram o talento para a dança em batalhas de passinho para crianças. O primeiro vídeo deles nas redes, no entanto, viralizou com uma enxurrada de reprovações. Diziam que os irmãos se moviam feito “loucos”. Eles devolveram as críticas com a criação do grupo “Os 22 do Passinho”, junto com um irmão mais velho.

Antes de “AmarElo”, participaram de um clipe de Nego do Borel. Trabalham também como modelos. Apesar do sorriso fácil e de conquistas diárias, enfrentam agruras, como ataques racistas em outro de seus vídeos. O que, contudo, não os faz recuar.

PUBLICIDADE

— São muitos meninos com sonhos frustrados dentro de casa, que às vezes o crime adota, e lá se vai mais uma vida. Dançar, para mim, é poder virar inspiração de outros caminhos possíveis — diz Jeferson.

‘Aprendi a ser homem com uma mulher’
38756268_06082004 – Maria Elisa Franco – JB – ZN – Flaviano Soares e Ronald Yuri alunos da ofici.jpg
Faz seis meses que Ronald Yuri, conhecido como Sheick, não fica uma semana inteira no Rio. Com o talento do passinho, ele viaja o Brasil e o mundo conciliando a agenda de seu grupo, o Heavy Baile, com a da companhia de dança Cia. Suave, que este fim de semana se apresenta em Manaus. Em sua bagagem, ele leva lembranças de nove países. E embora tenha descoberto novos horizontes, orgulha-se em dizer que é “cria” do Complexo da Maré e, atualmente, morador de Campo Grande.

Só que ele destaca um significado mais amplo para a palavra, usada para designar quem é oriundo de uma determinada comunidade:

— Ser “cria” é mais que isso. É ter também criatividade, porque nas favelas precisamos dela desde cedo para sobreviver. Muitos de nós, inclusive, crescemos sem ter a figura paterna, criados pelas mães.

É o caso dele próprio.

— Costumo dizer que agradeço. Se não fosse assim, talvez eu não tivesse a personalidade que tenho hoje. Aprendi a ser homem com uma mulher — diz o dançarino.

PUBLICIDADE

Educação rumo à transformação
Jalmyr Vieira: recém-formado em Direito, ele sonha em ser defensor público Foto: Ana Branco / Agência O Globo
Jalmyr Vieira: recém-formado em Direito, ele sonha em ser defensor público Foto: Ana Branco / Agência O Globo

Na adolescência, Jalmyr Vieira, hoje com 26 anos, era chamado de playboy em Ricardo de Albuquerque porque os pais pagavam escola particular para ele. Era uma escolha pela educação, que privava a família de outros gastos. E que não o livrava das mesmas dificuldades de sua vizinhança.

— Tive um privilégio, entre aspas, que todos deveriam ter, que é uma educação de qualidade. Mas, além de ser pobre, enfrentei a questão racial. Eram poucos os negros na escola. Na faculdade, optei pelo Direito, um curso elitista. E esse quadro se repetiu — diz ele. Hoje, recém-formado e se preparando para a prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), participa de um coletivo de juristas negros e um de seus objetivos é se tornar defensor público. Mas, pela história que vive, diz não acreditar em meritocracia:

— No mundo que temos hoje, é uma falácia. Para ter meritocracia, todos deviam partir de um mesmo ponto, como num jogo de futebol, que começa zero a zero. Mas, no jogo da vida, não é assim. As desigualdades são muito grandes.

Sonhos construídos nas pontas dos pés
14307474_CI Rio de Janeiro RJ – Concurso produzido pelo programa de TV Fantástico da Globeleza 2.jpg
A bailarina é conhecida pelos movimentos leves. Mas, nos plié e rond de jambe de Tuany Nascimento, além de talento, existe muita perseverança. Moradora do Morro do Adeus, no Complexo do Alemão, ela chegou a ter que interromper a paixão pela dança para ajudar a pagar as contas em casa. Foi breve. Porque, aos 19 anos, criou o projeto “Na ponta dos pés”, para dar aulas de balé a outras meninas da comunidade.

PUBLICIDADE

Durante anos, as classes aconteceram numa quadra de esporte, e constantemente tiveram que ser canceladas devido aos tiroteios entre policiais e traficantes. Nos próximos meses, finalmente, o projeto deve ganhar uma sede, depois de uma campanha de financiamento coletivo para as obras.

“A gente existe e resiste”, diz Tuany num minidocumentário para a internet com os personagens de “AmarElo”. Hoje, aos 25 anos e formada em Educação Física, ela viaja no fim do ano para uma temporada no exterior, com a Cia. de Dança Nikos. Mas não deixará de formar, além de bailarinas, meninas da favela para a vida.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior