Que tal uma salada caprese como entrada? No lugar de búfala, pode-se usar muçarela comum, para baratear, e vinagrete, para deixar o queijo mais saboroso. O prato principal poderia ser um polpetone com espaguete ao sugo. E, para a sobremesa, uma pavlova de frutas, em que se utiliza merengue e creme pâtisserie. Um cardápio requintado que poderia ser precedido por um coquetel, onde coxinhas e risoles cederiam lugar a mini batatas recheadas, biju com parmesão e outras iguarias. O almoço, que faria bonito numa recepção, poderá estar na mesa de famílias da Muzema, comunidade carente do Itanhangá, localizada entre Rio das Pedras e Tijuquinha. E feito por elas.
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No mês que vem, o Instituto Amigos da Saúde (Iadas), uma ONG na Muzema, reabre as portas, tendo como um dos principais projetos o MaisQChef. À frente da oficina de comidas finas, para moradores do lugar, estará o sous-chef de cozinha do Palácio Guanabara, Vinicio Cruz, de 29 anos. Baiano de São Sebastião do Passé, aos 2 anos foi morar com os pais na Muzema, de onde só se mudou quando casou. Mesmo assim para a vizinha Tijuquinha e sem se desfazer da antiga casa, que alugou.
— Nem sempre uma comida fina precisa ser feita com ingredientes caros. É preciso trabalhar conforme a realidade — ensina Vinicio, que está há quatro anos no Guanabara, onde cuida da alimentação do governador Luiz Fernando Pezão, de seus convidados e do pessoal lotado lá.
Em tempos de crise financeira, Pezão diz que tem oferecido poucos almoços e coquetéis. Ele também revela hábitos simples:
‘Nem sempre uma comida fina precisa ser feita com ingredientes caros. É preciso trabalhar conforme a realidade’
– VINICIO CRUZ
Subchefe de cozinha do Palácio Guanabara à frente da oficina de comidas finas
— Gosto de comer picadinho, arroz, feijão e bife com ovo da roça que eu trago de Piraí. No Laranjeiras, às vezes é a Maria Lucia (Horta Jardim, mulher do governador) que faz a comida.
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Vizinho da Capela Nossa Senhora das Graças, o Iadas foi instalado num terreno cedido pela igreja em 1992. Num imóvel de 12 metros quadrados, ali funcionou um consultório médico para atendimento comunitário até 2016. Foi quando o presidente da ONG, o auxiliar de enfermagem e comerciante da Muzema Sandro de Moura, decidiu demolir o imóvel para reconstruir outro. O terreno acabou invadido e, após ação judicial, foi retomado no ano passado. Com a ajuda de comerciantes locais, foi erguido o novo prédio, que tem 400 metros quadrados, três andares e terraço. Para as aulas de gastronomia foram destinadas três salas e um espaço para armazenar alimentos.
— Vamos colocar os projetos para funcionar com doações e voluntários. Além do MaisQChef, entre os projetos teremos o de aulas de informática (Projeto Nerd’s) e o de vídeos (TV M). Teremos ainda um centro para orientação e encaminhamento de dependentes químicos para casas de tratamento. No terraço, haverá um espaço de cultura e arte (Cine Laje), onde instalaremos um telão — explica Sandro.
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AULA DE CORTE DE ALIMENTOS
Como a mãe teve uma pensão, ajudar na preparação dos alimentos fez parte da vida de Vinicio desde a infância. Quando cresceu, optou inicialmente pelo futebol profissional, mas não deu certo. Decidiu, então, fazer um curso de gastronomia no Senac. Concluiu e embalou, especializando-se em comida francesa, italiana, brasileira e mediterrânea. Ele passou pelas cozinhas de hotéis como Intercontinental e GrandHyatt. Na Olimpíada, aproveitou os dias de recesso do Executivo e trabalhou em Ipanema, na casa da New Balance, que calçou os atletas da Irlanda. Dois anos antes, na Copa do Mundo, cozinhou para a seleção da Inglaterra, que se hospedou no Royal Tulip.
Gratuito e com inscrições abertas, a oficina de comidas finas acontecerá uma vez por semana e terá duração de um mês. Deverá ter quatro módulos — cada um deles de até cinco horas —, para que os alunos aprendam a fazer coquetel, entrada, prato principal e sobremesa. A primeira turma terá entre 16 e 20 alunos.
— Durante o curso estou pretendendo levar um técnico em pâtisserie para dar palestra e, ainda, dar aula de corte de alimentos para que fiquem visualmente bonitos — conta Vinicio, enquanto corta frutas e monta uma salada.
Mas as aulas de gastronomia para moradores da Muzema vão além. Outra oficina está sendo montada por Robson Cirilo dos Santos, que morou 12 anos na comunidade e atualmente vive em Curicica, e o chef Andre Leite, que é professor na Faetec. Neste caso será um curso de refeições à la carte — caso, por exemplo, de um espaguete à carbonara —, voltado para quem quer se tornar ou se consolidar como empreendedor no ramo de comidas.
Vinicio Cruz é cozinheiro do Palácio Guanabara e vai dar um curso de pratos finos – Roberto Moreyra / Agência O Globo
Robson tem estrada na cozinha. Trabalhou em redes de restaurante como Capricciosa e Sapore. Sem falar que coordenou a gastronomia muçulmana (halal) da Vila dos Atletas durante a Olimpíada. Ele não conhecia a comida muçulmana e teve que aprender na marra: pegou as fichas técnicas e foi para o fogão. De quebra pegou ainda a coordenação da gastronomia israelense (kosher), neste caso era só para montar os pratos, porque a comida chegava pronta. Mas tudo deu certo.
— Ninguém queria pegar a cozinha muçulmana, e eu aceitei — diz Robson, que revela bastidores da Vila:— Fiz um salmão defumado que quase deu briga. Queriam pegar mais de um pedaço e não havia tanta quantidade. Também fizeram sucesso a thal-makini (uma sopa), os noodles de camarão, o arroz basmati e o falafel.
‘QUERO COZINHAR COM ARTE’
Entre moradores da Muzema, os cursos de gastronomia tem pretendentes entusiasmados. Nascida e criada na comunidade, Daiana Cristina Pimenta da Silva, de 32 anos, optou pela oficina de comidas de pratos à la carte. Ela e o marido são donos de uma cantina na própria favela e querem ampliar o negócio.
— Um sonho meu é aprender a fazer frutos do mar — afirma.
Com 14 anos, Bruno, filho único de Daiana, também deve se inscrever no MaisQChef:
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— Meu filho já me disse que quer virar chef. Vai fazer o curso de gastronomia com certeza.
Dona de uma loja de óculos na Muzema, Gisélia Rodrigues, de 60 anos, será outra aluna do MaisQChef. Deve se inscrever na oficina de comidas finas.
— Gostaria aprender a fazer pratos bonitos e gostosos para a minha família, principalmente doces. Quero cozinhar com arte — destaca Gisélia, que vive há 12 anos na Muzema com o marido e as duas filhas do casal, de 35 e 24 anos.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior