O rapaz morador do Morro Dona Marta, em Botafogo, ainda não sabe dizer se escolheu a música ou foi escolhido por ela. Mas, tão logo o encontro ocorreu, não mais se separaram. Descoberta aos oito anos de idade numa escola local, a música trouxe suavidade para a dura realidade vivida na comunidade. E a esperança de uma vida melhor ao som do violino, instrumento pelo qual se encantou ainda cedo. Hoje, aos 24 anos, Paulo Maurício Dias Clementino, que escolheu Maurício Vivet como nome artístico, comemora a bolsa de estudos que ganhou na Escola de Música Villa-Lobos, no Centro.
— Nunca me imaginei estudando lá. Tem sido uma experiência importante para o meu aprimoramento profissional — comenta o músico, que agora também estuda piano, canto e violão. — Meu desejo é um dia ser reconhecido pela minha arte.
Vivet — que, em latim, significa “viver” — divide seu tempo entre as aulas, a família, as apresentações de música e de dança (ele também é dançarino) —, e o trabalho como vendedor. Isso porque a carreira como músico ainda não o permitiu deixar o trabalho de ambulante. Não é difícil encontrá-lo vendendo balas nos ônibus ou sinais da cidade. Ou, ainda, se apresentando na rua, em feiras, bares e eventos, seja tocando ou dançando.
— Viver só de música é relativo, tem muitos altos e baixos. Meu ofício verdadeiro é o de músico, mas ainda preciso ter outras opções para sobreviver — diz o jovem.
Com orgulho, Vivet conta que está cursando o ensino médio, pois precisou largar os estudos cedo para trabalhar e ajudar a mãe, faxineira, e o casal de irmãos mais novos. Recentemente, porém, retornou às salas de aula em busca de um futuro melhor.
— Quero ser um bom exemplo para os meus filhos e um orgulho para minha comunidade, minha família e meus filhos Sofia, de 6 anos, e Ângelo, de 1 — diz.
Vivet conta que os pequenos já manifestam interesse pelos acordes de seu violino e por seus passos de dança, mas comenta que não pretende influenciá-los a seguirem o mesmo caminho no mundo artístico.
— O meu caçula até brinca com o pandeiro e o violino. Se eles se interessarem no futuro, terei o maior prazer em ensiná-los — afirma.
E esse ofício de professor ele já vem exercendo com os jovens do Dona Marta. Mesmo como uma rotina atribulada como a sua, o músico consegue encontrar tempo para dividir sua arte com outros apaixonados pela música. Nas horas vagas, Vivet dá aulas de violino na porta de sua casa na comunidade.
— Tento dividir um pouco os conhecimentos que adquiri e venho adquirindo, pois estamos sempre aprendendo — diz Vivet.
Os próximos passos desse jovem que nunca desistiu de sonhar é continuar tocando a vida e o seu violino em busca de dias melhores.
— Meu sonho maior é montar um projeto social de música no Dona Marta. Vou precisar de muito apoio de outras pessoas. Mas sou um cara teimoso. Mesmo sem dinheiro, continuo batalhando. Não desisto nunca.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior