Tem da brilhante?”. A pergunta tem sido uma das mais ouvidas nas esquinas do Rio e até mesmo dentro de shoppings, onde dezenas de pessoas — entre criancinhas e marmanjos — têm se reunido para disputar imagens de Cristiano Ronaldo, Neymar, Messi e até de Pelé para completar o álbum da Copa da Rússia. A febre das figurinhas criou pela cidade verdadeiros núcleos de troca e venda dos cromos. Um dos mais movimentados fica na Rua Uruguaiana, entre as ruas Reitor Azevedo Amaral e do Ouvidor. Lá, crianças, jovens e adultos, todos com bolinhos nas mãos, consultam e rabiscam tabelas para saber que imagens precisam negociar.
O boom do espaço a céu aberto acontece no horário de almoço. Foi encurtando o tempo da refeição que o técnico de eletrônica Waldir Costa Jr. resolveu correr atrás, na última terça-feira, das figurinhas raras que faltam para completar seu álbum. Morador de Niterói, onde também participa do troca-troca que acontece nos fins de semana na esquina das ruas Presidente Backer e Tavares de Macedo, em Icaraí, ele conta que coleciona figurinhas desde a Copa de 1994, quando tinha 12 anos. Este ano, ele já gastou R$ 300 em 120 pacotinhos, mas o investimento não garantiu abundância das concorridas “brilhantes”. Ele só conseguiu seis figurinhas do tipo, que exibem escudos de cada seleção ou figuras lendárias do futebol, como Pelé ou a seleção alemã campeã de 2014, carrasca do traumático 7 x 1 contra o Brasil no Mineirão.
— Além das brilhantes, as da seleção que sedia a Copa, no caso, a Rússia, e as do Brasil são sempre as mais difíceis de se conseguir. E isso vem sendo assim desde 1994! — reclama.
Diante da procura de aficionados, surgiu nas ruas a figura do cambista. Com fichários lotados com ícones de cada time, eles estão vendendo figurinhas brilhantes e outras mais disputadas, como as dos craques Cristiano Ronaldo e Neymar, por R$ 10 cada uma ( cada pacote com cinco figurinhas custa R$ 2 nas bancas de jornal).
GRUPOS ORGANIZADOS EM REDES SOCIAIS
Embora muita gente acabe apelando para o mercado negro, nem todos os colecionadores acham graça em abrir mão do troca-troca. O professor Hermano Cardoso, de 30 anos, morador da Tijuca, por exemplo, tem preferido ir a um shopping do bairro para tentar completar o álbum, que está dividindo com o sogro. Até agora, a dupla só conseguiu colar 30% dos 682 cromos. Mas Hermano não desiste.
Cromo do português Cristiano Ronaldo para o álbum da Copa do Mundo de 2018, na Rússia – Divulgação/ Panini
— Para mim, o Pogba e o Messi estão sendo os mais difíceis, mas pretendo ir até o fim sem precisar comprar de cambistas, mesmo eles assediando muito. Tenho deixado o álbum com o meu sogro, que tem muito mais cuidado do que eu.
A dificuldade de se obter determinadas figurinhas já foi parar até nas redes sociais, em grupos criados para troca e também nas postagens abertas. O estudante de direito da PUC-Rio Elton Lopes, morador no Itanhangá, é um dos que reclamam da falta de “brilhantes”.
— Elas realmente estão vindo em pequena quantidade. Ontem mesmo, comprei 40 pacotinhos e só vieram cinco — diz ele, que está “quase lá”. — Faltam só 40 normais e 20 dessas especiais — entusiasma-se.
As pessoas usam um aplicativo no celular que facilita a troca de figurinhas – Paulo Nicolella / Agência O Globo
O sacrifício para completar o álbum vale a pena a longo prazo. Exemplares completos de Copas mais antigas têm feito sucesso em leilões virtuais. No site eBay, o álbum da Copa de 1970, no México, chega a ser vendido por R$ 7,2 mil. O da Copa de 1974, na Alemanha, está cotado em cerca de R$ 3,3 mil. O do torneio de 1978, na Argentina, chega a R$ 1,3 mil. O médico carioca Luiz Eduardo Amorim, de 48 anos, que começou sua coleção de álbuns da Copa em 1982, se surpreendeu:
— Nunca pensei que eles valeriam um bom dinheiro. Estão todos encapados para conservar e sob os cuidados do meu filho. Quem sabe no futuro ele não pense em vender?
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior