Quando Zilda Arns tragicamente faleceu, em decorrência de um terremoto no Haiti, em 2010, uma de suas irmãs constatou que os lírios haviam desabrochado antes da época — a pediatra e sanitarista adorava essa flor. A parente quis levar um raminho para homenagear a doutora quando o corpo chegasse em Curitiba, mas se viu impedida pela distância, já que se encontrava no interior do Paraná. Não fez mal, pois os lírios também abriram na capital no dia da cerimônia, e Zilda foi cortejada por muitos exemplares. Esse momento de contornos espirituais, que mostraria a força de seu legado no Brasil, foi usado pela atriz Simone Kalil para intitular uma homenagem teatral à médica. O resultado é o espetáculo “Zilda Arns — A dona dos lírios”, em cartaz no Teatro Candido Mendes, em Ipanema.
O monólogo, interpretado apenas por Simone, transporta os episódios mais importantes da trajetória de Zilda para o palco, evidenciando conquistas como a redução da mortalidade infantil no país pela atuação da Pastoral da Criança, entidade social fundada por ela há 35 anos. Assim como a doutora percorreu todo o Brasil para disseminar as campanhas do soro caseiro e do aleitamento materno, medidas simples que auxiliaram na preservação de muitas vidas, a personagem incorporada pela atriz também atravessa diferentes itinerários regionais para retratar o lado desbravador da catarinense.
— Zilda foi cinco vezes mãe, mas perdeu seu primeiro filho com dois dias de vida, por erro médico. Esse acontecimento foi sua grande motivação para fazer tudo o que fez. Ela não queria que outras mães passassem por isso, queria salvá-las daquela dor — explica a atriz, que na pesquisa para a peça foi a Curitiba, onde fica a sede da Pastoral, para conversar com amigos e familiares da sanitarista, indicada três vezes ao Nobel da Paz.
A ideia para a montagem, assinada por Simone e pelo diretor do monólogo, Luiz Antonio Rocha, surgiu da vontade da atriz de fazer uma peça sobre uma mulher forte — e Zilda representou bem o adjetivo, já que bateu boca com muita gente para cumprir a missão que deu a si. Apesar das críticas sofridas — por ter feito parcerias com a mídia e recebido verba pública para tocar seu projeto, por exemplo —, seguiu firme no propósito de fazer os cuidados preventivos infantis chegarem o mais longe possível, não importasse o custo.
— Zilda representou o poder feminino. Foi uma liderança que inspirou lideranças — comenta Simone.
Fonte: O GLobo
postado por: Raul Motta Junior