Inmet só tem sete estações para monitorar temporais no Rio; pelo padrão mundial, deveriam ser 84

A rede de equipamentos meteorológicos do Rio não é suficiente para prever ou monitorar, com precisão ideal, o volume de chuvas em áreas de risco. A constatação é do próprio Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), responsável pelas estações oficiais do país. Atualmente, o órgão tem 44 no estado, sendo sete na capital, uma quantidade abaixo da recomendada.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) estabelece como ideal uma distância de 15 quilômetros entre cada estação. Por esse padrão, o município do Rio deveria ter 84. Há, porém, um entendimento, por parte de especialistas, de que 30 quilômetros entre uma estação e outra seria suficiente para a cidade, devido às suas características geográficas. Mesmo assim, o número correspondente a esse modelo, 42, ficaria muito distante do existente.

A falta de pessoal para monitoramento meteorológico é outro entrave, pois não permite a coleta de dados das estações 24 horas por dia, o que prejudica o envio de alertas.

“A Defesa Civil precisaria de um número maior de dados para monitorar áreas de risco. Para dar conta de todo o trabalho, o ideal seria dobrarmos a quantidade de estações no Rio”

FRANCISCO DE ASSIS DINIZ
diretor nacional do Inmet
O diretor nacional do Inmet, Francisco de Assis Diniz, reconhece as condições abaixo das ideais. Segundo ele, a quantidade de estações no Rio é suficiente para avaliações de meteorologia menos complexas, mas não para fornecimento de todos os dados necessários à Defesa Civil, que é a principal “cliente” do instituto:

— Para avaliações de meteorologia, sobre a dinâmica da atmosfera, o número de estações disponíveis hoje é suficiente. No entanto, a Defesa Civil precisaria de um número maior de dados para fazer o monitoramento de áreas de risco. Para dar conta de todo o trabalho, o ideal seria dobrarmos a quantidade de estações no Rio. Mas são equipamentos de última tecnologia, importados da Finlândia. Precisamos de R$ 4,5 milhões para a compra e a instalação.

Nenhuma no centro
De acordo com Diniz, as estações podem estar separadas por até cem quilômetros para fazer avaliações meteorológicas de menor complexidade. Mas ele admite que, para as necessidades da Defesa Civil — e também do setor agrícola, que depende de previsões detalhadas para o planejamentos de suas atividades —, a distância máxima entre os equipamentos não poderia ser maior que 30km.

Para se ter noção da defasagem do sistema do Inmet na cidade, vale dizer que, na Zona Norte, só há uma estação, localizada no Alto da Boa Vista, área distante de vários bairros populosos da região. Além disso, o Centro está totalmente descoberto.

Atualmente, o Rio conta com estações convencionais (que precisam de profissionais para colher dados)no Alto da Boa Vista, em Santa Cruz e em Realengo. Tem ainda equipamentos automáticos na Vila Militar (Deodoro), em Jacarepaguá, em Marambaia e no Forte de Copacabana.

Uma estação meteorológica reúne vários sensores e mede pressão atmosférica, temperatura, umidade relativa do ar, precipitação, radiação solar, direção e velocidade do vento. Em um equipamento automático, os dados são liberados por hora; no convencional, um observador os anota. Como falta pessoal, houve, no interior do estado, uma situação insólita: três estações convencionais, localizadas em Campos, Itaperuna e Cordeiro, deixaram de ser utilizadas no mês passado porque seus responsáveis estavam de férias.

— Precisamos de mais gente. O último concurso público que contemplou o Inmet foi em 2011. Pedimos outros dois desde então, mas o Ministério do Planejamento não liberou — lamentou o diretor nacional do instituto.

“Trabalhamos em conjunto com a Defesa Civil, que pede muitas previsões, mas nos falta precisão para um alerta na Zona Norte”

THIAGO SOUSA
Meteorologista
A precarização da rede atrapalha a Defesa Civil. Como não há equipamentos em número suficiente, o Inmet não consegue elaborar laudos pluviométricos com exatidão em vários bairros de municípios da Região Metropolitana.

— Se choveu em São Gonçalo e nos pedem um laudo, a gente não consegue fazer um com precisão porque não existe estação na cidade. É tudo calculado por aproximação. Prejudica o trabalho porque, às vezes, chove ou venta num bairro e não em outro. Se tivéssemos mais estações, as projeções seriam mais fiéis à realidade — explica Thiago Sousa, especialista do 6º Distrito de Meteorologia, que abrange Rio e Espírito Santo. — Trabalhamos em conjunto com a Defesa Civil, que pede muitas previsões, mas nos falta precisão para um alerta na Zona Norte carioca, por exemplo.

Outro problema, causado pela falta de pessoal, é a impossibilidade de monitoramento 24 horas por dia de volume de precipitações.

— Chuva forte tem que ser acompanhada minuto a minuto, isso não existe no Inmet, porque só trabalhamos em horário comercial — informou Sousa.

O estado conta com dois radares, geridos pelo Inea, que ficam em Macaé e Guaratiba e conseguem detectar chuvas num raio de 250 quilômetros. O sistema da prefeitura, o Alerta Rio, não segue o padrão da OMM. Seus equipamentos têm características técnicas diferentes. A prefeitura possui um radar no Sumaré com alcance de 140 quilômetros, que identifica chuvas em tempo real, e 33 estações pluviométricas, das quais sete medem temperatura, umidade e vento.

— O Alerta Rio não atende às necessidades de observações meteorológicas emergenciais do Rio. Raras são as estações com coletas de dados que permitem a verificação do nível da água que cai no pluviômetro, por exemplo — afirma Débora Rodrigues, professora de climatologia da Universidade Estácio de Sá.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior