Especialistas afirmam que Avenida Niemeyer precisa de solução definitiva, e defendem projeto turístico para a via

A interdição por prazo indeterminado da Avenida Niemeyer, por ordem da Justiça, vai exigir que o uso da via, importante ligação entre Leblon e São Conrado, seja repensado pela prefeitura. A opinião é de especialistas ouvidos na terça-feira pelo GLOBO, que disseram ser imprescindível a realização de obras que possam impedir, em caráter definitivo, deslizamentos nas encostas do Morro do Vidigal. Uma das sugestões apresentadas é a transformação da via em um caminho turístico, o que reduziria drasticamente o trânsito em suas pistas. Até ser fechada, passavam pela Niemeyer cerca de 35 mil veículos por dia, incluindo ônibus de 13 linhas.

— Tem que ser feito um estudo geotécnico detalhado para a contenção da encosta. Esse problema não é novo e precisa ser resolvido. Não adianta mais a prefeitura aplicar medidas paliativas — diz Ricardo Viegas, engenheiro civil e presidente da Sociedade de Engenharia de Segurança do Estado do Rio de Janeiro.

MORADORES APREENSIVOS: Fechamento da Niemeyer e risco nas encostas deixam moradores e trabalhadores apreensivos nesta terça

O fechamento da Niemeyer aconteceu na terça às 15h12m, no fim do prazo concedido pela Justiça. Em sua decisão, a juíza titular da 3ª Vara da Fazenda Pública, Mirela Erbisti, aceitou o argumento do Ministério Público estadual e afirmou que “tragédia não tem data marcada para acontecer”. Ela condicionou a liberação da via a um estudo técnico que garanta não existir risco para motoristas. A prefeitura recorreu da decisão, mas, por enquanto, apenas táxis, vans, mototáxis e ambulâncias estão autorizados a passar pela via. Moradores do Vidigal são os mais impactados pela medida, além de comerciantes da região, onde há cinco hotéis.

A solução para a Niemeyer não deve ser fácil. Eva Vider, engenheira de transportes e professora da Escola Politécnica da UFRJ, destaca que a avenida se estende por um espaço limitado e tem excesso de curvas. Para ela, seu traçado, “espremido” entre as encostas do Vidigal e o mar, não é adequado para o tráfego pesado, mas sua belíssima vista lhe dá um enorme potencial turístico.

— Seria uma opção totalmente viável, uma vez que as vias alternativas já estão tendo que comportar o fluxo da Niemeyer em função de seu sucessivos fechamentos — observa a especialista, ressaltando que intervenções são fundamentais. — Quando você constrói uma via, os cálculos são feitos em função das características geológicas do momento. Se o solo começa a mudar, como está acontecendo ali, adaptações são necessárias. Não se trata de um erro de projeto, mas de uma mudança que precisa ser feita.

De acordo com Eva, pela manhã, o número de veículos que passam pela Autoestrada Fernando Mac Dowell passará de 4.500 para 5 mil por hora, por conta da interdição da Niemeyer. Ela também prevê impacto no Alto da Boa Vista, na Grajaú-Jacarepaguá e na Linha Amarela.

Além de obras de contenção de encostas, o sistema de drenagem da Niemeyer precisa ser reformado, alerta Marcos Barreto Mendonça, professor da Escola Politécnica da UFRJ e especialista em desastres provocados por deslizamentos. Ele defende uma combinação de várias medidas para a avenida, e frisa que, com as mudanças climáticas, temporais serão um fenômeno cada vez mais comum no Rio:

— Sem uma melhor organização da ocupação do espaço urbano, investimentos na capacitação de técnicos e conscientização da população, não vamos superar esse problema. Eliminar o risco é impossível, mas devemos prevê-lo e adotar as ações necessários para reduzi-lo.

Fonte: Globo
Postado por: Raul Motta Junior