Davenia Ferraz, shaper de pranchas, quer patrocinar novas surfistas

Os cabelos louros, os olhos claros e a fala calma escondem, à primeira vista, a intensidade de Davenia Ferraz. Mas é só conversar com ela para, em poucos minutos, ver sua personalidade se revelar. “Quero morrer surfando”, diz, assim que o papo começa. Natural de Curitiba e moradora do Recreio há 14 anos, Davenia é uma das primeiras mulheres a modelar pranchas no país, uma profissão que até hoje é majoritariamente masculina. São 13 anos de experiência e uma luta constante para se manter no mercado. Com seu trabalho, ela pretende incentivar outras designers de prancha e patrocinar novos talentos do surfe.

Seu dia a dia segue uma rotina. Acordar e ver o mar é imprescindível para que tudo flua bem. Quando dá tempo, pega onda; quando não dá, já começa a trabalhar nas encomendas. Em paralelo, toca o Rio Surf Hostel, uma mistura de hospedaria e clube (o O-Surfe) ao qual surfistas e outros interessados podem se associar para ter um QG perto da praia. A vida, hoje, é bem diferente da que estava acostumada. Davenia é formada em Administração de Empresas, com carreira em multinacionais. Largou tudo para se jogar no mundo das ondas. Garante não ter se arrependido nem um instante.

— Antes eu levava uma vida muito escrava; trabalhava muito. Mas uso o que aprendi no meu negócio. Para mudar, tive apoio do meu pai, que sempre acreditou em mim — resume ela.

Davenia começou a surfar tarde, aos 29 anos, e, logo depois, entrou na carreira de shaper. Ela conta que passou a adolescência vendo o irmão e amigos surfando em Itacoatiara, em Niterói, onde morou durante alguns anos. Chegou a se aventurar nas ondas de Itapuca, também em Niterói, mas conta que foi hostilizada por outros atletas e passou a achar que o mar não era lugar para garotas. Quando se mudou para o Recreio, já vislumbrava fazer pranchas. Foi no bairro que ela conheceu Henry Lelot, consagrado na profissão, que a encorajou a entrar para o ramo e com quem trabalha até hoje, inclusive no hostel. Foi também ali que ela decidiu que aprenderia a surfar.

— Depois que eu larguei tudo, vi no shaper uma possibilidade de carreira. Foi Henry Lelot que me apresentou à prática. É um mundo muito fechado, muito masculino, mas aos poucos eu fui ganhando confiança. Uns sete meses antes disso, comecei a surfar. Eu ficava vidrada nas ondas, nos campeonatos; era muito fã da surfista Andrea Lopes. Foi quando um amigo falou: “Caraca, por quanto tempo você vai ficar só olhando?” — relembra.

Ela conta que a maioria dos seus clientes é de meninos de 15 a 19 anos que se iniciam no surfe, além da free surfer Barbara Rizzeto. Davenia se considera uma artesã, e explica que sua carreira foi trilhada com muita persistência e amor pelo esporte. Para criar uma prancha, ela usa o programa Shape 3D, um dos mais modernos. Todo o planejamento é feito na máquina, mas a precisão da prancha (ou seja, o acabamento) é feita na mão. Ela dá um prazo de entrega de 25 dias, e cobra R$ 1.100 pela pranchinha, R$ 1.400 pelos modelos fun e fish, R$ 1.600 por uma longboard e R$ 2.600 por uma SUP. Quando a prancha é feita de epox, acrescenta R$ 150. Em breve, quer patrocinar novas atletas de surfe em campeonatos, uma forma de apresentar seu trabalho, investir no esporte no país e conquistar o público feminino:

— Quero investir na base e apostar em meninas competidoras. O circuito feminino ainda é muito deixado de lado.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior