Que a Tijuca perdeu a alcunha de bairro nobre há décadas todo mundo sabe. Porto certo dos ricos em busca do ar bucólico das montanhas próximas entre os séculos XIX e XX, o local perdeu a fama quando a cultura à beira-mar surgiu e a Zona Sul tornou-se o destino natural dos abastados. A urbanização descontrolada, a favelização, a violência e a especulação imobiliária, que cresceram vertiginosamente a partir dos anos 1950, enterraram de vez o glamour da região. Entretanto, depois de 2010, com a sensação de segurança maior (após a instalação das UPPs), a Tijuca começou a recuperar o seu valor. No mês em que o bairro completa 257 anos, O GLOBO-Tijuca mostra que, graças ao otimismo de seus moradores e comerciantes, a região começa a reviver um pouco dos seus tempos áureos.
Comerciantes que integram os polos gastronômicos na região e membros da Associação do Comércio e da Indústria da Tijuca comemoram a fase pós-UPP e sinalizam com ações e investimentos que comprovam: o otimismo não é em vão. Para o administrador público Pedro Paulo Bastos, de 27 anos, a Tijuca é, sim, um dos melhores bairros do Rio para se viver. Homem por trás da página “Passeador tijucano”, no Facebook, que conta curiosidades sobre a tradição e o cotidiano locais, e tem mais de três mil seguidores, Bastos finaliza sua dissertação de mestrado no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano da UFRJ, na qual defende a reviravolta tijucana. Com base nos dados que mostram que, de 1950 a 2010, a Tijuca passou por uma decadência, seja na parte simbólica de alcunha de bairro nobre, seja pelo descuido do espaço público, o pesquisador sustenta a mudança deste cenário em 2010. — Desde 1840, quando a Tijuca passa a ser considerada uma área de freguesia urbana, até a primeira metade do século XX, quem tinha dinheiro vinha para cá. Isso mudou com o perfil da urbanização, que passou para o eixo da praia. Com a favelização nas encostas, o crescimento desordenado e a especulação imobiliária intensas ao longo dos anos, o bairro foi descaracterizado. A partir dos anos 1980, a coisa piora, com o esquecimento por parte do poder público. Com a chegada das UPPs, esse quadro mudou, e agora acredito que a região esteja se consolidando como um dos bons destinos para se morar no Rio. A Tijuca é central e sempre foi um lugar muito bom com relação à infraestrutura e aos serviços. Tem todo tipo de comércio, transporte para qualquer lugar da cidade, lazer variado. Foi, durante muito tempo, ofuscada pela violência, mas essa nova fase está reavivando o otimismo dos moradores — acredita Bastos, morador apaixonado, daqueles que sentem prazer em passear por cada canto do bairro e em conhecer a sua história.
— Há duas Apacs na Tijuca, uma na área do Colégio Batista e outra no entorno da Pedra da Babilônia, ambas de 1994. Por ali há casas de grande valor arquitetônico, mas em outras partes do bairro há também casarões do início do século XX que precisam ser preservados — defende Bastos, acrescentando que, como todo bom tijucano ligado à história do lugar, sonha com a volta de pelo menos um cinema de rua.— Acho uma ofensa um bairro que teve a maior concentração de cinemas de rua na cidade, hoje em dia não ter nenhum. Sem dúvida vai dar retorno para quem investir, pois tem público. Todo tijucano que se preze sente falta disso. Seria muito bom para o comércio e para o lazer.
Momento para ficar registrado
No aniversário do bairro, com o objetivo de traduzir em imagens o amor dos moradores pela região, empresários de 11 bares e restaurantes do Novo Polo Tijuca criaram a campanha “Meu momento tijucano”. Quem postar no Facebook ou no Instagram fotos com as hashtags #meumomentotijucano, #novopolotijuca, #aniversariotijuca2016 terá suas memórias expostas nos estabelecimentos participantes da associação, a partir da próxima segunda-feira.
— As pessoas já estão mandando as fotos. Tem de tudo, das antigas às atuais. A ideia é promover recordações e registrar momentos de algum lugar da região. Recebemos várias imagens de gente no Maracanã, na quadra do Salgueiro, na Praça dos Cavalinhos, na Praça Saens Peña, no Tijuca Tênis Clube, no Alto da Boa Vista, além, é claro, dos bares e restaurantes participantes do polo — conta Gerardo Ruiz, um dos fundadores da entidade e proprietário do Buffet Chantilly.— Muitos tijucanos têm relação de carinho com os bares daqui. Eles se orgulham de chegar sozinhos e encontrar conhecidos, vizinhos, amigos. É uma das características da Tijuca. Nós, do polo, também postamos fotos nossas e fizemos um painel.
As fotos serão exibidas em telas de TV nos bares participantes, mas haverá também painéis. Espalhados pela Avenida Maracanã e pelas ruas Major Ávila, Barão de Mesquita, São Francisco Xavier, Professor Manoel de Abreu e Maxwell, os estabelecimentos que fazem parte do Novo Polo Tijuca são o Siri, o Bento Bar, o Cerveja Social Clube, o Sokana, o Universo da Cerveja, o Vikings, o Tmaki Club, o Meu Cantão, o Oregano’s, o Chantilly Buffet e o Camarão Arte Bia.
Além da campanha, os membros da entidade promoverão um culto ecumênico na Praça Varnhagen neste domingo, às 16h30m.
Comércio vibra com nova fase
Os comerciantes comemoram a nova fase do bairro, pós-instalação de UPPs.
— Desde o final da década de 1970, o comércio tijucano estava muito em baixa. Os assaltos e arrastões eram frequentes, o que afugentava os investidores. Os traficantes mandavam fechar as lojas por qualquer coisa. Hoje é diferente. No Shopping 45, por exemplo, me lembro que, em 2005, havia um andar inteiro de lojas vazias. Atualmente está tudo cheio. O auge da decadência se deu em 1996, quando colocaram grades na Saens Peña, que só foram retiradas em 2011 — afirma Jaime Miranda, presidente da Associação do Comércio e da Indústria da Tijuca (Acit).
Miranda defende o potencial consumidor da região.
— A Tijuca é um bairro enorme, com ótimo IDH. Na Grande Tijuca, a estimativa chega a quase 400 mil pessoas. Só no entorno da Saens Peña são 1.300 estabelecimentos. Considero essa praça um dos centros comerciais mais importantes da cidade — explica Miranda.
Criada em 1961, a associação comercial também sofreu com a crise no bairro.
— Chegamos a ter 35 associados no final de década de 1990. Hoje em dia somos 150 — comemora Miranda.
O movimento crescente no entorno da Praça Saens Peña chamou a atenção do empresário Ericson Motta, que decidiu investir na região. Ele abriu, há dois meses, o restaurante Galezzo, na Rua Desembargador Isidro.
— Meu pai tem um estabelecimento desde 1974 na Rua General Roca. Eu decidi apostar no grande movimento da Praça Saens Peña. Por dia passam por aqui mais de 150 mil pessoas — conta.
Fonte: O Globo
Foto: Guilherme Leporace
Postado por: Raul Motta Junior