Com novas casas e atrações, cena do rock conquista espaço na Zona Sul

“Se quiséssemos apenas ganhar dinheiro, montaríamos uma casa de samba ou pagode, que são muito mais lucrativas no Rio de Janeiro. O que fazemos é mais do que um negócio. Tem muita paixão e teimosia envolvidas”. A frase do músico e empresário Marcio Barros retrata bem o espírito de quem decide se aventurar pelo mundo do rock na Zona Sul da cidade. Em meio a altos e baixos, a região conta com casas tradicionais do gênero e novidades que estão movimentando o segmento. O negócio de Barros, o Bar Caverna, está entre esses dois extremos: tem apenas três anos, mas já formou um público fiel. E a partir deste mês passa a investir mais na música ao vivo, com shows variados aos domingos.

A casa na Rua Assis Bueno, em Botafogo, tem capacidade para 65 pessoas e traz na sua decoração bandeiras de bandas, caveiras e letreiros com frases marcantes, como “Highway to hell” (nome de um dos clássicos do grupo AC/DC). Entre os principais atrativos estão uma máquina de fliperama com dezenas de jogos, com os quais os clientes podem se divertir sem pagar pelas fichas; uma carta de drinques e hambúrgueres que muda semanalmente; e uma trilha sonora montada pelo próprio freguês.

— Tocamos desde o rock clássico até o mais pesado. Também oferecemos pop e reggae porque, na minha visão, o rock é muito mais do que um estilo musical, é um modo de vida. Bob Marley, por exemplo, é um cara totalmente rock n’roll. Então, toco vez ou outra — conta Barros.

Aos domingos, haverá, entre as s atrações ao vivo, a “roda de rock”, que funciona basicamente como uma roda de samba, mas com músicos de rock. O bar também já recebeu algumas intervenções musicais da Orquestra Petrobras Sinfônica, com versões sinfônicas de sucessos de grupos roqueiros.

— A única coisa que eu gosto de avisar sempre é: se você não gosta de música alta e rock, não precisa vir ao Caverna. Aqui, é isso o que vamos ter sempre — frisa o empresário.

Na Lagoa, o rock também mostrou há pouco tempo que definitivamente não morreu. Está longe disso. Em dezembro do ano passado, os sócios André Barros e Diógenes Queiroz — produtores de festas famosas como o Baile do Zeh Pretim, Fica Comigo e Camarote Allegria —, abriram o Jack Daniel’s Rock Bar, casa que inicialmente funcionaria até o dia 18 de fevereiro, com apoio da marca de uísque homônima. Mas o sucesso do local foi tão grande que uma campanha foi criada nas redes sociais — a “Fica Jack” —, pedindo para que ele se tornasse permanente.

— Conversamos com o pessoal da Jack Daniel’s e combinamos que se a campanha chegasse a um certo patamar, continuaríamos com o projeto. No fim, atingimos quase três vezes a meta inicial e recebemos o sinal verde para seguir em frente. No dia 11 de fevereiro, uma semana antes do fim do contrato, anunciamos o nosso Dia do Fico — conta Barros.

Segundo ele, uma das receitas para o êxito do espaço é o fato de não cobrar ingressos dos clientes.

— Comparando com outros gêneros musicais, o rock realmente é menos lucrativo no Rio, mas apenas no quesito venda de ingressos. Como nossa entrada é gratuita, viramos uma boa opção até para quem não quer gastar muito neste momento de crise — opina o empresário.

Jack Daniel’s Rock Bar tornou-se permanente depois de campanha nas redes – Leo Martins / Agência O Globo
Já no Leblon, uma efervescência recente também vem apresentando novidades para quem é apaixonado por rock. A Rua Tubira, que até há pouco tempo era conhecida popularmente como “a rua das oficinas mecânicas”, vem assumindo cada vez mais a faceta de polo cultural. O pontapé inicial foi a inauguração da Jeffrey Store, loja-conceito da marca de cervejas, que promove exposições e eventos culturais gratuitos. O rock é um dos segmentos explorados pela casa, que já organizou uma série de shows de bandas independentes e até uma reunião dos integrantes originais do grupo João Penca e seus Miquinhos Amestrados, atração do aniversário de dois anos da loja, em 2016.

— Desde o início, a ideia era que a casa fosse muito mais do que uma loja de cervejas e outros produtos da marca Jeffrey, mas um verdadeiro ponto de disseminação de cultura. Que, para que seja semeada, precisa ser oferecida de uma forma verdadeiramente democrática. Por isso, temos feito eventos gratuitos e, muitas vezes, ao ar livre — conta Gilson Val, um dos sócios da Jeffrey.

No próximo dia 20, a marca promove o seu primeiro festival de rock: o Jeffrey Garage. Organizado em parceria com a produtora Priscila Dau e o selo Slap, da Som Livre, o evento terá entre as atrações shows dos grupos Dirty Devil Band, Os Carburadores e Nove Zero Nove.

— Os shows serão dentro da loja, que vai virar uma garagem, com a banda tocando de frente para a rua. A inspiração veio depois que eu assisti a um comercial que mostrava que grandes invenções da humanidade foram criadas dentro de uma garagem. Achei apropriado fazer o evento dessa forma — comenta Val.

Com a chegada da loja, a revitalizada Rua Tubira tornou-se ponto de encontro de artistas e chefs renomados de cozinha. Roberta Sudbrack — frequentadora da Jeffrey — abriu o restaurante Da Roberta logo ao lado. Já numa noite de sexta-feira do mês passado, quem passou pelo local pôde assistir a uma canja do vocalista do Skank, Samuel Rosa, no show da banda de seu filho, Daparte.

A segunda-feira de carnaval deste ano foi diferente em Botafogo. Enquanto pela cidade centenas de blocos se apresentavam com propostas que mesclavam samba e marchinhas com diversos estilos musicais, a banda Venus Café desfilou em trio elétrico aberto, a partir da Rua Álvaro Ramos, tocando um repertório de clássicos do rock n’roll sem qualquer interferência de outros gêneros musicais. O “bloco”, batizado de Não Deixe o Rock Morrer!, foi promovido pelo Bar Bukowski. Segundo a casa, a experiência foi tão positiva que será repetida em 2018.

— O resultado foi muito melhor do que nós esperávamos. Quando vimos a Álvaro Ramos tomada de ponta a ponta, com dez mil pessoas, era impossível não se sentir emocionado. Um bloco de rock em pleno carnaval carioca lotado de crianças, famílias e jovens só nos deu ainda mais certeza de que o gênero não morreu na cidade do Rio — conta a gerente de marketing da casa, Priscilla Mulatinho.

Segundo ela, a ideia do projeto surgiu de clientes tradicionais do bar que se denominam ACDC (Associação dos Caras que Detestam Carnaval) e que não aguentavam mais só ouvir samba, pagode, sertanejo e o próprio rock em ritmo de marchinha e samba durante os dias de folia. Eles resolveram, então, criar um refúgio.

— O movimento já foi melhor no Rio, mas acho que sempre teremos espaço. Todo mundo tem um rock que lembra da infância ou de algum momento especial — argumenta Priscilla.

Na programação normal, a casa conta com shows semanais na sua garagem, que vão desde grupos com repertório autoral a tributos a grandes grupos e artistas do gênero.

Carnaval do Bukowski. Banda Venus Café tocou em trio elétrico pelas ruas de Botafogo – Divulgação/ Bruno Rodrigues
Assim como o Bukowski, que existe desde 1997, o bairro de Botafogo conta com uma concentração de casas tradicionais do gênero que resistem aos altos e baixos do segmento, como o Saloon 79, o Audio Rebel e a Casa da Matriz. Durante este mês, o bairro recebe ainda a Casa Levi’s, iniciativa da marca de roupas que ocupou um casarão na Rua Martins Ferreira com intensa programação cultural gratuita. O rock está mais do que presente entre as atrações. O encerramento da ação, no dia 20, será com um show do tremendão Erasmo Carlos.

— O rock tem uma importância fundamental dentro do projeto, já que ele diz muito sobre a marca, das raízes americanas do começo do século passado até os dias de hoje. Todo roqueiro usa calça jeans, isso foi fundamental para o alcance da Levi’s. A casa deve prestigiar as diferentes vertentes do estilo — explica Renato Joseph, curador e produtor artístico da Casa Levi’s.

A iniciativa, que já teve duas edições anteriores em São Paulo, contará, também, com o lançamento de uma coletânea com músicas inéditas de artistas independentes da cidade : a “Original’s studio”. Três participantes se apresentarão ao vivo no espaço no próximo dia 19. A escolha está sendo feita por meio de uma votação popular pelas redes sociais.

— O projeto foi desenvolvido em São Paulo no ano passado devido ao pouco espaço que as bandas independentes têm nos dias de hoje. Foi natural dentro da ideia da marca, que sempre se envolveu com música, criar algum evento que desse oportunidade aos artistas que não têm lugar para gravar e tocar em eventos de grande divulgação — explica Joseph, idealizador da coletânea.

Segundo ele, a diversidade cultural de Botafogo foi determinante para a escolha do local da ação.

— É um bairro com muitos jovens e cultura alternativa. Achamos a cara da Casa Levi’s. A ideia, agora, é levar o projeto para outras cidades do país fora do eixo Rio-São Paulo — conclui Joseph.

TRILHA SONORA PARA BRINCADEIRAS E ATÉ LEITURA

Além das casas tradicionais de show, o rock n’roll pode ser encontrado na Zona Sul do Rio em espaços com atrações inusitadas. Em Ipanema, no pub Banana Jack, ao mesmo tempo em que se diverte com promoções variadas e jogos como roleta e dardos, o público pode acompanhar shows de bandas independentes que são apresentadas pela própria mascote da casa, o gorila.

Livreiro Maurício Gouveia comanda o Clube do Vinil da Baratos da Ribeiro – Hermes de Paula/02-11-2016 / Agência O Globo
— Também já organizamos diversos concursos de bandas com o objetivo de lançar novos nomes no mercado. O intuito é abrir mais espaço para a música, além de revelarmos talentos, o que é bom para todos — declara Marcos Carvalho, um dos sócios.

Já a Livraria Baratos da Ribeiro — nascida em Copacabana e instalada há quase dois anos em Botafogo — é conhecida tanto pela variedade de publicações quanto pela vertente cultural, já que organiza uma série de eventos.

Um dos mais famosos é o Clube do Vinil, realizado toda quinta-feira, a partir das 19h. É um programa de rádio criado pelo DJ e proprietário da loja, Maurício Gouveia, em que, a cada edição, um colecionador é convidado para tocar e comentar alguns de seus LPs prediletos. O anfitrião toca canções no início e no fim da noite, mas é o convidado quem dá o tom.

O público pode acompanhar tudo do lado de fora da cabine num clima de festa intimista. A entrada é gratuita, mas, para que a celebração possa seguir de pé, o livreiro sugere que as pessoas comprem um livro na loja ou depositem R$ 10 na caixinha para ajudar com os gastos de manutenção do espaço.

A convidada de hoje é a estilista Ana Paula Moniz, dona da Beca Brechó — loja que ocupa um dos cômodos da Baratos até o dia 31.

— O Clube do Vinil existe justamente para que os colecionadores brinquem de maestros da pista… E Ana Paula sempre foi festeira profissional — comenta Gouveia.

Fonte: O GLobo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Custódio Coimbra / Agência O Globo