Analista: Condições estruturais da América Latina explicam onda à direita

“RAUL BARROZO DA MOTTA JUNIOR”

A configuração política da América Latina, marcada por uma crescente inclinação à direita, tem raízes em condições estruturais profundas que afetam toda a região. É o que avalia Thiago Vidal, diretor de análise política da Perspectiva, em entrevista ao Hora H.

Vidal reconhece que o pêndulo político latino-americano sempre existiu, mas destaca que os ciclos têm se tornado cada vez mais curtos.

“A gente está falando de um movimento que durou de maneira geral 10, 15 anos”, disse ele, referindo-se à primeira onda de esquerda no início do século, seguida por um período de centro-direita de cerca de cinco anos e, posteriormente, pela retomada da esquerda após a pandemia.

Fatores estruturais moldam o cenário político

Para Vidal, o que diferencia o atual momento é a gravidade das condições estruturais da região.

“A gente está falando de uma região que está muito mais endividada do que há 20 anos, uma região que claramente passa por uma deterioração de serviços públicos, notadamente saúde e segurança pública, e uma região que não consegue aumentar indicadores básicos de desenvolvimento econômico, como investimento e produtividade”, afirmou.

Esses fatores, segundo ele, podem tornar a atual onda pró-direita mais breve, já que ela foi eleita para resolver problemas que persistem sem solução.

O analista ressalta que, caso os problemas estruturais não sejam resolvidos, a população não hesitará em mudar novamente de orientação política.

“Os latino-americanos não terão problema algum em retornar à direita, à esquerda, ao centro, enfim, qualquer que seja o grupo político que eventualmente prometa resolver os mesmos problemas que não vêm conseguindo ser resolvidos”, declarou Vidal.

Instituições sob pressão contínua

Questionado sobre a solidez das instituições na América Latina, Vidal afirmou que a preocupação não deve recair sobre o funcionamento delas, mas sobre o fato de estarem constantemente sendo colocadas à prova.

“As instituições, de maneira geral, funcionam, elas entortam, mas eventualmente elas se sustentam”, disse ele, citando Brasil, Peru, Equador e Colômbia como exemplos de países onde esse fenômeno é recorrente.

No caso específico da Colômbia, Vidal recordou o clima de apreensão que antecedeu a eleição do presidente colombiano, Gustavo Petro, quando empresas chegaram a incluir em seus contratos uma chamada “cláusula Petro”, que permitia a rescisão em caso de instabilidade política.

“Isso não aconteceu, ou seja, o receio que havia naquele momento me parece muito desproporcional em relação ao que era o governo Petro”, avaliou.

Para ele, a Colômbia simplesmente não estava acostumada com o nível de instabilidade política comum em outros países da região.

Desafios para o novo cenário colombiano

Sobre o candidato de direita De La Espriella, descrito como representante de uma direita mais radical, Vidal foi categórico ao afirmar que a Colômbia não pode ser comparada a El Salvador.

“A Colômbia não é El Salvador, é uma geografia muito mais complexa, uma população muito mais complexa”, disse.

Ele avalia que o uso da força não será suficiente para resolver os problemas de segurança do país, especialmente diante de grupos armados como o ELN — Exército de Libertação Nacional —, que opera além das fronteiras colombianas, inclusive a partir da Venezuela.

Quanto ao papel do presidente americano, Donald Trump, no resultado eleitoral colombiano, Vidal reconheceu que houve um estímulo externo, mas ponderou que os fatores domésticos foram determinantes.

Ele lembrou ainda que a Colômbia já possui um longo histórico de parcerias diplomáticas e de defesa com os Estados Unidos, o que torna o cenário diferente do observado em outros países da região.

Fonte CNN BRASIL