Os pais dos quatro alunos do Colégio Pedro II que levaram fuzis de brinquedo e pacotes imitando sacos de cocaína e tabletes de maconha para uma exposição na hora do recreio, na unidade de São Cristóvão, na última terça-feira, foram convocados para uma reunião hoje na escola. Segundo o diretor adjunto do ensino médio, Reinaldo Pereira dos Santos, os pais dos três garotos e da menina que representaram “um dia na favela”, caracterizados como traficantes, terão que assinar um termo de responsabilidade. Embora descarte a expulsão ou mesmo a transferência dos estudantes, Reinaldo afirmou que haverá sanções, sem especificar quais seriam.
— Os pais assinarão um termo de responsabilidade. A família precisa estar inserida em tudo o que acontece com os filhos, estar próxima da escola. Caso haja uma nova ocorrência, eles serão transferidos de unidade — afirmou o diretor adjunto.
Reinaldo se disse surpreso com a escolha dos jovens para a exposição em homenagem aos formandos, que tinha como tema “o carioca”. Enquanto outros alunos escolheram representar cobradores de ônibus, sambistas e surfistas, o grupo optou por mostrar criminosos. Os estudantes, com idades entre 16 e 17 anos, montaram uma banquinha, onde exibiram pacotes imitando drogas, com inscrições alusivas às usadas por facções de bandidos. A única menina do quarteto vestiu short e maiô para posar para fotos com as amigas. Nas mãos, carregava uma réplica de fuzil, na cor dourada.
— Eles não tinham histórico de problemas na escola. Foi surpreendente — disse o diretor.
Incomodado com a repercussão do caso — um vídeo com a apresentação dos alunos ganhou as redes sociais, provocando polêmica —, Reinaldo não escondeu seu descontentamento:
— O furação veio para cá — lamentou, referindo-se ao Irma, que arrasou ilhas do Caribe nos últimos dias.
Segundo ele, é preciso “tirar um aprendizado” do ocorrido no que ele chama de “fatídico dia”.
— Haverá um trabalho com a comunidade acadêmica. Precisamos aplicar medidas educativas. Temos que colocar esse assunto em pauta. Se você pega o currículo do MEC, não há instruções sobre o que se deve falar, mas somos educadores — afirmou.
A direção da unidade prepara, por exemplo, dois debates sobre drogas, um com a presença de profissionais da Uerj e outro com representantes do comando do 4º BPM (São Cristóvão). Dois dos alunos que participaram da apresentação sobre tráfico moram em comunidades e convivem de perto com a realidade que retrataram na exposição.
ALUNOS DEFENDEM COLEGAS
Ontem, o recreio da última terça-feira ainda era motivo de conversa entre os 1.300 alunos do ensino médio. Estudantes ouvidos pelo GLOBO saíram em defesa dos colegas. Isabel Paiva, de 17 anos, afirmou que a ideia era retratar os estereótipos encontrados na cidade.
— O estereótipo é praia, mas é também o traficante. Muitas pessoas aqui moram ao lado de uma boca de fumo. Alguns pais conservadores manipularam o contexto pra criticar — observou a estudante do segundo ano.
Aluna do 1º ano, Júlia Moura, de 15 anos, classificou as críticas como hipocrisia:
— É isso que a gente vê. É hipocrisia acreditar que isso não faz parte do Rio. Não acho que essa representação vá influenciar alguém.
Para Júlia Luzia, de 16 anos, também estudante do 1º ano, não é possível ignorar a realidade do debate social:
— Fingir que não vê (essa realidade) não dá. Alguns até acharam desnecessário, porque sempre haverá outras opiniões, mas a maioria dos alunos não viu problema.
Procurado pelo GLOBO para comentar o caso, o Ministério da Educação informou, em nota, que o Colégio Pedro II, assim como as universidades e institutos, “têm gestão autônoma conforme previsto na Constituição Federal”.
A polêmica não é a única envolvendo a escola. No ano passado, ela ganhou destaque no noticiário e nas redes sociais ao permitir que alunos pudessem assistir às aulas de saia ou bermuda. À época, o informe publicado no site da instituição explicava que o objetivo da decisão era manter “a igualdade, a identidade e a diversidade de seu corpo discente”.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior