Abalou Bangu: Loco Abreu, Eike e Cabral colocam o bairro sob holofotes

O artista plástico Clécio Régis logo avisa ao repórter: “Bangu é muito mais que um presídio”. Morando há 45 anos “no melhor lugar da Zona Oeste”, ele faz questão de contar, empolgado, parte da longa história daquele trecho do subúrbio carioca que andava meio esquecido. A chegada do atacante uruguaio Loco Abreu ao time que leva o nome do bairro e as prisões do ex-governador Sérgio Cabral, da ex-primeira dama Adriana Ancelmo e do empresário Eike Batista abalaram Bangu, como diz a expressão popular.

— Gostamos de voltar à mídia, mas os moradores ficam chateados quando o bairro é associado ao presídio. Queremos ser lembrados por outras coisas, como o futebol — afirma Clécio, acrescentando que Bangu é um dos berços do esporte mais amado do país.

Dono de um ateliê do qual saem encomendas para empresas, novelas e escolas de samba, Clécio defende a tese que Thomas Donohoe, um escocês que residiu no bairro, é o verdadeiro pai do futebol brasileiro. Em setembro de 1894, Donohoe teria botado a bola para rolar — sete meses antes, portanto, daquela que é considerada a primeira partida oficial do país, promovida em abril do ano seguinte pelo brasileiro Charles Miller, em São Paulo.

Clécio é vice-presidente do Grêmio Literário José Mauro de Vasconcelos, uma espécie de museu dedicado a Bangu, e escultor da estátua de Donohoe que enfeita desde 2014 o estacionamento do Shopping Bangu, onde funcionava a antiga Fábrica de Tecidos, cuja estrutura do século XIX está preservada. A chaminé que se eleva a 55 metros de altura, de tijolos aparentes e arquitetura inglesa típica, pode ser vista tão logo se chega à região.

O CERTO É COMPLEXO DE GERICINÓ

A preocupação com aqueles que rapidamente associam Bangu ao presídio é tanta que, em 2004, autoridades atenderam a um apelo de líderes comunitários e comerciantes e mudaram o nome daquele que é um dos maiores centros de detenção do país. Para elevar a autoestima dos moradores da região, ficou estabelecido que lugar de criminoso é no Complexo Penitenciário de Gericinó. Mas outra fama não deu para mudar: a de “caldeirão” do Rio.

Nesta época do ano, o calor não dá trégua no bairro. Nas redes sociais, memes e piadas como “Bangu agora é a nova Dubai, quente e cheia de milionários” viralizam. Mas, em 2004 (coincidência?), a estação local de medição da temperatura foi desativada pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). Seu recorde é de 1984 — 43,1 graus. Oficialmente, Bangu perdeu o título de lugar mais quente da cidade, pois São Cristóvão registrou 44,2 graus em 2008, segundo o sistema Alerta Rio, da prefeitura. Mesmo assim, há quem diga que Bangu continua no alto do pódio.

— Uso guarda-chuva todos os dias. Não aguento o sol de Bangu — diz a aposentada Sônia Alves, certa de que em nenhum outro lugar do Rio o Astro Rei é tão implacável.

UM EQUIPAMENTO QUE NÃO DÁ REFRESCO

No calçadão de Bangu, os chuveirinhos funcionam precariamente. O sistema que deveria borrifar refrescantes gotículas de água ao longo de 600 metros foi inaugurado em 2002 pelo então prefeito Cesar Maia. Ele anunciou que a temperatura ambiente cairia até nove graus e chegou a comparar o bairro à capital da Holanda.

— Agora posso dizer que Amsterdã vai virar Bangu. Não existe centro comercial mais bonito no mundo — afirmou Cesar durante a inauguração do sistema.

Na última quarta-feira, uma equipe do GLOBO percorreu o calçadão e, sem chuveirinhos funcionando, percebeu que Bangu ainda não tem — ou perdeu — ares europeus. Comerciantes contaram à reportagem que alguns equipamentos até estavam funcionando na véspera, mas pararam. Também reclamaram do cheiro e da coloração da água que é borrifada.

Em outubro do ano passado, Marcelo Crivella comemorou sua vitória nas eleições municipais na quadra do Bangu Atlético Clube. Orou, cantou e até sambou. Desde que assumiu a prefeitura, ele esteve no bairro em pelo menos duas ocasiões: participou do plantio de 40 mudas de espécies florestais e abriu o ano letivo da rede municipal de ensino (no último dia 2). Clécio Régis, assim como outros moradores, espera que as visitas de Crivella sejam frequentes, já que, na sua opinião, o bairro necessita de “um verdadeiro choque de ordem”.

— Estamos no limite. Bangu precisa de conservação, de limpeza. Pode parecer bobagem, mas a verdade é que ninguém joga lixo num ambiente limpo. É um bairro muito sujo. Transformações só acontecem por iniciativa dos próprios moradores. O prefeito realmente tem vindo para cá, mas, de fato, a situação não mudou. De qualquer forma, estamos esperançosos — disse o artista plástico.

A violência também tem preocupado os moradores de Bangu. Sozinho, o bairro tem quase o mesmo número de roubos a pedestres que toda a Zona Sul. Numa comparação entre 2015 e 2016, a quantidade de casos saltou de 2.128 para 3.073, um aumento de 44,4%, segundo o Instituto de Segurança Pública. Apesar da estatística, o clima de subúrbio permanece vivo:

— As pessoas ainda conversam na calçada. Não se vê isso no Recreio ou na Barra — garante o estudante Rodrigo Rocha.

ARQUIBANCADAS CHEIAS OUTRA VEZ

Neste verão, Bangu ferve com o sol e com a chegada de Loco Abreu, que virou ídolo do Botafogo, onde jogou em 2010 e 2011. Aos 40 anos, o atacante retornou ao Rio para defender o Bangu Atlético Clube, que está comemorando 113 anos. A apresentação de Loco, que veste a camisa 113, causou euforia entre os torcedores e foi responsável pela venda de 350 camisas em um mês, quantidade que corresponde à metade de todo o estoque vendido no ano passado, conforme revelou a coluna Panorama Esportivo, do GLOBO. Banguense fanático, o jornalista e historiador Carlos Molinari afirma que a vinda do uruguaio também tem ajudado a retomar a relação do clube com os moradores.

— Foi uma boa jogada trazê-lo para o clube. Na apresentação e na estreia dele, a torcida lotou Moça Bonita, muitas pessoas não iriam ao jogo se não fosse a presença de Loco Abreu. As arquibancadas ficaram cheias de moradores do bairro, que voltaram a olhar para o time do lugar onde vivem. O banguense, que há tempos não comprava ingresso, hoje voltou a frequentar o estádio — diz Molinari.

Ao longo da semana passada, O GLOBO tentou falar com Loco Abreu, mas sua assessoria de imprensa informou que o atacante não daria entrevista. Apesar de ter marcado três gols em três jogos (um em cada), ele anda chateado porque o Bangu ainda não venceu — foram dois empates e uma derrota até agora.

Nos dias de jogos, Loco Abreu costuma almoçar no Frango Chic, um restaurante que serve frango na brasa, arroz, farofa e legumes em mesas e cadeiras de plástico. O operador de caixa Rafael Ribeiro é vascaíno, mas tirou uma selfie com o jogador. Ele diz que, com o craque, não tem frescura:

— Loco Abreu é bem tranquilo. Dá atenção para todo mundo, e come o que a casa tem a oferecer.

Por falar em futebol, a figura do já falecido bicheiro Castor de Andrade continua viva no bairro. Ex-patrono do Bangu Atlético Clube — e da Mocidade Independente de Padre Miguel —, ele é lembrado em desenhos do roedor que tem o mesmo nome. Ainda que desgastados pelo tempo, são vistos em muros, e também aparecem em camisetas do time e da escola de samba. Em seu livro “Bangu”, da coleção “Cantos do Rio”, o jornalista Roberto Assaf explica essa admiração: “A intimidade com o futebol, o samba, o jogo do bicho e, é claro, o carisma amealhado com o tremendo assistencialismo que passou a prestar às comunidades carentes, logo tornaram-no figura admirada, ‘o pai de todos’ em Bangu”.

No alto de seu ateliê, Clécio Régis instalou uma escultura de um outro animal, o galo, e a “vestiu” com a camisa do Bangu. Ele explica:

— Trata-se de um mito. Bangu estava com tanto azar que o galo veio trazer sorte. Mas depois do Campeonato Carioca vou transformá-lo num castor.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto:Fernando Lemos / Agência O Globo