‘A espera imanente’, de Rafael Matos em cartaz em Niterói

Desenhos dramáticos e intrigantes, traços poéticos e alguns contornos propositalmente inacabados são algumas das características dos 17 quadros da mostra “A espera imanente”, de Rafael Matos, em cartaz na Sala José Cândido de Carvalho, no Ingá.

Com diagnóstico de esquizofrenia, Matos encontrou na arte sua principal terapia. Paciente há mais de dez anos do Hospital Psiquiátrico de Jurujuba, ele retrata situações, às vezes angustiantes, que viveu ou viu ao longo desse período no hospital. As telas, criadas com carvão e papel seco, revelam uma inspiração surrealista ao enquadrar, num aspecto aleatório, figuras humanas, cachorros, bois e cavalos.

Um dos quadros favoritos do artista é o que ele segura a mão de sua antiga psicóloga, Paula Zyngier; na mesma tela, numa segunda perspectiva, ela aparece junto ao marido e à filha. Matos diz que a psicóloga foi muito importante em seu tratamento e que ela precisou interromper o atendimento para se dedicar à família. Na abertura da mostra, a primeira individual do artista, psicóloga e paciente se reencontraram.

Quando inspirado na sua antiga psicóloga, Paula Zyngier – Analice Paron / Agência O Globo
Matos teve o primeiro contato com a arte aos 5 anos. Criado pelos avós, foi incentivado pelo tio artista a seguir o caminho. Ele chegou a frequentar ateliês de consagrados artistas, como Bandeira de Melo, que, aos 90 anos, também esteve na abertura da exposição. Com a morte dos avós e a venda de sua casa, Matos passou a dormir nas ruas, e foi com a ajuda da arte, vendendo seus quadros, que conseguiu sobreviver.

Ao chegar ao HPJ, os profissionais perceberam a afinidade de Matos com a arte, o que motivou a criação de um ateliê lá dentro, onde ele vive até hoje.

— Ter um objetivo é muito importante, e a arte é o meu. O ateliê me deu as ferramentas necessárias para pintar, e isso me trouxe de volta a sensação de pertencer à sociedade — diz o artista.

Matos aprofundou seu desenho na arte da animação e atualmente assiste a aulas de aperfeiçoamento na Uerj.

A curadora Desirée Monjardim diz que deu à mostra nome de “A espera imanente” porque percebeu nas obras de Matos uma espera em várias áreas da vida, como pela cura, pelo amor e pelo reconhecimento do seu trabalho:

— Os desenhos revelam o que ele sente, espera e percebe em sua volta.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Analice Paron / Fotos Analice PAron