Após 40 anos de televisão, a jornalista Leda Nagle tem algo novo a dizer. Ou de uma forma nova. Há pouco mais de um ano, ela usa um cantinho de seu apartamento, em São Conrado, para fazer algo que sabe muito bem: entrevistas. Mas, agora, para o Canal Leda Nage, no YouTube.
De onde veio a ideia do canal no YouTube?
Meu filho (o ator Duda Nagle) há muito tempo me cobrava isso, ele acha que o YouTube é a TV do futuro.
E você?
Também acho, mas, quando ele começou a falar disso, eu ainda estava no “Sem censura”, na TVBrasil. Ficava difícil! Eu apresentava um programa de duas horas, com seis entrevistados, todo dia, ao vivo, no Centro. Quando fui demitida, ele disse: “Oba! Agora você vai fazer o canal!”.
Você aceitou logo?
Pensei e percebi que era uma boa, uma forma de não ficar de luto após ter sido demitida. Mas é claro que fiquei triste, chorei, me descabelei. Tudo o que uma pessoa normal faria.
Você não esperava, certo?
Claro que não. Tinha feito três reuniões para tratar da renovação do contrato. Depois de 20 anos e oito meses, fiquei sem chão. Mas não sou do tipo que fica sentada chorando.
Na internet, como você busca entrevistados?
Sou eu que pego o telefone e vou atrás. No caso do Bolsonaro, por exemplo, consegui um telefone dele, liguei e disse: “Meu nome é Leda Nagle, sou jornalista, e queria entrevistar o Jair Bolsonaro para o meu canal no YouTube”. Ah, e o meu filho me ajuda também, ele é muito safo, um ótimo produtor.
E qual o critério para a seleção? Você convida pensando nas visualizações?
Não adoto esse critério, sinceramente. Um dia liguei para o Diogo Vilela, porque eu o acho um superator. Luiz Fernando Guimarães, mesma coisa; Ney Matogrosso, acho um supercantor; Bruno Gagliasso é um cara superlegal. Estou apostando que um conteúdo de boa qualidade tem visualização.
Qual a média de visualizações dos vídeos?
Depende. Às vezes, você entrevista um ator, acha que vai bombar e não bomba. Entrevista uma filósofa e bomba.
Não deve ser difícil para você obter as entrevistas.
Não é. Graças a Deus. Todo mundo me dá força, me prestigia. São 40 anos nisso, né?
É diferente entrevistar na internet e na TV?
Tenho uma liberdade maior. Gravo na minha casa, então, estou no meu território, sem salto alto, broche etc. As pessoas, e eu também, ficamos mais à vontade do que num estúdio de TV. E elas não precisam maneirar em nada. As entrevistas ficam mais profundas, consigo tirar mais coisas dos convidados.
Está gostando, então?
Está sendo uma experiência libertária, nova e corajosa, porque já sou uma senhora, uma “geriatuber”. Mas estou firme aí nesse barato. Só não encontrei ainda uma forma de ganhar dinheiro. Estou em busca de patrocinadores. Rola monetização, mas é baixa.
Você tem convidado pessoas que já tinha entrevistado?
Meio a meio. Nenhuma entrevista é definitiva, aprendi isso muito cedo. Sempre que você entrevista alguém, fica faltando alguma coisa. Para fazer um livro sobre uma pessoa, você a entrevista umas dez, 12 vezes, cada encontro com horas de duração, e não esgota tudo. Imagina uma entrevista de uma hora.
Pode-se dizer que você está passando mais tempo atualmente assistindo a conteúdo no YouTube do que na televisão?
Muito mais. 70% a 30%. Vejo canal de culinária, o do meu filho Duda, o da Sabrina (a apresentadora Sabrina Sato, nora de Leda), o da Antônia Fontenelle…
Qual é o seu público?
Fica entre 18 e 35 anos. Outro dia estava em São Paulo com o Duda e fui a uma loja de produtos naturais. Duas semanas depois ele voltou sozinho e um funcionário, jovem, disse para ele: “Pô, aquela mulher que veio aqui contigo tem um canal irado no YouTube, sabia?”. Ou seja, o cara não me conhecia da TV, mas sim do YouTube. Achei um barato.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior