Trans querem disputar coroa de rainhas do carnaval carioca

Elas não andam, elas desfilam. São tops, capas de revista — e podem se tornar rainha e princesa do carnaval do Rio em 2018. Conforme noticiou nesta terça-feira a coluna Gente Boa, do GLOBO, o concurso anual, que elege ainda o Rei Momo, pode ter duas transgêneros na disputa. A modelo Marcelly Morena, de 30 anos, e a cabeleireira Nayara Brunelle dos Santos, de 29, demonstraram interesse em concorrer ao título com outras 20 candidatas. Para se inscreverem (o prazo vai até a próxima sexta-feira), as duas ainda dependem da mudança de seus nomes nas carteiras de identidade: o concurso exige a apresentação de um documento que comprove que elas são mulheres.

— Já dei entrada na Justiça com o pedido de mudança de nome na carteira de identidade, mas, por enquanto, só tenho um ofício. A defensora pública pediu ao juiz a tutela antecipada para eu participar do concurso, e o processo está em andamento. Vamos torcer para que a decisão saia a tempo. Sei o quanto é importante representar as mulheres trans do estado no carnaval do Rio — afirma Marcelly, que fez cirurgia de mudança de sexo aos 25 anos e prefere não revelar o nome de batismo.

AINDA SEM CIRURGIA

O desejo de levantar a bandeira da causa trans — e LGBT — na folia é compartilhado por Nayara, que nasceu Bruno e, apesar de ainda não ter se submetido ao procedimento cirúrgico, se vê como mulher há 15 anos. Ela tem 1,72m de altura e 75 quilos.

— Sempre tive vontade de participar de competições de beleza, mas sempre me retraí. Assistia aos ensaios técnicos das escolas de samba da arquibancada. Quando resolvi me inscrever para o concurso de Rainha do Carnaval do Rio, muitos disseram que eu sofreria preconceito. Mas eu quero concorrer e, se eu ganhar, vai ser uma glória tremenda. Acho que as pessoas vão passar a ver os transexuais com outros olhos — acredita Nayara, dizendo que se sentiu vitoriosa ao ver a drag queen Pabllo Vittar divando ao lado de Fergie no Palco Mundo do Rock in Rio, no último sábado.

A ideia de se candidatar ao título partiu de Marcelly, que foi princesa trans do carnaval 2017 de Duque de Caxias, na Baixada, sua terra natal.

A modelo trans Marcelly Morena, de 30 anos, quer ser rainha do carnaval carioca – Reprodução / arquivo pessoal
— Fui à sede da Riotur (na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca) e falei sobre o meu desejo. Tive um pouco de medo, vergonha de as pessoas me olharem diferente. Sei que é um concurso voltado para heterossexuais, mas fui muito bem tratada — conta Marcelly, acrescentando que aprendeu a sambar na quadra da Grande Rio, sua escola do coração.

A receptividade partiu de Marcos Lima, produtor da corte do carnaval do Rio há mais de 20 anos e grande incentivador da participação das transexuais na competição.

— Independentemente de qualquer coisa, elas são seres humanos com direitos — destaca Marcos.

A opinião dele, no entanto, não é compartilhada por outras concorrentes, que não quiseram se identificar. Elas demonstraram insatisfação com a possibilidade de ter que trocar de roupa na frente de “outros homens”.

— Acho que só falaram isso por inveja e recalque. Temos o corpo muito bonito, perfeito. Não tem diferença alguma entre mim e outra participante — garante Marcelly, que tem 1,73m de altura e 80 quilos “muito bem distribuídos.

A Riotur afirma que o concurso para Rainha do Carnaval é destinado a “candidatas do gênero feminino”, sendo que a aceitação das inscrições depende do que consta no registro civil. “Possuindo a candidata reconhecimento jurídico como do gênero feminino, é irrelevante sua condição anterior”, conclui a empresa, em nota. A final está prevista para 27 de outubro. A rainha eleita ganhará R$ 30 mil.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior