“Ouvi alguns tiros”. “Alguém sabe me informar se o toque de recolher estará valendo a partir das 17h?”. “A Caixa Econômica está funcionando?”. “Agora pela manhã estão soltando fogos”. “Deus abençoe o nosso dia, que tudo seja calmo”. Desde domingo, quando começaram os conflitos na Rocinha, até páginas de serviços da comunidade nas redes sociais – como grupos de compra e venda de usados no Facebook – tornaram-se ferramentas para garantir a sobrevivência dos moradores na favela que é alardeada como a maior do país e tornou-se bairro durante o governo de Marcelo Alencar, em 1993.
São mensagem pedindo informações sobre o simples ato de ir e vir. Tanto de pedestres quanto de vans e ônibus. Rocinha News, Jornal Fala Roça, Rocinha em Foco, Rocinha são algumas dessas páginas, muitas criadas para registrar notícias, outras, dedicadas a outros fins, adaptadas diante de uma realidade marcada por tiroteios, toque de recolher, comércio fechado, disparos de fogos de artifício para alertar sobre operações policiais – dias agitados, sem paz e bênçãos.
Uma leitura em conjunto das mensagens postadas nos últimos dias revela ali uma espécie de diário dessa guerra, que começou “particular”, a partir de um racha entre bandidos de uma mesma facção, e se tornou “pública”, com estação de metrô fechada, túnel interditado, rota de ônibus desviada. Tornou-se, mais que isso, uma questão de segurança pública. No caso, segurança pública ausente, já que as autoridades só se pronunciaram sobre o fato nesta terça-feira, mais de 48 horas depois do início de tudo.
Medo, angústia e revolta são sentimentos que costuram a narrativa nas redes. “Gente, bom dia. Tá tranquilo hoje? Dá para sair para trabalhar?”, postou uma moradora, nesta manhã, numa página de compra e venda de usados na Rocinha. Teve como resposta 163 comentários. “Gente, alguém tem um grupo no zap para ter informação da Rocinha 24 horas? Se não tiver deixar aqui o zap para abrir um ”, sugere outra. Cento e vinte e nove pessoas se manifestaram demonstrando interesse em participar do futuro grupo. Uma delas se diz desesperada só de imaginar a volta para casa nesta terça, mesmo com a presença da polícia nos acessos à comunidade.
Os pedidos de informação são “atropelados” por oferecimento de “kits de enxoval por R$ 250”, que é seguido de post com foto da favela fundida a imagens de Jesus Cristo, que logo depois segue seu caminho com a entrada da oferta de uma cama de solteiro com colchão por R$ 150. O tamanho da Rocinha pode ser um dos fatores para essa colcha de retalhos virtual. De acordo com o último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010, cerca de 70.000 pessoas moram na comunidade – dado considerado subestimado -, que ocupa uma área de aproximadamente 847.629m². Quatorze sub-bairros dão corpo à Rocinha: Barcelos, Rua 1, Rua 2, Rua 3, Rua Nova, Roupa Suja, Cachopa, Vila Verde, Macega, Vila Cruzado, 199, Laboriaux, Boiadeiro e Dioneia. Quem mora num deles muitas vezes não sabe o que se passa em outro.
E é nas redes sociais que todos se encontram. Nas páginas de notícias e da Associação de Moradores da Rocinha, os informes passados dizem respeito aos serviços básicos, ou melhor, a falta desses serviços: partes da comunidade estão sem água, luz e internet. “Após incessantes tentativas de acordo entre a Comblurb e a Light conseguimos mediar e levar as duas empresas a voltarem com seus serviços e os devidos reparos. Contamos com a colaboração dos moradores pois a Light está vendo os prejuízos e levantando os materiais necessários para os devidos reparos. Estamos trabalhando para o pronto restabelecimento de serviços básicos da comunidade”, diz um post desta terça-feira, por volta das 13h, ilustrado com fotos de equipes realizando reparos na rede elétrica. Desde domingo, Light, Cedae e Comlurb tinham suspendido serviços na comunidade por “motivo de operação policial e para zelar da integridade física de seus funcionários”, como relata outro comunicado da associação.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior