Mangueira vai levar para a Sapucaí enredo sobre corte de verba

Se a briga entre o prefeito Marcelo Crivella e as escolas de samba do Rio prejudicou a harmonia, o quesito humor do carnaval sairá intocado. O carnavalesco Leandro Vieira anunciou nesta quinta-feira, em entrevista ao vivo transmitida pelo Facebook do “Extra”, que o enredo da Mangueira para 2018 vai, justamente, abordar a decisão da prefeitura de cortar em 50% a verba para a folia.

O presidente da Liga, Jorge Castanheira (de paletó azul marinho, ao centro) e diretores das escolas de samba do Grupo Especial, conversam no estacionamento da prefeitura após a reunião com CrivellaApós reunião com Crivella, Liesa diz que prefeitura avalia novo percentual de corte de recursos para carnaval
A Estação Primeira de Mangueira apresentou o enredo “Só com a ajuda do Santo” no carnaval de 2017Mangueira cancela feijoada e convoca sambistas contra o ‘desmonte do maior espetáculo cultural do planeta’
“Com dinheiro ou sem dinheiro, eu brinco” é uma crítica direta à decisão de Crivella, que alega ter reduzido os subsídios destinados às agremiações para aumentar os gastos com creches conveniadas ao município.

O enredo questiona o cerceamento de manifestações culturais por parte da prefeitura, mas também põe em discussão o atual modelo do carnaval, que se afastou do povo.

— Fiquei profundamente incomodado com a tentativa de “vilanizar” a atividade cultural, criando uma oposição entre as escolas de samba e as crianças na creche. Vale lembrar que é papel do estado fomentar a cultura, segundo a Constituição. Além disso, vemos uma asfixia às políticas para a comunidade LGBT e uma tentativa de cerceamento dos eventos de rua, que atingem rodas de samba e festejos juninos. Está ganhando força um pensamento conservador no Rio, a cidade da diversidade. É hora de denunciar — afirma Leandro.

Uma autocrítica também marcará o enredo, assim como já aconteceu em clássicos da Sapucaí, como “Bumbum paticumbum prugurundum” (Império Serrano, 1982) e “E o samba sambou” (São Clemente, 1990).

— Nosso desfile olha para a forma como as escolas de samba têm lidado com a população, com um Sambódromo elitizado, e pouco diálogo com as comunidades. Temos que entender por que parte da população não nos apoiou na questão da verba. Nos últimos dois anos, vi uma multidão atrás do desfile da Mangueira. Vi também ensaios técnicos lotados. Se há um divórcio entre cariocas e agremiações, dá para ver que as partes ainda se gostam — diz Leandro.

O título do enredo da Mangueira traz versos da marchinha do carnaval de 1944, “Eu brinco”, de Pedro Caetano e Claudionor Cruz. Na época, durante a Segunda Guerra, a crise econômica ameaçava a realização dos desfiles. Mas a canção mostrava que, de qualquer jeito, o povo ia para as ruas se divertir. No desfile, haverá manifestações do entrudo, como banho de mar à fantasia e cordões, além de figuras como Zé Pereira, Pai João e homens travestidos.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Roberto Moreyra em 22/2/2017 / Agência O Globo