Desde fevereiro a Sala Municipal Baden Powell, em Copacabana, passou a contar com gestão artística, técnica e administrativa de uma equipe que tem o cantor e compositor João Donato como residente artístico. A missão é resgatar a relação do bairro com a bossa nova. E não só com ela. O projeto Toda Essa Bossa, apresentado pela produtora de Donato, é o responsável por renovar a programação do espaço, oferecendo cultura através de shows musicais e de dança, oficinas, exposições, espetáculos de teatro e até óperas, entre as várias atrações que procuram fidelizar um público carente de boas opções de entretenimento a preços acessíveis. A diversão no local custa entre R$ 10 e R$ 50.
O grupo estará à frente do centro durante dois anos e escalou para curadoria das atrações nomes fortes da cultura brasileira. A ideia é movimentar o endereço, que andava esquecido e restrito à música. Amanda Bravo, Moacyr Luz e BNegão são os responsáveis por pensar a música; Fábio Ferreira, Luiz Roberto Meira e Marlene Querubim, as artes cênicas; Toz, Ana Durães e Cristina Granato, as artes visuais; e Salgado Maranhão, Francisco Gregório Filho e Marla de Queiroz, a literatura. Com isso, ganhou o público que, de segunda a segunda (ou de terça a domingo, quando os artistas envolvidos conseguem uma folga), passou a contar com uma agenda plural. Segundo Ivone Belem, gestora geral, a proposta do novo Baden Powell é ampliar as possibilidades para além das fronteiras do bairro.
— Quando começamos o projeto, pensamos em oferecer algo mais abrangente. Na licitação, no espaço onde a prefeitura descreve os equipamentos públicos, chamou a nossa atenção o fato de que apontavam a terceira idade como o público-alvo da sala. Mas não queremos só este tipo de espectador. Nós nos preocupamos também com o frequentador flutuante. Não queremos ficar restritos à classe média de Copacabana — comenta Ivone, mulher de João Donato. — Temos de pensar que estamos em um lugar privilegiado, com metrô na porta e várias linhas de ônibus com parada perto. Copacabana é cercada por gente de outros bairros que trabalha aqui.
Foi com este pensamento que o grupo inaugurou a nova programação no dia 8 de fevereiro: show de João Donato com participações de Tulipa Ruiz, BNegão, Moacyr Luz e Donatinho, sucedida de festa comandada pelos DJs Zédoroque e Zeh Pretim, além de apresentação do coro de crianças do projeto social Harmonicanto, do Morro do Cantagalo. De lá para cá, a proposta inclusiva da equipe só fez crescer o número de parcerias.
— Há muita liberdade para criar. Não submetemos nada à prefeitura, só informamos o que vai ter na Baden Powell. Existe uma relação forte de confiança que nos permite isso. Óbvio que não podemos fugir da bossa nova, já que ela nasceu em Copacabana. E por ser o João um dos precursores e por ter a sala o nome que tem. Está no nosso DNA, mas não queremos nos limitar a isso — acrescenta Ivone.
Desde fevereiro, já passaram pela casa nomes como Ed Motta, Leny Andrade, Elisa Lucinda, Francis Hime, Marcel Powell, Boca Livre, Fátima Guedes, Cordão do Boitatá, Mulheres de Chico, Marcos Valle, Roberto Menescal, Leila Pinheiro e Zé Paulo Becker. E vem muito mais por aí. Para este mês, estão programados shows como “Nelson Sargento: samba-canção também é samba”, no dia 25; e o “Nação hip hop ocupa a Sala Baden Powell”, no dia 29. Neste sábado e no dia 15, João Donato apresentará “A bossa de João Donato” ao lado de Angela Ro Ro e Fernanda Abreu, respectivamente.
— Eu e as pessoas que trabalham comigo sempre pensamos em oferecer espetáculos de qualidade e promover os talentos. Tem dado certo porque todo mundo elogia. Há pessoas que vêm todo dia e, quando não vêm, sentimos falta — diz João Donato.
Segundo ele, uma sala com o nome de Baden Powell (violonista nascido em Varre-Sai, no estado do Rio, em 1937, e morto em 2000) tinha que ter uma programação à altura.
— Os preços são acessíveis para que as pessoas se acostumem a vir. É a chance de formar público — diz Donato.
Com João Donato à frente da casa, a ideia é trazer alguns de seus parceiros internacionais para shows na Baden Powell pelo menos uma vez por semestre. Viriam atrações dos Estados Unidos, da França, do Uruguai e da Argentina. Mas esta não é a única medida pensada para despertar o interesse do público. Atualmente, já existem parcerias com o MetroRio e o Sindicato dos Comerciários que geram descontos nos ingressos. E conversas com o Conselho Regional de Educação fizeram com que o Festival da Canção das escolas municipais fosse realizado no local em agosto. A proposta é formar novo público numa época em que a bilheteria conta cada vez mais.
— A verba investida em cultura despencou. Então, temos que gerar bilheteria. Antes, o músico acertava o cachê e nem ligava para o quanto era arrecadado. Isso gerou uma situação um pouco cômoda aos artistas, que hoje já não existe mais — conta Ivone Belem, que se diz agradecida pela rotina de casa lotada.
Outra forma encontrada pela administração para incentivar a cultura é a política de contrapartida, em que os grupos oferecem alguma melhoria para a sala e/ou para a comunidade.
— Dispomos de quatro salas multiuso que podem ser usadas para ensaios, passagens de som e reuniões. Se o artista não tem como pagar, propomos a contrapartida. Pode ser a cessão de um equipamento ou serviço, doação de projetor de imagem em alta resolução ou oferecimento de uma oficina às crianças — explica Ivone.
Para explorar ao máximo as possibilidades e gerar interesse contínuo no local, o grupo procura otimizar a grade de horários, investindo em faixas do dia que normalmente têm menor procura, a exemplo do projeto Domingos Clássicos Internacionais. Sob a curadoria de Fernanda Canaud, ele apresenta música clássica todos os domingos, às 11h, e conseguiu público fiel. O projeto termina dia 3 de dezembro.
— Imagine reunir 390 pessoas em um espetáculo com 72 alunos do Villa-Lobos tocando Bach e Chopin, entre outros grandes nomes, num domingo de manhã. Tomou uma proporção que nos surpreendeu — conta Fernanda.
Para Jane Di Castro, que estará em cartaz dia 12 com o show “Dama das canções”, ver Copacabana como um espaço pujante para a arte remonta aos tempos de glamour do bairro:
— É gratificante para o artista ter um local bem estruturado em que o público se sinta prestigiado — diz ela.
Na programação de artes cênicas, que antes não havia no espaço, o gestor de teatro Sérgio Medeiros também comemora a boa aceitação. Entre as peças já recebidas, que receberam média de 250 a 300 pessoas, estão “Calango deu”, “Brimas” e “Entregue seu coração no recuo da bateria”, esta última em cartaz até o fim do mês, às quintas e sextas, dias destinados às encenações adultas. Aos sábados, o teatro infantil toma conta da programação, sempre às 16h. “Ludi na revolta da vacina”, “Mário, mar e amor” e “Antonio, um caminho de luz” foram as peças que já entretiveram a criançada. Em julho, a programação para os pequenos sofre uma pausa para a preparação para o mês que vem, intitulado “Agosto do riso”.
— Cada final de semana teremos um espetáculo inédito. Em dois deles, receberemos o grupo Circo da Silva; e nos outros dois, o Bando de Palhaços — diz Medeiros, que anuncia as peças “Cama de gato” e “O auto da compadecida”, em agosto, e “Chabadabadá — Manual prático do macho-jurubeba”, de Xico Sá, para setembro.
Também estão previstas apresentações teatrais do circuito alternativo em uma das salas multiuso do Baden Powell, com capacidade para entre 30 e 40 pessoas.
Entre as oficinas abertas ao público está Corporeidade na Terceira Idade, às terças; Canto Coral, com Cris Delanno, às quartas; e Interpretação e Montagem, com Renato Carrera, às segundas, terças e quartas-feiras. Este último dará origem, a partir de outubro, ao projeto Teatro de Segunda, que vai ocupar a Baden Powell no início da cada semana.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Analice Paron / Agência O Globo