Um dos símbolos da revitalização da Zona Portuária, o prédio do Moinho Fluminense, primeira fábrica de moagem de trigo do Brasil, está abandonado e virou local de esconderijo de bandidos. Quem passa hoje pela construção — que deveria estar sendo preparada para abrigar um complexo empresarial, residencial e hoteleiro — só vê uma paisagem decadente: janelas quebradas, portas de ferro com sinais de tentativa de arrombamento e pedaços de vidro nas calçadas.
Bem diferente do que se esperava, em 2015, quando a Bunge do Brasil, proprietária do imóvel, anunciou a venda do espaço para as empresas Carioca Engenharia e Vinci Partners que construiriam ali um megaempreendimento. Na época, as obras no conjunto de prédios tombados e no terreno, que ocupam uma área de cem mil metros quadrados, foram orçadas em R$ 1 bilhão. A previsão era que a atração fosse aberta ao público em 2018. Mas, no prédio, que se destaca no traçado da Via Binário do Porto, não há movimentação de operários.
Segundo comerciantes da região, homens têm invadido o edifício para roubar peças e pedaços de metal das máquinas que restaram da fábrica. Para invadir, quebram janelas e portas e já usaram até marretas para arrebentar paredes. Anteontem, uma equipe de reportagem do GLOBO encontrou pedreiros fazendo reparos num buraco. Usuários de crack também se drogam no prédio.
— Estão roubando tudo. Os ladrões fazem buracos nas paredes, depredam. Eles pegam as peças de cobre e outros metais e, quando não conseguem carregar, jogam as grandes pesadas na rua. É um risco para quem passa na calçada — diz o funcionário de um prédio próximo, que pediu para não ser identificado: — As pessoas que passam na calçada não sabem o risco que correm. Sem contar que embaixo passam carros.
COMPLEXO FOI ESQUECIDO
O projeto previa que os silos do moinho, usados para o armazenamento de trigo, seriam transformados num sofisticado hotel com 200 quartos. Procurada pelo GLOBO, a empresa Vinci Partners não se manifestou. Já a Bunge Brasil esclareceu, por meio de nota, “que o contrato de compra e venda do Moinho Fluminense foi assinado em 2013. No último mês de janeiro, o comprador rescindiu o contrato. A rescisão é hoje objeto de arbitragem e, portanto, a empresa não pode dar mais detalhes sobre o caso.” A prefeitura não quis comentar o abandono do local.
A rescisão do contrato, na prática, significa que o projeto de revitalização do conjunto arquitetônico não deve sair do papel. Anunciado como uma das âncoras do Programa Porto Maravilha, previa a construção de um centro médico, salas comerciais para aluguel, além de quatro a cinco salas de cinema e praça de alimentação. O complexo ocuparia quatro quadras: além da parte histórica, um novo prédio com mais de 20 andares de salas comerciais.
O Moinho, inspirado em construções industriais inglesas do século XIX, foi tombado em 1986. Na fachada, destacam-se passadiços de ferro e desenhos em baixo-relevo, com figuras de dragões alados que podem ser vistos da Avenida Venezuela.
Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Agência O Globo