Colégios da região escondem muitas histórias e contam com grande acervo

Mais do que escolas com estrutura física imponente, algumas instituições tradicionais da rede pública de ensino da região e o Colégio Militar escondem em seus interiores curiosidades históricas de fazer inveja a qualquer museu. O Instituto Superior de Educação (Iserj), o Colégio Militar e as escolas municipais Orsina da Fonseca e Pereira Passos reúnem bustos e esculturas de grande valor arquitetônico, além de centros de memória com acervos de fotografias, peças e documentos que ajudam a contar a história dessas instituições. O destaque fica por conta de um piso com desenhos de suásticas no porão do imponente teatro do Instituto de Educação.

Até hoje, um mistério em torno do piso ecoa pelos corredores do tradicional colégio, fundado em 1930, como uma escola normalista, que visava à formação de educadoras. Afinal, teria o desenho do revestimento sido escolhido por motivos meramente estéticos (era usado para fins decorativos há milênios no Oriente, na Grécia Antiga e em Roma, muito antes de a suástica ter o seu simbologismo propagado por Adolf Hitler), ou haveria por trás dessa escolha uma conotação política e ideológica de extrema-direita? Segundo Carolina Granato, professora de História do Iserj, não é possível fazer uma afirmação contundente. Mas ela diz que decorações com a cruz gamada podem ser vistas em outros lugares da cidade inauguradas antes da ascensão do nazismo, em 1933.

— Podemos ver esse piso também em um edifício na Lapa, no antigo Hotel da Ordem Terceira do Carmo, do começo dos anos 1920; e na Escola Municipal Mário Veiga Cabral, também na Tijuca, construída em 1922. Esse é um símbolo, que na Índia, por exemplo, indicava fertilidade, e que nessa época era moda — explica.

Já o historiador Milton Teixeira acredita que a conotação ideológica não pode ser totalmente descartada.

— Temos que pensar na conjuntura da época. Havia uma polarização entre os intelectuais de direita e de esquerda que lutavam para conquistar a mente dos educadores. Não acho que tenha sido colocada logo na inauguração, pois Hitler ainda não havia chegado ao poder na Alemanha. É capaz de que tenha sido posta após a Intentona Comunista, em 1935. A partir daí, nas instituições de ensino da época houve uma penetração forte da extrema-direita — pondera.

Teixeira acha que o piso no porão do teatro do Instituto de Educação pode, sim, ser um símbolo para pregar a disciplina, a centralização, o nacionalismo e o anticomunismo aos educadores:

— Todos sabem que o Brasil de Getúlio flertava com Hitler. Pode ser que a suástica estivesse em outros lugares da escola, não só no porão. Mas, a partir de 1941, quando o Brasil declarou guerra à Alemanha, o símbolo tomou proporções negativas e teve que ser banido.

Para ele, o piso deve ser preservado, ainda que o nazismo evoque as piores lembranças.

— Impressionou-me bastante esse achado e ainda mais que não tenha sido retirado à época da Segunda Guerra. No entanto, independentemente das lembranças ruins do nazismo, o piso deve ser preservado pela memória das duas ideologias, a da esquerda e da direita, que disputavam as mentes dos educadores do Brasil. Até porque ela está no porão e não na porta principal.

A Faetec informou que, desde 1965, o prédio do Iserj está inscrito no livro de tombo das Belas Artes da Divisão do Patrimônio Histórico e Artístico e que qualquer proposta de reestruturação precisa ser deliberada a partir de um plano diretor aprovado pelos órgãos de tombamento.

Para Breno Melaragno, advogado criminalista e presidente da comissão de segurança pública da OAB, o que torna a cruz suástica um crime é o seu uso para incitar o preconceito e o nazismo.

— Primeiramente, esse prédio é da década de 1930, e os símbolos foram feitos na sua construção em um contexto totalmente diferente do de hoje. E elas estarem ali, pura e simplesmente, não tipifica um crime. Mas, hoje em dia, queira ou não, recordam diretamente as atrocidades nazistas; então, caso alguém divulgue-as incitando o ódio, estará cometendo um delito — analisa.

Ainda no Instituto de Educação, destacam-se os bustos, na entrada principal da Rua Mariz e Barros, do militar republicano Benjamin Constant (1836-1891), um dos entusiastas da criação da Escola Normal, que passou por diversos lugares até ganhar a sede fixa atual; e também o de Anísio Teixeira (1900-1971), que se encontra no salão nobre, junto a uma cópia da escultura “Catedral” de Auguste Rodin. Importante ressaltar que Anísio pressionou os órgãos públicos para a construção do prédio atual, e também para que o nome Escola Normal mudasse para Instituto de Educação, logo após a sua criação, em 1932.

Chama a atenção a arquitetura grandiosa do prédio em estilo neocolonial, idealizado pelos arquitetos José Cortez e Ângelo Brunhs. O local já serviu de cenário para gravações de filmes, novelas e séries, sendo a mais famosa “Anos dourados”, de Gilberto Braga, de 1986. No pátio principal há um chafariz desativado que protagonizava um dos famosos rituais da escola, segundo Gilson Bueno, coordenador de eventos:

— Aqui (no pátio principal) era feita a “Festa do adeus”, cerimônia grandiosa de formatura das normalistas. Quando terminava, elas pulavam de roupa e tudo na água, pois sabiam que não seriam suspensas.

Com capacidade para mais de 500 pessoas, o teatro da instituição é outro espaço que merece destaque. É o maior do gênero na região, e embora não seja aberto ao público, recebendo somente montagens internas, realizadas por alunos e para suas famílias, ainda exala o glamour dos áureos tempos. Na área externa, telhas azulejadas com desenhos de coruja, animal que simboliza a sabedoria, decoram o teto do escola, outro detalhe que confere charme ao espaço e que se mantém desconhecido do grande público. Em desuso, o gabinete odontológico, com seus equipamentos do início do século XX, também compõe um cenário histórico curioso inexplorado.

Em uma das salas do instituto funciona um ambiente especial: o Centro de Memória, onde é guardado um acervo com documentos raros e muitos outros objetos antigos, que mostram o quanto o Iserj é tradicional. Móveis; uniformes; carteirinhas; bilhetes de bonde; materiais dos laboratórios de química e física; rostos de diversas etnias utilizados nas aulas de Sociologia, História e Geografia; convites de formatura; medalhas; carimbos; mata-borrões; apontadores de mesa para lápis; contratos de professores famosos, como o maestro e compositor Heitor Villa-Lobos; e uma grande preciosidade que chamou a atenção da equipe: uma tese da escritora Cecília Meireles, que se preparava para se tornar professora do instituto, intitulada “Espírito victorioso”, de 1929.

— Esse nem a Biblioteca Nacional tem. Ela não passou. Devem ter achado a tese muito vanguardista para a época — diz Vera Regina Barbosa, coordenadora do centro de memória.

No Rio Comprido desde 1922, a Escola Municipal Pereira Passos foi inaugurada pelo prefeito Carlos de Oliveira Sampaio e tombada pelo Patrimônio Público Municipal em 21 de junho de 1990. Destacam-se a decoração em estuque da fachada e o busto do ex-prefeito que lhe dá nome, confeccionado pelo escultor Rodolpho Bernardelli. Antes instalado no pátio da antiga prefeitura, demolida para a abertura da Avenida Presidente Vargas, no começo dos anos 1940, foi levado para os jardins da escola, onde está até hoje.

Na Rua São Francisco Xavier outras duas instituições tradicionais, ambas do fim do século XIX, guardam curiosidades: a Escola Municipal Orsina da Fonseca e o Colégio Militar. Construído em 1898 com o nome de Instituto Profissional Feminino, o Orsina da Fonseca visava à formação de mão de obra. Em 1912, após o falecimento da mulher de Marechal Hermes da Fonseca, admiradora do local, o instituto recebeu o nome atual. Funcionaria nesse molde até 1960, quando virou colégio. O belo prédio original, em estilo neoclássico, típico da primeira República, foi demolido da noite para o dia em 1964, a mando de Carlos Lacerda, governador do então Estado da Guanabara. O motivo informado na época era o famoso “progresso”, mas a professora de História Teresa Vitória Fernandes acredita em viés político:

— Como havia um foco de resistência aqui, por parte de estudantes secundaristas, contra a ditadura militar, eles demoliram. Mas Lacerda disse que demoliu o prédio para “uma nova fase da educação brasileira”. Uma pena — opina ela que, junto com o também professor Rodrigo Thomaz, cuida do Centro de Memória.

Daquele tempo, foram preservados os gradis, as palmeiras imperiais, as estátuas “A leitura” e “A escrita”, da Fundição Val d’Osne, que estão logo na entrada do colégio. Além de peças como louças, móveis, pianos, placas, diplomas, atas e fotos da antiga escola e da mulher de Marechal Hermes, guardados no Centro de Memória, fundado em 2011. Também há objetos recentes, como troféus conquistados por equipes esportivas e os escudos de metal do uniforme, por exemplo.

“A leitura”. Estátua, do século, XIX, foi feita na famosa Fundição Val d’Osne – Analice Paron
No Colégio Militar, fundado em maio de 1889, ainda na época do Império, a História é preservada em um belo museu dentro do Palacete Babilônia, conhecido também como casa rosa, construído em 1864 pelo empresário Antônio Alves da Silva Pinto. Em 1867, Jeronymo José de Mesquita, o Barão de Mesquita, comprou a mansão. Por lá, há fotos antigas; mobiliário da época do Barão de Mesquita e documentos como a certidão de compra do imóvel, além de medalhas e honrarias; peças de antigos laboratórios; bustos de militares; e muitos outros documentos históricos.

Pantheon. Quadro reúne os melhores alunos da história do Colégio Militar – Analice Paron
Os colégios citados nesta reportagem estão abertos à visitação. Basta entrar em contato com as instituições antecipadamente.

Fonte: O Globo
Postado por: Raul Motta Junior
Foto: Analice Paron / Agência O Globo